Parabólica ambulante

Acredita em encosto? Não? Ah, pois eu acredito. Já fui “cavalo” para muitos.

Na pré-adolescência, com todos os hormônios em ebulição, uma Pomba Gira se aproximou e deu o maior trabalho para minha mãe que morria de medo que sua pobre cria se desviasse do bom caminho.

Ela me levou a um terreiro onde fizeram de tudo para me salvar e fui proibida de passear por praças e parques públicos. Orientaram mamãe de que não poderia usar roupas, acessórios e esmalte carmim. Evitasse também maquiagem forte.

Logo eu, que desde pequena, fui vaidosa!

Por insistência dela, evitei por um tempo mas depois, com tantas reviravoltas na vida, caiu no esquecimento.

Como resultado, virei parabólica. Teve um Preto Velho que vivia me dando conselhos. Alguns até bem pertinentes. Pena que a teimosia e imaturidade da época me cegaram. Resultado? Muito murro em ponta de faca.

Certa vez, descobrindo a música erudita, fiquei fascinada com o talento e sensibilidade de Maria Callas. Ouvi tanto que acabei por atraí-la. Acredita nisso? Não é papo de pescador. É a mais pura verdade.

Do nada, passei a cantar feito a Diva. Dá-lhe Callas no banheiro, no metrô, nas filas dos postos de saúde, no pátio do colégio. A diretora, assustada com minhas intervenções musicais, decidiu chamar minha mãe para uma conversa.

Voltando para casa, ela olhando de lado, falou: Ou você trata de se cuidar e seguir o que os guias orientaram, ou te interno numa clínica de loucos. Entendeu?

Aos quatorze anos, assisti a uma apresentação de ballet na TV Cultura, e me apaixonei pela figura forte e ao mesmo tempo delicada da bailarina Maya Plisetskaia . No próprio quarto, comecei a dar os primeiros passos. Foi um tal de plies pra cá, grám plie pra lá, rond de jambes marcando o assoalho do quarto. Passava horas me exercitando na vã procura de me transformar numa bailarina de verdade. Mais uma vez, minha progenitora, desconfiada que só, buscou ajuda espiritual. Afastaram a entidade de Maya.

Passei uma temporada – como dizia minha mãe -, normal. Até chegar as Olimpíadas de Montreal e assistir as apresentações da menina prodígio Nadia Comaneci. O que aconteceu a seguir foi pior que encosto. Segundo a médium do centro que minha mãe frequentava, passei a sofrer de fascinação. E isso era bem pior que encosto, pois estava sofrendo fascinação de um ser vivo.

Queria de toda forma ser como Nadia. Esforçava-me para alcançar a excelência da ginasta. Por conta própria, fui numa escola de Ginástica Olímpica que descobri em meu bairro. Conversei com o técnico, fiz uma apresentação. Ele se empolgou com meu talento e me orientou: converse com sua mãe e peça para ela vir falar comigo. Você tem futuro menina!

Vi meu futuro de melhor ginasta brasileira, quiçá, mundial, avinagrar quando toquei no assunto em casa. Irada com mais essa maluquice, mamãe me deixou de castigo por tempo ilimitado. Boicotou todas as minhas investidas de me transformar numa ginasta.

Então descobri Elis Regina que foi um divisor de águas em minha vida. Iniciei ali, minha coleção e adoração a essa que – até hoje para mim -, é a maior cantora do Brasil. E também minha revolta com o destino afinal, por que ela tinha de morrer tão cedo? Antes mesmo de eu poder assistir um show dela?  A sua influência sobre minha pessoa foi tanta, que adotei seu cabelinho curto que usei por anos. Identificação total. Quando ela morreu, passei dias e dias sem dormir direito. Orava toda noite por ela chegando inclusive, a sonhar que nos encontrávamos. Desse encosto, nunca me curei. Virou crônico.

Minha vida com os livros, trouxe-me outros tantos encostos. Dessa vez, com os personagens que marcaram suas digitais em minha alma. De certa forma, são fantasmas que habitam meu interior. Faz com que não me sinta sozinha nesse mundo tão fragmentado e banal.

Meu mais novo, constante e talvez, para toda vida encosto, é a presença diária de Caio Fernando Abreu ou simplesmente Caio F.

Não passo um dia sem ler pelo menos duas crônicas sua. A conexão é tanta, que por vezes, chego a sentir sua presença, seu hálito lendo em voz alta o último texto escrito. Sinto alegria em poder ser privilegiada em ser a primeira a ouvir de sua boca, a crônica da hora.

Leio, releio, emociono-me. Choro.

Outro dia, flagrei minha mãe – agora já grisalha -, repousando seus cansados olhos em mim enquanto lia novamente Sapatinhos vermelhos.

Nada falou. Entrou no quarto, sentou-se ao meu lado e me envolveu num doce abraço. Como há muito não fazia. Afagando minha cabeça, disse:

-Filha, seu coração é tão cheio de amor que transborda e te afoga. Hoje reconheço que o que antes acreditava ser loucura, nada mais é que excesso de sensibilidade.

Sorrindo, acariciei seu rosto e, repousando minha cabeça em seu colo, falei:

-Mãe, a minha glândula pineal deve estar gasta. Não tenho tido mais nenhum contato com o além. Talvez esteja envelhecendo também ou sofra de excesso de realidade.

-E filha, crescer dá nisso!

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Bon voyage pour moi

Viajar e conhecer novas paisagens para mim é terapia. Assim como caminhar. Nas viagens, dou um tempo na persona que visto no dia a dia. Deixo de lado a mulher séria e preocupada com tantas questões cotidianas. Assumo o ser que sou: livre e simples .

Estou prestes a mais uma aventura fora de meu círculo diário. Um friozinho já conhecido se manifesta no meu centro . É bom sinal. Mala pronta, pontos turísticos delineados e anotados. No entanto, o que mais me atrai, apesar de minha aparente timidez, é conhecer pessoas.

Gosto de observar os diversos rostos anônimos que farão parte de meus dias turísticos. Ouvir diferentes sotaques é canção para meus ouvidos. Conhecer histórias locais, tomar consciência que há vida pulsante e saudável fora dos centros urbanos ao qual estou familiarizada.

Quando viajo, não gasto dinheiro comprando lembrancinhas para num futuro, recordar esses dias. O que trago nem pesa na mala. Posso até fazer uma brincadeira dizendo que o que vivi e presenciei, salvei nas nuvens. As fotos digitais até podem ser salvas por lá. Contudo, a vivência desses dias e as experiências gastronômicas, sensoriais e visuais – essas -, armazeno nas inúmeras gavetas de minha memória.

-Atenção, senhores passageiros com destino a…

É minha vez. Até o retorno leitores queridos. Quando por aqui aparecerei para compartilhar com vocês algumas situações que vale a pena registrar numa bela crônica.

Bon voyage pour moi! À bientôt!

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Confesso: eu vivi

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Saio da minha terceira ida ao cinema para assistir Bohemian Rapsody, filme sobre a banda de rock inglês Queen, liderado pelo performático vocalista Freddie Mercury. Caminho lentamente pelos corredores lotados do shopping lotado de famílias e casais passeando. Feito autômato, mal ouço os comentários entusiasmados de minha irmã, também fã da banda. Mas não uma fã como eu.

Sorrio ao lembrar a experiência que jamais contei a ninguém. Tornou-se todos esses anos, meu, nosso segredo. Até mesmo porque, se contasse ninguém acreditaria. Uma vez que já tinha a fama de doida, preferi me poupar e manter esse segredo só para mim.

Após todos esses anos, relembrar, mais parece uma sonho. Talvez tenha sido mesmo e eu é que preferi acreditar que aconteceu. Mas no fundo, bem no fundo, sei que aconteceu.

Março de 1981, encontrava-me em meu segundo emprego, e desabrochava para a vida adulta aos dezoito anos. Esse mês ficou marcado pois vivi algumas experiência que se tornaram únicas e foram divisores de água no que fui e o que passei a ser depois. Trabalho, dinheiro próprio, primeiro show na vida. E abri minha temporada de shows com nada mais, nada menos que o show internacional que abalou São Paulo: Queen. Aconteceu nos dias 20 e 21 de março no estádio do Morumbi. Fui com minha irmã no dia 20. Aquela data foi mágica. A euforia de se ir a um estádio pela primeira vez, a massa humana seguindo o mesmo rumo com as mesmas expressões de alegria e ansiedade, o atravessar os portões e adentrar um campo que se tornaria por algumas horas, uma fantasia plena de melodia, dança, alegria, emoção. Consegui me embrenhar na multidão arrastando minha irmã e conseguimos assistir todo o show bem na frente do palco. Uauuuu!!!

Mas não é do show que desejo falar. Foi estupendo, quase consegui chegar até eles, para entregar meu inocente desenho que fiz de toda a banda. Tinha como meta, entregar em mãos no camarim. Driblei forte esquema de seguranças e com ajuda de uma jornalista camarada, cheguei até a porta do camarim, onde estavam concentrados após o show. Morri na praia. Não me deixaram entrar mas, garantiram que entregariam em mãos para Freddie. Resignada e frustrada, sai ao encontro de minha irmã que ficou do lado de fora me aguardando.

Naquela semana, trabalhando, ouvi uma conversa de minha chefe com seu marido que mantinha uma galeria de artes bem ao lado da boutique onde trabalhava. Ele confidenciava à ela que ficaria na galeria até mais tarde para receber uma visita internacional que havia demonstrado interesse em conhecer obras de artistas paulistanos. Ela perguntou quem era e ele respondeu: um vocalista de uma banda de rock que está em São Paulo. Na hora fiquei alerta e procurando ficar mais invisível, me aproximei da porta para escutar mais. Meu coração subiu para a boca tamanha expectativa de achar que poderia ser mesmo Freddie Mercury a visitar a galeria ao lado do meu trabalho e – mais ainda – , ao lado de minha casa! Era sorte demais!

Às dezoito horas, despedi-me de todos e segui para casa. Mantinha uma cópia das chaves da loja pois costumava abri-la pela manhã. Aguardei todos saírem e, após alguns minutos, me certificando que a loja estava vazia por completo, retornei e entrei sorrateiramente me escondendo no forro da loja que tinha ligação com a galeria afinal, era uma construção única. Pela primeira vez, não me importei com a possibilidade de estar dividindo o mesmo espaço com diversas lagartixas, minha grande fobia. Soube através da conversa do galerista, que a condição para ele vir seria ter acesso a ela sem ninguém por perto. Inclusive ele, que deixaria a porta aberta e esperaria no bar em frente. Só retornaria após o cantor escolher as obras de arte que levaria como souvenir para Londres. Soube que era um hábito dele fazer esses passeios e compras por todo lugar que fazia turnê. Acocorada no forro, respirando ar mofo e empoeirado, retive a respiração ao ouvir a porta principal se abrindo. Algumas vozes dialogaram em inglês e depois, silêncio. Não conseguia enxergar ninguém. Por instantes pensei que tivessem ido embora mas, quando já pensava em sair daquela posição incômoda, eis que a figura ímpar surge em meu campo de visão segurando um quadro Naif com os olhos brilhantes. Parecia hipnotizado pelo que via. Também me encontrava em estado hipnótico quando aconteceu o que não esperava: do nada, ele elevou seu olhar em minha direção. Perguntou: Quem está aí? Saia!

Acabei descendo e – muito envergonhada -, pedi desculpas num inglês bem sem vergonha.

Me encarou por alguns minutos num silêncio constrangedor analisando minha pessoa magricela e suja de pó. Até que movendo os lábios numa atitude de quem queria segurar o riso, posicionou o quadro que segurava ao lado de outros já selecionados e, colocando suas mãos na cintura, caiu numa gargalhada sem fim. De início fiquei sem graça mas, contagiada, caí na gargalhada.

Ficando sério, perguntou meu nome e idade. O que fazia lá em cima? Me espionava ou queria roubar a galeria? Rimos novamente. Fez uma mímica para que sentasse num sofá que havia na sala. Sentei e fiquei olhando para minhas mãos. Mal conseguia pensar. Meu Deus!!! Estava ao lado de meu ídolo e não sabia o que fazer nem dizer! Surreal.

Acendeu um cigarro e perguntou se queria fumar também. Sorri mas declinei no que ele respondeu: Faz muito bem menina. Cigarro mata.

Cantarolei baixinho Lily of the Valley e ele me olhou espantado. Sorriu e cantou em dueto comigo. Óbvio que não era páreo para ele mas cantamos a canção inteira e rimos novamente.

Mostrei algumas telas que gostava inclusive duas do marido de minha chefe e ele concordou comigo. Disse que eu tinha bom gosto. Ao finalizar suas escolhas, virou-se para mim e disse:

Do you know what? I like you a lot! – Dando uma última tragada em seu cigarro, apagou, virou-se e me envolveu num abraço caloroso. Despediu-se de mim e, da mesma forma que entrou, saiu. Fiquei parada no centro da sala de exposição entre inúmeros quadros Surrealistas e Naif separados por ele sem saber o que pensar ou fazer. Ouvindo vozes se aproximando, saí rapidamente de cena subindo para o forro e retornando para a boutique até que todos se foram. Observando a rua vazia, saí da loja e entrei em casa para levar uma bronca federal de minha mãe.

– Onde esteve até essa hora menina? Quer matar sua mãe de preocupação? O que fazia na rua?

Com os olhos marejados de emoção, sorri e disse a ela:

– Sonhando mãe, sonhando… Quer saber? Sonhei o sonho mais lindo de minha vida!

Peguei-a pelas mãos e cantando Seaside Rendezvous, dei alguns passos de dança com ela.

Balançando a cabeça sorrindo, disse que eu não tinha jeito mesmo.

– Deite de vez e continue sonhando na cama.

Essa noite não preguei os olhos.

Essa é minha homenagem a esse grande cantor e compositor e, acima de tudo, grande roqueiro que marcou minha adolescência. Homenagem também ao Rock enquanto estilo musical e filosofia de vida.

Impermanência

Mais uma manhã chuvosa a decorar minha janela. Sozinha, porém não solitária, sento e sinto necessidade de escrever algo. Não tenho ideia mas o desejo bate forte e me entrego.

Enquanto olho pela janela buscando inspiração, ouço cá dentro, as lamúrias do fado no CD de Mariza, Concerto em Lisboa. Bate uma saudade da terrinha lusitana. Já faz tanto tempo que por lá estive. Gosto de fado. Remete-nos a uma melancolia que considero boa. Vem do fundo da alma algo que não conseguimos detectar e que aquece o espírito. Após um tsunami emocional, encontro-me essa semana em paz comigo mesma e com o Universo. Terminei algumas leituras – de lazer e de estudos -, e retomei a leitura do livro de Lya Luft, O silêncio dos amantes.

O primeiro conto que li ontem à noite, antes de dormir, lembrou-me o sobrinho/filho que viajou para outra esfera. Confesso que abriu uma cratera funda de saudades de nossos papos e convivência que tivemos. No entanto, não fiquei triste. Apenas saudosa de um tempo que ficou para trás. Transformou-se em história de vida.

Estômago gritou alertando-me que já era hora do almoço. Lembrei do programa da Ana Maria Braga, pela manhã mostrando um chef ensinando os marmanjos globais a preparar uma carne moída. Achei graça.

Preparo desde criança, quando aprendi com minha avó e mãe, a arte de cozinhar. Os olhos atentos de todos me trouxe à reflexão, o quanto se perdeu da espontaneidade de um simples preparo de uma carne moída.

Abri minha geladeira e de imediato, optei pelo que tinha: filé de tilápia e bolinhas de espinafre congelados. Bingo! Decidi preparar o peixe grelhado e como acompanhamento, creme de espinafre. O arroz já tinha pronto. Era só esquentar. Em minutos, meu prato estava perfumado e saboroso!

Após almoço, satisfeita, saio para a rua. Chega de reclusão. Caminho alguns passos sentindo o ar gelado a queimar meu rosto e me encolho no agasalho pesado. De mãos aquecidas no bolso do casaco, olho de soslaio os inúmeros moradores de rua encolhidos debaixo de cobertores ralos ou papelão. Sinto vergonha por minha roupa boa e tão aquecida, meus calçados de marca e meu teto financiado porém, quentinho. Saí com a intenção de comprar alguns itens de supermercado que zeraram em minha despesa. Contudo, o olho gordo de consumidora que tento domesticar, compra guloseimas desnecessárias e retorno com a sacola lotada. Ao cruzar novamente com esses moradores das calçadas, envergonho-me mais ainda. Uma vontade imensa de sentar ao lado e chorar misérias alheias. De olhos marejados, tropeço e quase caio em cima de um dos pobres que, achando uma afronta minha, esboça um palavreado nada agradável. Lágrimas de indignação caem molhando meu cachecol peruano. Corro para o prédio, meu porto seguro diante de tantas mazelas humanas que compõe o centro velho de São Paulo.

Agora, ao som de Mornin’, na voz de All Jarreau, continuo mirando minha janela acompanhando o tempo se fechar entre nuvens carregadas e enegrecidas. Vem mais chuva e frio. Mastigo sem sentir o sabor do bolo de cenoura que comprei e quase nem sinto mais o aroma do café recém passado. Nas retinas de minha alma, permanece a imagem dos desvalidos que a cada dia aumenta nas ruas de nosso tão judiado país. A garganta se fecha diante da notícia que leio sobre a (mais uma) lamentável fala de nosso atual representante sobre o trabalho infantil.

Agarro-me à Pessoa e seus inúmeros heterônimos que me fazem companhia na xícara de café que trouxe de souvenir de Lisboa lembrando o início de Tabacaria:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é…

E tudo isso porque me deu vontade de escrever e nem sabia o quê.

Imagem: Arquivo pessoal