Impermanência

Mais uma manhã chuvosa a decorar minha janela. Sozinha, porém não solitária, sento e sinto necessidade de escrever algo. Não tenho ideia mas o desejo bate forte e me entrego.

Enquanto olho pela janela buscando inspiração, ouço cá dentro, as lamúrias do fado no CD de Mariza, Concerto em Lisboa. Bate uma saudade da terrinha lusitana. Já faz tanto tempo que por lá estive. Gosto de fado. Remete-nos a uma melancolia que considero boa. Vem do fundo da alma algo que não conseguimos detectar e que aquece o espírito. Após um tsunami emocional, encontro-me essa semana em paz comigo mesma e com o Universo. Terminei algumas leituras – de lazer e de estudos -, e retomei a leitura do livro de Lya Luft, O silêncio dos amantes.

O primeiro conto que li ontem à noite, antes de dormir, lembrou-me o sobrinho/filho que viajou para outra esfera. Confesso que abriu uma cratera funda de saudades de nossos papos e convivência que tivemos. No entanto, não fiquei triste. Apenas saudosa de um tempo que ficou para trás. Transformou-se em história de vida.

Estômago gritou alertando-me que já era hora do almoço. Lembrei do programa da Ana Maria Braga, pela manhã mostrando um chef ensinando os marmanjos globais a preparar uma carne moída. Achei graça.

Preparo desde criança, quando aprendi com minha avó e mãe, a arte de cozinhar. Os olhos atentos de todos me trouxe à reflexão, o quanto se perdeu da espontaneidade de um simples preparo de uma carne moída.

Abri minha geladeira e de imediato, optei pelo que tinha: filé de tilápia e bolinhas de espinafre congelados. Bingo! Decidi preparar o peixe grelhado e como acompanhamento, creme de espinafre. O arroz já tinha pronto. Era só esquentar. Em minutos, meu prato estava perfumado e saboroso!

Após almoço, satisfeita, saio para a rua. Chega de reclusão. Caminho alguns passos sentindo o ar gelado a queimar meu rosto e me encolho no agasalho pesado. De mãos aquecidas no bolso do casaco, olho de soslaio os inúmeros moradores de rua encolhidos debaixo de cobertores ralos ou papelão. Sinto vergonha por minha roupa boa e tão aquecida, meus calçados de marca e meu teto financiado porém, quentinho. Saí com a intenção de comprar alguns itens de supermercado que zeraram em minha despesa. Contudo, o olho gordo de consumidora que tento domesticar, compra guloseimas desnecessárias e retorno com a sacola lotada. Ao cruzar novamente com esses moradores das calçadas, envergonho-me mais ainda. Uma vontade imensa de sentar ao lado e chorar misérias alheias. De olhos marejados, tropeço e quase caio em cima de um dos pobres que, achando uma afronta minha, esboça um palavreado nada agradável. Lágrimas de indignação caem molhando meu cachecol peruano. Corro para o prédio, meu porto seguro diante de tantas mazelas humanas que compõe o centro velho de São Paulo.

Agora, ao som de Mornin’, na voz de All Jarreau, continuo mirando minha janela acompanhando o tempo se fechar entre nuvens carregadas e enegrecidas. Vem mais chuva e frio. Mastigo sem sentir o sabor do bolo de cenoura que comprei e quase nem sinto mais o aroma do café recém passado. Nas retinas de minha alma, permanece a imagem dos desvalidos que a cada dia aumenta nas ruas de nosso tão judiado país. A garganta se fecha diante da notícia que leio sobre a (mais uma) lamentável fala de nosso atual representante sobre o trabalho infantil.

Agarro-me à Pessoa e seus inúmeros heterônimos que me fazem companhia na xícara de café que trouxe de souvenir de Lisboa lembrando o início de Tabacaria:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é…

E tudo isso porque me deu vontade de escrever e nem sabia o quê.

Imagem: Arquivo pessoal

2 comentários sobre “Impermanência

  1. Eu adoro essas narrativas que nos remetem a olhar para fora, espiar a realidade e embaralhar tudo com nuances de ontem, hoje e amanhã. Me lembrei que preciso ir ao mercado comprar itens que faltam, mas preciso também escrever um texto (dois ou três) e fazer uma fornada de pães porque hoje é sábado e o inverno tropical apareceu, sabe-se lá por quanto tempo.
    Tentei não pensar nos que estão nas ruas, mas não consegui… o frio me atormentou com esse pensamento e o pior é que os números são os maiores dos últimos tantos anos.

    bacio

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