Decreto Lei

20190122_200919

Porque hoje é sexta-feira, deixarei de lado meu lado mais tenebroso. Empurrarei bem lá pro fundo meus pensamentos de ira, minhas convicções políticas, minhas críticas com relação a todos com quem convivo. Adormecerei minha vontade de explodir por qualquer razão. Sorrirei para a moça do caixa do banco que tanto enrola para trabalhar e nos atender no horário tão corrido e puxado que é nossa hora do almoço. Sorrirei inclusive, para aqueles velhinhos aposentados que – sem pressa alguma, puxam um papo que dura uma eternidade com a atendente pouco se importando que nós, trabalhadores ainda damos satisfação para nossos patrões caso atrasemos. Sorrirei. Mesmo que por dentro, o coração descompasse de ódio disfarçado de ansiedade por querer uma vida mais leve pagando menos impostos e obtendo o direito sagrado de ter acesso mais facilitado ao lazer cultural que, vamos combinar, está pela hora da morte.

E falando em morte, nem morrer se pode. O valor cobrado para nos enterrarem está algo em torno de…de…

Não. Não pensarei nem farei os cálculos sobre isso, caso contrário, meu esgar será de morte súbita de raiva e não o movimento muscular da face se abrindo num sorriso. E hoje, decididamente optei por sorrir. E não há situação ou pessoa nesse mundo que me fará mudar de ideia.

O congresso se desentende, brinca de cabo de guerra, vestem os personagens mais bizarros transformando nossa nação num imenso circo dos horrores. No entanto, hoje, não tenho olhos para eles. Até consigo rir de suas atrapalhadas nada inocentes. Não faz mal. Hoje meu dia será de pura leveza nem que para isso, congele meu raciocínio para não buscar lógica nas coisas diárias. Não quero.

Desejo somente sorrir para aqueles pobres que se encontram de estômago dobrado de fome na sarjeta e oferecer junto de um lanche, meu melhor sorriso. Talvez quem sabe um abraço porque hoje caro leitor, é sexta-feira, não é treze e meu espírito se encontra em jubilo. Motivos não tenho mas como decidi, que assim seja a minha vontade e assim está decretado no país das maravilhas Roselíssicas que hoje, somente hoje, absorverei toda a alegria do universo para amanhã, ter munição para atravessar essa escuridão que desceu sobre a humanidade. Sorria você também, por caridade.

Anúncios

Curiosidades literárias

O que dizer sobre minha vida literária? Alguns dirão que – assim como minha vida -, é uma bagunça. Outros, com certeza enxergarão riqueza e diversidade.

O que posso garantir, é que não consigo viver sem um livro sendo desvendado. Talvez seja uma Voyeur que ama espiar janelas e se deleitar com o cotidiano dos outros. Ler um livro é bem isso. Entrar sem pedir licença na história de pessoas fictícias que bem poderiam ser nossos familiares, vizinhos, conhecidos. É como ver a porta encostada e entrar sorrateiramente. Fazer um tour pela casa alheia observando hábitos, costumes, ouvir conversas íntimas, descobrir que usam tal marca de dentifrício e sabonete. Esse pensamento me remete a uma história de um dos contos do livro de Haruki Murakami: Homens sem mulheres. Aliás, esse é um de meus autores preferidos.

Faço leitura de quase tudo o que cai em minhas mãos. Quase tudo, pois também carrego alguns preconceitos. Não leio autoajuda muito menos romance tipo Sabrina ou Nora Roberts. Explico: quer me ganhar como leitora? Surpreenda-me. Detesto histórias previsíveis. Se após alguns capítulos já consigo sacar o final, esquece. Fecho o livro e perco todo interesse. Ah! Tem algo mais importante do que me surpreender: Escreva bem.

Um texto bem escrito, bem estruturado, envolve e dá um prazer incrível em mergulhar em suas linhas. Exemplo trago muitos mas posso indicar qualquer obra do escritor Josué Montello.

Ouço ecos: QUEMM???

Pois é amigos leitores, sempre que verbalizo alguns nomes da nossa tão desvalorizada e rica Literatura Brasileira, ouço essa frase. E muito me entristece saber que nossos escritores tão talentosos são desvalorizados por nós mesmos. Trabalhando em bibliotecas há quase trinta anos, abracei essa causa e sempre divulgo e tento sensibilizar meus usuários para se permitir conhecer as obras nacionais. Nomes conhecidos como o próprio Montello, Guimarães Rosa, Carlos Heitor Cony, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, José Lins do Rego, Érico Verissimo e tantos outros. Não dá para citar todos. O espaço seria pequeno apesar de infinito.

Contudo, minha vida literária tem muito mais. Lembro que em meados de 1995, quando era recém contratada do Colégio onde ainda me encontro trabalhando, minha primeira leitura de impacto foi a saga As brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Fiquei meses impactada pelos personagens e roteiro das histórias vividas pelo rei Artur e seus cavaleiros. A seguir, a saga de Penélope Keeling me absorveu por completo através da narrativa cativante de Rosamunde Pilcher. Que história! Que personagem! E por falar em personagem, sou uma perseguidora de personagens femininos fortes, marcantes. A Penélope foi talvez a primeira que descobri mas depois, vieram muitas outras como a serial killer mais conhecida como Beleza Mortal, Gretchen Lowell, do livro Coração partido de Chelsea Cain. Citando personagens de Josué Montello, do livro Uma sombra na parede, nos apresenta duas mulheres Malu e Ariana. Anos mais tarde, tiver o prazer de conhecer outra dupla de deixar marcas para quem lê: Alexandra e Raissa, do livro Lua de papel, de Lunna Guedes. Adoráveis e inesquecíveis!

Outra curiosidade das minhas aventuras literárias é escolher livros que me apresentem lugares e culturas desconhecidas. Conheci o Afeganistão e sua cultura através do belo Mulheres de Cabul, de Harriet Logan, a Índia através do olhar (novamente feminino), de Tilo (personagem) desenvolvido de forma magistral pela escritora Chitra B. Divakaruni. Pude conhecer um pouco da idílica Provence, região da França, pela ótica do inglês Peter Mayle no excelente livro Um ano na Provence, e também do ótimo e mais atual livro A livraria mágica de Paris, a escritora alemã Nina George. Um mergulho numa cultura que nos envolve e nos faz sentir vontade de se aposentar e fixar moradia por lá.

Quem me conhece sabe do quanto aprecio ler e escrever também crônicas. E claro, tenho uma lista enorme de cronistas que nos inspiram através de suas óticas, uma leitura primorosa do cotidiano. Rubem Braga, o mestre dos mestres. Contudo nomes como Moacyr Scliar, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Fernando Sabino e entre tantos, o meu amado/idolatrado/salve-salve Caio Fernando Abreu. Ah! Como é bom ler as crônicas desses que citei e tantos outros.

E o que dizer de minhas descobertas na literatura juvenil? Quantas pérolas descobri através de uma ótica voltada para os mais jovens mas , que nem por isso, deixa de ser uma literatura rica e também diversificada. Livros que marcaram minha pré-adolescência e mesmo na fase adulta onde pude ter um contato maior com esse gênero e tive o prazer de ler histórias fascinantes. Exemplo? Muitos… A montanha partida, de Odette de Barros Mott. Foi minha primeira grande aventura juvenil. O gênio do crime, do recente falecido João Carlos Marinho. A saga do menino bruxo Harry Potter me encantou com seu mundo peculiar. O fantástico livro fantasia/juvenil Penumbra, de André Vianco. Marina, do espanhol Carlos Ruiz Zafón.

É com pesar que ponho um término nessa minha postagem. Poderia varar o resto da tarde e adentrar a noite tecendo meus pareceres literários. E as muitas curiosidades que cada leitura trás em si. Só posso dizer com certeza absoluta uma coisa: Ler é fundamental para o entendimento da vida e do ser humano. Ler, abre os olhos da alma para um turbilhão de emoções e percepções que nos abastece para as mais diversas situações. Ler, além de ampliar nosso vocabulário, nos proporciona condições de falar melhor, com mais clareza e nos posiciona num patamar que nos fornece condições e ferramentas para crescermos profissionalmente.

Escrevente

O mestre disse: Escreva. Todo dia, escreva. Não importa o que aconteça, escreva. Não se deixe levar pelo cansaço, escreva. Mesmo que a tristeza te habite a alma, escreva. Aliás, segundo ele, é na tristeza que costumamos escrever mais e melhor.

Tenho minhas dúvidas…

Ando meio macambúzia. Saltitando de lado, evitando multidões, desejando o silêncio de meu quarto pois, somente lá, consigo dar vasão ao tanto de ruídos que habitam em mim.

De tanto chorar, meus olhos secaram. Dei agora de chorar por dentro. Minha alma transformou-se numa eterna nascente onde escoa de forma incessante, um mar sem fim.

Ninguém notou afinal, sou uma clown profissional e permaneço em estado de graça, sorrindo o tempo inteiro. Todos me acham o máximo! Essa sim sabe viver!

Ah, se soubessem! Sou treva. Pântano escuro onde se ouve coaxo dos inúmeros sapos que engoli no decorrer de minha vida e que hoje, os tenho como inquilinos. Nunca imaginei que me transformaria nessa estátua de sal. Houve tempos coloridos em que calcei meus sapatinhos vermelhos e acreditei que seria feliz para todo o sempre. Quando jovem, imaginava que os contos de fadas tinham final feliz. Meus pés cresceram, os sapatinhos passaram a machucar. Houve tropeços e muitas pedras pelo caminho que descascaram seu verniz. O couro enrijeceu feito minha pele de carcará até que, numa bela tarde de primavera, arrebentaram e tive de prosseguir descalça. Encontrei pela estrada algumas pedras de cal que mesmo queimando as mãos serviu para registrar minhas histórias. Tomei gosto! Hoje, desenvolvi olhos da alma para tudo registrar em forma de narrativas. Sou cronista de minha própria vida e da vida alheia.

Imagem licenciada: Shutterstock

Sem amarras

Um belo dia acordei, olhei pro teto ainda no escuro e decidi: chega dessa essa vida! Não quero mais acordar às seis da manhã, fazer meu café, me trocar, pegar o metrô e chegar ao trabalho todo santo dia fazendo as mesmas coisas. Basta de rotina! Vou zerar essa minha vida burguesa de classe média.

Levanto, vou ao banheiro. Estou prestes a abrir o chuveiro para uma ducha quando paro e decido: se quero realmente mudar, devo começar por aqui.

Pra que banho?

Volto pro quarto, visto um jeans, camiseta velha, coloco o tênis mais surrado que tenho. Começo a escovar meus cabelos e paro.

Fazer o de sempre Malú?

Desgrenho ele todinho. Olho-me no espelho e gosto do que vejo.

Maquiagem? Nem pensar!

Abro o guarda roupa e analiso. Não vou levar nenhum desses terninhos de trabalho. Não vou precisar mesmo! Sapatos de salto agulha?

Nunca mais! Alforria!

Abro as gavetas de lingeries. A primeira só tem conjuntos rendados, pra lá de cavados. Muito sexy.

Não me servem mais.

Chega de bancar Dita von Teese pra marmanjos que só babam pelos nossos orifícios nas terras baixas.

Abro a segunda gaveta e encontro minhas calcinhas de cotton. Brancas e beges. Aquelas que dão arrepios nos mesmos marmanjos. Só que arrepios de horror. Eles as acham horrorosas!

São essas que vou levar.

Numa mochila coloco lingeries básicos, meias soquetes, três camisetas e mais uma calça jeans.

É o suficiente.

Dou uma boa olhada em meu quarto me despedindo. Observo meus inúmeros vidros de perfumes, cremes hidratantes, óleos e sais pra banho.

Não me servem mais.

Ligo o note e redijo uma carta de demissão agradecendo pelos anos de confiança que depositaram em mim, desculpando por sair de forma tão abrupta e impessoal. Como não comparecerei ao escritório para tratar das formalidades que as leis trabalhistas impõem tanto ao contratante quanto a contratada, deixo claro que podem atestar abandono de emprego.

As consequências?

Não me importo.

Aproveito para também escrever uma carta de despedida à todos os conhecidos e familiares, os poucos que ainda mantenho contato. Explico que estou bem, que foi uma decisão sábia apesar de parecer loucura e que em breve mandarei notícias de onde estiver.

A única coisa que levo dessa antiga vida é o note e o celular. Vou radicalizar, mas ainda preciso deles.

Enfio-os na mochila e saio sem olhar para trás.

Fora do prédio sou batizada por uma boa garoa matinal simbolizando meu renascimento. Deixo para trás – o que para muitos -, é status de sucesso e conquistas.

Saio sem rumo certo.

Sigo para a rodoviária do Tietê e lá escolherei um itinerário qualquer. Viverei assim. Um dia por vez. Sem planos, sem compromissos a não ser comigo mesma.

Quero a liberdade plena de escolha. Não importa que elas me tragam dissabores. Fazem parte da vida.

Dessa que por hora optei.

Imagem licenciada: Shutterstock