Sonho ou pesadelo?

Fui logo ali, na esquina do universo espiar o que o Pequeno Príncipe aprontava. Moleque levado que é, está sempre me deixando de orelha em pé. No meio do caminho, encontrei com o Menino Maluquinho batendo panela e gritando Fora Bozo! Fora!

Chegando em Marte, onde fiz uma parada para descansar, ouço um maluco tentando convencer algumas extraterrestres de que Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus. Elas olhavam o mirrado ser de orelhas pontudas e comentavam entre si: Coitado, deve ter cheirado gasolina da Lua em excesso. Ficou lelé! Partiram gargalhando deixando o pobre palestrar ao vento.

Tratei de sair de fininho também. Segui viagem para Urano, interessada em saber das novidades. Qual não foi minha surpresa ao chegar num beco e dar de cara com Diógenes, o cínico. Discursava em voz potente, os últimos ensinamentos de Sócrates. Relatava aos cães, seus fiéis ouvintes, que a humanidade precisava aprender a se desapegar dos excessos. Após sua fala, mirou com olhos úmidos sua seleta platéia e agradeceu, pedindo licença para descansar dentro de sua barrica.

Decidi retornar à Terra após esse passeio pitoresco. No caminho, na esquina das Três Marias, fui derrubada por Alice que corria atrás do Coelho que sumiu na poeira estelar em átimo de segundos. Esse sabia ser rápido!

Chorosa, sentou-se ao meu lado, ajudou a limpar o barro brilhoso que grudou em minha roupa e perguntou se eu voltava para casa. Afirmei que sim. Sorrindo, pediu para me acompanhar pois sentia saudades de sua casa, de seus familiares.

Chegamos encontrando uma metrópole vazia, no qual pessoas batiam panela nas suas varandas gourmet gritando: Fora Bozo! Fora! Em outras varandas, alguns lunáticos cantavam o hino nacional ao microfone exigindo a volta da ditadura militar. Um sentimento de déjà-vu tomou conta de mim. Isso me era familiar…

Chorosa, Alice despediu e sumiu no cruzamento das avenidas Ipiranga com São João deixando-me confusa raciocinando com os botões da jaqueta de Sgt. Pepper’s : Que porra é essa?!

Caloroso amante

Desde pequena, preferia a natureza aos humanos. Os adultos eram complicados e as crianças, idiotizadas. Na família, era tida como a caçula esquisita. Trocava qualquer brincadeira para ficar na companhia das galinhas e patos do terreiro, dos gatos vagabundos da vizinhança, dos cães de rua. No entanto, sua companhia preferida eram as plantas.

Sentia imensa alegria ao acompanhar o crescimento delas em vasos, horta e pomar. Traçava diálogos longos e animados com as margaridas do jardim, avencas, jiboias, lírios da paz. Era íntima das hortaliças. Ouvia com muita atenção as reclamações do pé de tomates, surpreendia-se com as confissões dos alfaces, as fofocas do pé de chuchu que adorava se esparramar contando tudo em detalhes.

Ao término de cada dia, permanecia petrificada admirando o pôr do sol. Aquela bola de fogo no céu a estasiava. Não cansava de assistir ao bonito espetáculo.

Seu sofrimento tornou-se constante ao ingressar na escola. As crianças mostraram diariamente o quanto podem ser más. Todo dia, uma brincadeira nova para humilhar a tal da “esquisitinha caipira”. Sua dor emocional começou a se manifestar em seu corpinho franzino. Brotoejas, resfriados, febre, noites mal dormidas, perda de apetite.

Retornava para casa e se refugiava em meio a plantação onde, entre lágrimas, expunha para suas companheiras seu drama.

Seus pais, preocupados, passavam as noites discutindo o que fazer sobre o comportamento da pobre menina. Sua mãe, amorosa, dizia que tinham que ter paciência com a pequena. Era de todos, a mais sensível. Seu pai, homem rude, discordava. Para ele, só mesmo uma boa sova resolve mimos. Caso não melhorasse, ele ameaçava retirá-la da escola. Afinal, pra que tanto estudo para uma menina? Melhor trabalhar sua personalidade para os afazeres de casa.

Em pouco tempo sua ameaça se concretizou. Ao contrário de receber como castigo, a pobrezinha agradeceu imensamente a bondade do pai em dar por encerrado seu sofrimento. Jurou que nunca mais entraria em uma escola. Agradeceu também, junto ao pé de café, as orações que suas companheiras da flora fizeram, intercedendo por ela.

As folhas do calendário foram rolando uma a uma até chegar ao aniversário de dezoito anos. Aquela mirrada criança se transformou em uma bela moça. Uma beleza sem retoques artificiais. Cuidava dos afazeres domésticos com sorriso sempre presente no rosto que agora, adquirira cor pois passava horas ao sol, lavando, estendendo roupas no varal, levando comida aos porcos, galinhas, patos. Aguando a plantação.

Muitos pretendentes surgiram no entanto, nenhum despertava seu interesse. Seus irmãos foram se casando e mudando nas proximidades. Ela, firme na convicção de que não desejava casar com ninguém. Sua mãe apenas acenava com a cabeça e pensava: Nem todas vieram para casamento. Ela será nosso amparo na velhice. Confio em sua bondade.

Novas folhas do calendário rolaram. Muitas estações mudaram encerrando seus ciclos naturais. Agora, aos trinta e cinco anos, quase nada mudou em sua rotina. Alguns fios de cabelo branco surgiram em sua vasta cabeleira que mantém arrumado num coque. Ganhou alguns quilos que – ao contrário de suas irmãs agora mães -, trouxe-lhe sensualidade. O trabalho pesado fortaleceu sua musculatura. Ganhou pernas e braços torneados, belos. As rugas ao redor dos olhos e boca não a envelheceram, trouxeram-lhe uma aura de sabedoria. Aprendeu a arte e os benefícios medicinais das plantas e agora, recebe mães com suas crianças para benzer e passar medicações que a natureza oferece. Transformou-se numa guardiã e estudiosa das ervas.

Outro hábito adquirido com o passar dos anos, foi permanecer nua em seu quarto. Sentia-se integrada à natureza. Sabia ser parte dela. Como as demais pessoas jamais aceitariam tal comportamento, confina-se em seu espaço após a labuta e, toda tarde, antes do sol se pôr, desnuda-se, deita ao chão próximo da janela que, para seu deleite, é grande, e passa as horas finais do dia sentindo-se abraçada pelo calor. Despede-se dele como quem se despede do amante. Com olhar de quem deseja mais e mais. Hoje, pela primeira vez, sentiu algo diferente. Enquanto tomava seu banho de sol, mantendo os olhos fechados, ouviu uma voz masculina pedindo para que abrisse as pernas. Mesmo estranhando, obedeceu. Aos poucos, o calor do sol envolveu seu botão ainda intocável. Delicadamente, desabrochou abrindo-se.

Inexperiente, assustou-se querendo fechar as pernas contudo, a voz novamente disse-lhe: Não meu amor, confie em mim. Quero te fazer mulher e feliz. Relaxe e deixe-me penetrá-la. Desejo te conhecer por dentro também.

Entre contorções que a princípio foram suaves até o espasmo e o grito de prazer intenso, sua primeira experiência sexual foi na companhia desse, que se tornaria seu companheiro até a hora derradeira, quando retornaria à natureza, transformando suas moléculas em adubo para uma formosa quaresmeira e, continuar pela eternidade, a receber os carinhos de seu amante.

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Bloqueio

E meu compromisso com a escrita em um projeto, como fica? Pergunta que faço a mim mesma na solidão de minha mansão de quarenta metros quadrados. Solitária, percebo meu boicote fazendo de tudo menos sentar, focar e escrever.

Levanto, sigo para a janela na ânsia de buscar inspiração. Rua deserta. Uma ambulância desce a rua quebrando o silêncio com seu trinado desesperado. Espanta alguns pássaros que se encontram na cobertura do prédio em frente.

Vocalize de dor que me causa náusea. Recuo cerrando as cortinas. A realidade de fora me assusta.

Volto para a frente da tela do computador na vã tentativa de iniciar o texto. Minha atenção é desviada para o livro que se encontra com leitura suspensa – assim como minha vida -, jogado na estante. A capa azul do Gigante adormecido, de Ishiguro, tenta me seduzir. Grita silenciosamente. implora minha atenção. Quero. Desejo. Juro que digo a verdade mas a paralisia me detém no lugar. Sinto um vento frio penetrar pela janela da cozinha que chega até mim causando arrepio. Quero. Desejo. Juro que anseio levantar e fechar a janela. Lembro que estamos em outono, rumando para o inverno. Meus pés, congelados, só de meia, repousa no chão de porcelanato.

Um aroma de temperos invade minhas narinas. Reconheço que meu vizinho está novamente fazendo berinjela com bacon e pimentão assado…

Esse aroma me transporta para infância. Mamãe preparava esse prato aos domingos. Adorava chochar pão no óleo que ficava na forma quando, depois de pronto, mamãe mudava para uma marinexsedlex que não quebrava nunca. Recordo que minha mãe ainda a tem, em meio a tantas louças guardadas em seus armários.

Meus olhos ardem, síndrome de olhos secos elevado a enésima potência. Sofro repentinos acessos de bocejos. Das duas uma: ou a noite mal dormida cobra descanso, ou estou com encosto bravo , segundo minha avó. No entanto, diagnóstico mais provável: sofro de tédio acompanhado de doses cavalares de solidão prejudicada por excesso de redes sociais que sugam o pouco de vida que ainda me resta.

Tudo isso desperta fome. A física e a emocional. Estouro pipoca, asso um bolo, faço tapioca, ou simplesmente uma vitamina de frutas? Que dúvida cruel!

Mas eu precisava tanto escrever…

Um entre tantos por aí

Ele reinou soberano entre as mulheres. Sempre foi assim e, pelo visto, será até chegar o dia de se aposentar dessa vida. A presença masculina nunca foi o forte em sua existência. É claro, teve pai, irmãos, primos. Contudo, a presença feminina foi marcante em seu dia a dia. A mais forte foi, sem dúvida, sua mãe. Mulher de atitude. Bonita a sua maneira. Não foi mulher de vaidades. Gostava de andar descalça, sentir a terra, esfregar a sola ressecada na canela e assoviar enquanto realizava as atividades do lar. Sempre alegre. Tinha também seus momentos de histeria e nervosismo. Seu marido, ralhava por não manter uma pose de mulher casada e séria. Gargalhando, saía rebolando e sempre respondia:

-Quem quiser falar de mim à vontade, pois quem fala por trás, o cu é quem escuta.

Ele, às escondidas para seu pai não ver, ouvia e saía sorrateiramente para o paiol da casa com um tímido sorriso pela ousadia e vitória de sua mãe. Sua adorada mãe.

A companhia constante dela moldou seu espírito simples, trouxe-lhe doçura e simplicidade. No entanto, seu pai teve um peso imenso e o engessou com orientações religiosas que fizeram dele, eterno infeliz. Amedrontado pelas idéias de pecado e tormentos no inferno, não ousou sentir prazeres.

Trabalhar, trabalhar e trabalhar sem se perder em coisas materiais. Esse foi o lema assumido e seguiu sem refletir se era o certo. Tinha de ser afinal, seu pai rezou por essa cartilha também!

Transformou sua existência num grande discurso de amor ao próximo. Todavia, foi incapaz de tolerar as diversidades na própria família. Que ironia!

Não permitiu se apaixonar. Cerziu o coração para o amor de uma mulher. Tão pouco deixou fresta para um amor homossexual. Deus castiga!

A vida passou, a juventude também. A maturidade trouxe o endurecimento das articulações e de seu coração.

Não casou, não teve filhos, não cultivou amigos e os poucos que fez, morreram.

A solidão é sua companheira constante. É ela que lhe faz companhia da hora que acorda a hora que cerra novamente os olhos numa fuga insana para o mundo dos sonhos. De onde não deseja mais regressar.

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Oração do dia

Azedume criou habitat

Em meu estômago

Que contrai cada vez

que ouço o grito

sufocado de alguém

O sal escorre de meus olhos

já embaçados

cansados de tanta cegueira

coletiva

Trago os punhos marcados

presos pela corda áspera

da injustiça

Que atiça, remexe, distrata

quem não segue a matilha

Não decorei os verbos dessa cartilha

Sofro calada

Calo da corda vocal estressado

de engolir a seco os desmandos

de quem nem sabe comandar

Quem abriu os portões de Lúcifer?

Quem teve a irresponsabilidade

de evocar?

Agora, nem mesmo ajoelhar e rezar

A ordem do dia é

Fodidus estamus!

Agridoce

Vigésimo dia de isolamento social. Sentada de frente à janela, o sol é uma carícia que envolve e aquece meu rosto nessa tarde já outonal. Beberico uma xícara de café que acabei de passar. Vem à lembrança, você.

A saudade bate forte. Um soco, não no estômago mas sim, no coração. Por segundos, sofro uma parada cardíaca. Seca a boca, derrubo a xícara, apago o agora, sofro tremores. Uma lágrima brota em meus olhos ressecados. Uma vontade incontrolável de te reencontrar, te abraçar, te beijar.

Impossível. Você se encontra léguas de distância. Não existe transporte que me leve até você nesse momento. Por acaso se lembra do motivo de nosso distanciamento? Foi alguma discussão boba? Traição? Não consigo recordar o motivo…

Gostaria de sentar e escrever uma longa carta mas, para onde encaminhar se perdi seu contato. Não sei mais onde mora. Por onde anda minha amiga? O que fez de sua vida? Desde nossa separação, muitas coisas aconteceram na minha. Segui com os estudos, trabalhei em muitas funções até chegar onde cheguei, fazendo algo que realmente gosto. Não me casei, nem tive filhos. Isso não foi problema. Também não tenho cão, nem gato, muito menos periquito. Com o passar dos anos, fui me desapegando de tudo e de todos mantendo apenas os vínculos necessários para sobreviver. Viajei muito. Conheci muitos lugares. Estava certa de que era o melhor caminho a seguir.

Envelhecer significa você constatar que só cometeu erros no decorrer de sua juventude. Cometi muitos e um deles foi deixar você partir. Deveria ter lutado com unhas e dentes para te segurar pelo menos mais próxima de mim. Simplesmente abri mão de sua necessária presença.

Pago agora um preço alto pela sua ausência. Através de seu olhar desprovido de qualquer maldade, conseguia enxergar um mundo mais bonito, colorido e alegre. Sua pureza me contagiava. Desaprendi até mesmo de assoviar como fazíamos juntas. Lembra? Aprendemos isso com a vovó que administrava aquela casa imensa de nossa infância, cantando e assoviando o tempo inteiro. Nossa, bateu saudades dela também. De seu cheiro, de seus carinhos e de sua risada espontânea.

Sento no chão, de olhos embaçados. Pego o pote de mel, abro e começo a comer em colheradas cada vez mais rápidas. Salgado misturado ao doce transformando-se numa iguaria única e um pensamento se expressa em minha voz embargada pela pasta de mel, saliva e lágrimas:

Como e onde te encontrar menina que fui um dia? Volta pra mim. Volta!

A arte de persistir

O eco das vozes ensurdecem minha alma calejada pelas dores. Vomito a indignação de tantas vidas caladas de forma abrupta e violenta.

Fomenta em meu espírito, um princípio de revolta que se afoga nas lágrimas que teimam em descer.

O alvorecer promete algo melhor do que vivenciamos ontem.

Antes de me levantar, agradeço a dádiva da vida. Da minha vida. Mesmo lamentando as tantas que pereceram.

Continuar a enxergar a beleza da existência humana está se tornando tarefa das mais árduas para as almas do século vinte e um. Venço pela teimosa!

E enquanto teimo, envelheço e deixo aqui um trecho do poema Envelhecer, do livro Com a maturidade fica-se mais jovem, de Hermann Hesse. É o finalzinho que super me identifiquei:

Para os velhos é bom e são/Borgonha tinto ao pé da lareira/E depois uma morte ligeira – Porém só mais tarde, hoje não!

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Pausa

Dois metros e vinte por um e quarenta. Essa é a metragem que me foi dado para vislumbrar o mundo. Lá fora.

E sou grata, uma vez que a maioria dos apartamentos modernos têm janelas bem menores. Em confinamento há três semanas, no qual, nem chance de ver, abraçar, beijar e me despedir de minha família tive direito. Tudo foi tão rápido. Notificação na empresa de que a partir do dia seguinte, trabalharíamos em casa, organização do que traria para casa e a vinda, corrida e assustada sem saber ao certo o que aguardar dali para a frente.

Desde então, vivo numa bolha isolada. Optei por manter a rotina de outrora. Acordo as sete horas, levanto, preparo o café, esquento meu pãozinho, tomo meu banho, me arrumo como se fosse sair para trabalhar. Ah, antes de tudo isso, abro a janela e miro o horizonte observando a mudez dos edifícios e ouço o canto dos pássaros. Não sei ainda onde ficam mas ouço-os nitidamente como se estivessem no beiral de minha janela.

Sinto que sou um misto de personagem da obra de Chico Buarque com o filme norte americano O feitiço do tempo.

“Todo dia ela faz tudo sempre igual”…

Esse trecho da canção não me sai da cabeça. Decidi ouvir outras canções. Instrumentais são as que mais tem me feito companhia. Jazz.

Redescobri o prazer de cozinhar minhas próprias refeições. E constatei que, além de me dar prazer, sou boa nisso.

Assisto a séries coreanas na Netflix, outro dia descobri uma série sobre o Freud. O ator é bem bonitão. Agrada minhas retinas. Comecei a assistir também uma série dinamarquesa que se passa numa escola: Rita. Matando saudades da minha escola, da meninada, do barulho, da convivência. Leio muito. Feliz por ter uma estante repleta de livros que ainda não havia lido. Retomei a leitura do livro Se só me restasse uma hora de vida, de Roger-Pol Droit. Filosofia agradável em forma lírica. Como não tenho problemas com a temática, me ajuda a formar opinião e a me fortalecer.

Sou espiritualista e toda noite tenho dado uma pausa em minhas atividades terrenas. Medito. Oro. Vibro por mim e pela humanidade.

Esperança de dias melhores.

Esse texto faz parte da série de blogues que foram convidados para escrever sobre o tema. Convite feito pela Scenarium Plural, na pessoa de Lunna Guedes.

Raça superior

Era madrugada quando acordou assustada. Levantou e saiu apressada em direção ao banheiro. O que será que havia comido no dia anterior para estar com tanta cólica? Repensou entre uma gemida e outra:

-Pela manhã tomei meu café e um pão francês na chapa acompanhado de ovo mexido. Sempre como isso nunca me fez mal.

-Depois, no almoço, um risoto com  ervas, salmão grelhado e salada de folhas e tomate cereja com um filete de azeite e vinagre balsâmico.

-À tarde, o lanche foi uma banana prata, mix de oleaginosas, uma xícara de chá de frutas vermelhas.

-Por volta das 20h, uma tapioca recheada de abobrinha refogada com cenouras e ervas acompanhada um copo de suco de uva. Antes de deitar-se, uma xícara de chá de hortelã.

Acalmou-se. Nesse meio tempo, seu olhar capturou uma microscópica formiga que acabara de sair do canto do banheiro. Esse ser tão pequenino a fez refletir o quanto a humanidade é tola em se achar o máximo da inteligência. Constatou que, além de arrogantes, são dotados de uma cegueira que os impede de ver o real tamanho diante do universo. Observou a perseverança da formiga em arrastar um micro pedaço de casca de pão.

-Coitada! Deve ser mãe solteira e se preocupa em levar alimento para sua cria. Como a maioria das mulheres. Fala sério! Se todos que tivessem uma dor de barriga pela madrugada, tirasse um segundo para refletir sobre as questões filosóficas que nos move, aposto que essa merda de mundo seria bem melhor.

Mais alguns minutos acocorada. Aliviada, optou por uma ducha quente e, em paz e sonolenta, retornou a maciez de sua cama. Quase dormindo teve um pensamento rápido:

-Amanhã antes de sair pro trabalho, preciso aplicar  o veneno em gel para formigas. Deus me livre de conviver com esses bichos. Deus me livre!

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Amor padrão risca de giz

Em meio aos caos de início da noite, numa cafeteria frequentada por jovens, uma pessoa se destaca. Sentado sozinho numa mesa de canto, o homem saboreia seu café com o pensamento longe dali. Relembra sua mocidade constatando que lá atrás, já era um frequentador de cafeterias. Sempre foi o local preferido para pensar, observar e escrever. Muitos textos a princípio e depois, com carreira já consolidada, vários de seus livros foram escritos nessa ambiente. Sorri de forma desencantada ao relembrar que esses espaços eram cheio de charme e liberdade.

Hoje, transformadas em espaços glamourizados, pessoas circulam por elas munidas de seus notes, tablets, smartphones, isolando-se em seus mundos virtuais. O que antes era recinto para acolhimento e troca de ideias, hoje, tornou-se depósito de seres humanos robotizados e alienados.

Nem mesmo se tem a liberdade de acender um cigarro e, entre uma tragada e outra, liberar ideias e desenvolver roteiros para um novo romance ou conto.

Enquanto simula profunda tragada num cigarro imaginário, o senhor ajeita a flor na sua lapela, alisa o tecido da calça no padrão risca de giz e abre um envelope amarelado pelo tempo. Uma carta se abre diante de seus olhos cansados que – ao percorrer suas linhas -, ganha um brilho intenso.

Se alguém prestasse atenção, veria um personagem bem interessante saído de um filme noir.

Dobrando a carta e devolvendo-a ao envelope, saboreia mais um gole do café fazendo careta. Massageia o rosto flácido, coça a cabeça que ainda mantém uma cabeleira farta. Guarda o envelope no meio de um velho livro de capa de couro.

-Ana Maria… por onde andará a essa altura da vida? Será que ainda é viva?

-Senhor? Falou alguma coisa? Deseja mais café? – pergunta uma jovem garçonete que limpa a mesa ao lado.

-Não minha filha. Sou só um velho resmungão que tem por costume falar sozinho.

-O senhor é muito refinado. Sempre que aparece pede por favor, agradece. Um cavalheiro! Isso não existe mais não.

-E você minha jovem, demonstra ter um olhar para o próximo e está sempre com um sorriso nos lábios para atender a todos. Isso também é raro.

-Sim. Mas hoje, percebo que o senhor está triste. Desculpe se estou sendo invasiva mas, aconteceu alguma coisa?

-Além de jovem, bonita e atenciosa, ainda é observadora. Agora virei seu fã!. Tem razão mocinha. Hoje, acordei saudoso de um tempo que não volta mais. Coisa de velho solitário. Não liga não.

Dizendo isso, toma um último gole do café já frio, reúne seus pertences, ajeita o chapéu de feltro cinza na cabeça e sai, desejando boa noite para a moça.

Pensativa, a garçonete recolhe a xícara usada pelo senhor. É quando percebe algo caído próximo a cadeira: uma foto em preto e branco com um belo casal de jovens abraçados e sorridentes.

A moça, linda em seu vestido rodado e chapéu com véu cobrindo parcialmente seu rosto bem feito. O jovem, impecável em seu terno estruturado em risca de giz, chapéu de feltro e um cigarro acesso no canto da boca.

Romântica, a jovem guarda a foto em seu avental para, no dia seguinte, devolvê-la a seu dono. Não deseja tomar para si talvez o único elo de um passado feliz de um velho solitário. No fundo, sente uma pontada de inveja por não ser a moça feliz ao lado do jovem amoroso.

-É, já não se faz amor como antigamente…

-Falando sozinha Janaína? Deu para isso agora?

-É chefe. Às vezes tenho isso.

-Então deixa os devaneios de lado e vá atender a mesa 8.

-Ok!Ok! É vida que segue. É trabalho que chama!

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