Estátua!

shutterstock_355872182

Ei! Você aí marmanjo que, feito eu, só leva a vida a sério não se permitindo mais parar e brincar.

A vida enrijece o adulto e aos poucos deixamos de fazer coisas lúdicas que amaciam nosso espírito tão judiado pelas preocupações do dia a dia.

Essa semana, reservei três dias para cuidar da saúde. Fazer uma bateria de exames por prevenção. Sabe como é, após os cinquenta não dá pra facilitar.

Exames clínicos, ecocardiograma, urina, rolter e, novidade! Nunca havia feito o tal do Mapa 24h. Meu cardiologista solicitou, achei legal ele se preocupar com meu bem estar e lá fui eu, pela manhã fazer o exame.

Laboratório lotado e aguardo, aguardo, aguardo… Que saco esperar! Aguardo mais um cadinho só para não perder o hábito tão brasileiro que temos. Amavelmente esperei. Sorrindo mansamente quando as funcionárias passavam me ignorando. Sorriso congelado que escondia a louca, desvairada, ensandecida Roseli que dentro do peito, lutava para eu a libertar. No entanto, meu lado civilizado continuava a imperar e aguardei mais um pouquinho.

Senhora Roseli Venancio Pedroso!

Sou eu! Euzinha! Muito bom dia!

Bom dia senhora Roseli, meu nome é Celia e vou explicar direitinho os procedimentos para a implantação do aparelho em seu braço. Preste muita atenção para que não dê problemas e perca 24 horas de exame. Caso contrário, precisaremos marcar novamente e fazer tudo de novo.

Fazendo esse discurso, a amável e dedicada profissional foi preparando meu braço e instalando o aparelho de pressão que ficaria 24 horas ininterruptos comigo, apitando de quinze em quinze minutos me obrigando a parar tudo o que estivesse fazendo e ficando à sua mercê até completar…

Desculpe a interrupção, o aparelho apitou e tive de me paralisar. Então, vocês não sabem o inferno que foi passar a manhã toda com esse treco apitando o tempo todo e me fazendo parar e aguardar sua boa vontade em me dar permissão para respirar e seguir com os afazeres.

Na hora do almoço, enquanto fazia meu prato no bandeijão por kilo, parei a fila de pessoas por conta do apito. Piiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

Desgraça! Ouvi muitos impropérios e piadinhas sem graça.

Estão com pressa? Passem por cima! Que saco!

Atravessando a Avenida Paulista, o maldito aparelho volta a apitar e eu, louquinha atravesso correndo e paro instantaneamente fazendo cara de paisagem. Recebi inúmeros olhares curiosos e, novamente, piadinhas. Velha Louca essa aí hein? (risos) de um grupo de jovens estudantes. A louca aprisionada tenta sair da gaiola novamente mas, mantenho a pose de Bonequinha de Luxo versão Gray, e mirando o horizonte, sigo meu caminho até o trabalho.

Por volta das quinze horas já me encontrava babando de nervoso de tanto Pi!Pi!Pi! quando numa das paradas obrigatórias, lembrei de minha infância e do quanto gostava de brincar de Estátua.

Ah como era bom achar tudo engraçado. Tudo era tão leve e tão bom que nem sabia o que era gastrite. Descendo as escadas que dão acesso a Biblioteca onde trabalho, me conscientizei da importância de não se levar a vida tão a sério. E pensei com meu aparelho de pressão: Que tal transformar essa atividade enfadonha numa brincadeira legal? Topa?

O danado do aparelho parecendo compreender minha proposta maluca, apitou estridente me fazendo cair num riso…

…contido. Percebe que tive de ficar estátua de novo?

A partir desse nosso acordo, o resto das vinte e quatro horas passaram numa enorme brincadeira. Mais gostoso ainda foi contagiar as pessoas ao meu redor que aceitaram fazer parte da brincadeira. Cada vez que o aparelho apitava, eu me paralisava e as pessoas ao meu redor também. Olhos brilhantes, músculos intactos, respiração suspensa. Piiiiiiiiiiiiii!!! Todos caíamos num riso contagiante e assim, cheguei ao término de mais um dia de trabalho que – diferente dos outros -, foi transformado em pura nostalgia de criança onde nós adultos, deixamos por quinze minutos, vir a tona o que fomos no passado: crianças felizes e despreocupadas.

Nada como transformar situações cansativas e enfadonhas em algo lúdico e divertido.

Fundamental alimentar a criança que habita nosso interior.

O quê? Quer saber como terminou? Ah, confesso que não terminou muito bem não afinal, em pleno Valentine Day, tive de dar adeus a quem sabiamente me conquistou. Tive de dizer Goodbye ao aparelhinho Pi, deixando-o solitário aguardando um próximo paciente a utilizá-lo. Sei que ficou triste afinal, nem sempre os humanos entendem a piada e a transforma numa história com final feliz. Fazer o quê não é mesmo?

É seguir em frente e ver se numa próxima esquina alguém desperte esse brilho em nosso olhar e tenha o poder de aquecer o coração.

Happy Valentine’s Day for everyone!

Imagem licenciada: Shutterstock

.

Anúncios

7 comentários sobre “Estátua!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s