Mergulho nas úmidas paisagens

Quando soube do lançamento desse livro, fiquei curiosa. Organizado pela também escritora Luciana Iser Setúbal em parceria com o Clube da Escrita para Mulheres e a Editora Penalux, essa reunião de contos se materializou num belo livro.

Foi uma surpresa a cada texto lido. Escritoras que já conheço como Márcia Barbieri – no qual citei um livro numa postagem anterior -, Maria José Silveira, Aline Viana, Nanete Neves, Sonia Nabarrete, a própria Setúbal e Maria Esther Sammarone.  Mas conhecer escritoras novas (pelo menos para mim) e mergulhar em seu estilo literário foi uma feliz atividade. Todas exploraram o universo feminino na fase madura onde a vida sexual já declinou. Contudo, sabemos que continuamos a sentir desejo mesmo que a carne se torne flácida, que as rugas fixem moradia em nossos rostos, que os cabelos se platinem, o desejo e a vontade de atrair o olhar do outro (ou outra) permanece latente. Na realidade o que acontecia até bem pouco tempo, era sufocar o tesão e a vontade de continuar se relacionando porque segundo as convenções sociais, não era de bom tom uma mulher madura sentir “vontades”. Tinha de morrer em vida.

Hoje, o perfil da maioria das mulheres mudou. Assumiram as rédeas de suas vidas e desejos e fazem o que querem, como querem e com quem querem. A mulher atual, mesmo que assuma suas madeixas brancas, não tem mais a postura das avós ou tias do passado. O fato de se cuidar, bancar seus desejos sexuais, fazer suas próprias escolhas ao invés de esperar ser escolhida, faz toda a diferença. Nessa bela antologia, conheci mulheres incríveis (personagens e escritoras) que me transportaram para histórias deliciosas, alegres, otimistas, engraçadas, melancólicas, humanas.

Num momento em que feminicídio tornou-se notícia diária, resgatar a importância da mulher, tornou-se fundamental. Discutir o feminino, urgente. Ler escritoras e saber o que cada uma tem a dizer, mais que necessário. 

Debater os direitos do sexo feminino, suas necessidades físicas, psicológicas, materiais, sentimentais, sempre será matéria a ser discutida. 

Fiquei encantada com o poder literário de todas as escritoras presentes na antologia. É um livro para ser lido por todos. Já aguardo um volume dois.

Lançado pela Editora Penalux, o livro tem um belo tratamento gráfico. Capa do competente Ricardo A. O. Paixão (sou fã). Quem já leu outros livros dessa editora, conhece seus trabalhos. Parabéns a todos os envolvidos nesse belo projeto!

Estátua!

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Ei! Você aí marmanjo que, feito eu, só leva a vida a sério não se permitindo mais parar e brincar.

A vida enrijece o adulto e aos poucos deixamos de fazer coisas lúdicas que amaciam nosso espírito tão judiado pelas preocupações do dia a dia.

Essa semana, reservei três dias para cuidar da saúde. Fazer uma bateria de exames por prevenção. Sabe como é, após os cinquenta não dá pra facilitar.

Exames clínicos, ecocardiograma, urina, rolter e, novidade! Nunca havia feito o tal do Mapa 24h. Meu cardiologista solicitou, achei legal ele se preocupar com meu bem estar e lá fui eu, pela manhã fazer o exame.

Laboratório lotado e aguardo, aguardo, aguardo… Que saco esperar! Aguardo mais um cadinho só para não perder o hábito tão brasileiro que temos. Amavelmente esperei. Sorrindo mansamente quando as funcionárias passavam me ignorando. Sorriso congelado que escondia a louca, desvairada, ensandecida Roseli que dentro do peito, lutava para eu a libertar. No entanto, meu lado civilizado continuava a imperar e aguardei mais um pouquinho.

Senhora Roseli Venancio Pedroso!

Sou eu! Euzinha! Muito bom dia!

Bom dia senhora Roseli, meu nome é Celia e vou explicar direitinho os procedimentos para a implantação do aparelho em seu braço. Preste muita atenção para que não dê problemas e perca 24 horas de exame. Caso contrário, precisaremos marcar novamente e fazer tudo de novo.

Fazendo esse discurso, a amável e dedicada profissional foi preparando meu braço e instalando o aparelho de pressão que ficaria 24 horas ininterruptos comigo, apitando de quinze em quinze minutos me obrigando a parar tudo o que estivesse fazendo e ficando à sua mercê até completar…

Desculpe a interrupção, o aparelho apitou e tive de me paralisar. Então, vocês não sabem o inferno que foi passar a manhã toda com esse treco apitando o tempo todo e me fazendo parar e aguardar sua boa vontade em me dar permissão para respirar e seguir com os afazeres.

Na hora do almoço, enquanto fazia meu prato no bandeijão por kilo, parei a fila de pessoas por conta do apito. Piiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

Desgraça! Ouvi muitos impropérios e piadinhas sem graça.

Estão com pressa? Passem por cima! Que saco!

Atravessando a Avenida Paulista, o maldito aparelho volta a apitar e eu, louquinha atravesso correndo e paro instantaneamente fazendo cara de paisagem. Recebi inúmeros olhares curiosos e, novamente, piadinhas. Velha Louca essa aí hein? (risos) de um grupo de jovens estudantes. A louca aprisionada tenta sair da gaiola novamente mas, mantenho a pose de Bonequinha de Luxo versão Gray, e mirando o horizonte, sigo meu caminho até o trabalho.

Por volta das quinze horas já me encontrava babando de nervoso de tanto Pi!Pi!Pi! quando numa das paradas obrigatórias, lembrei de minha infância e do quanto gostava de brincar de Estátua.

Ah como era bom achar tudo engraçado. Tudo era tão leve e tão bom que nem sabia o que era gastrite. Descendo as escadas que dão acesso a Biblioteca onde trabalho, me conscientizei da importância de não se levar a vida tão a sério. E pensei com meu aparelho de pressão: Que tal transformar essa atividade enfadonha numa brincadeira legal? Topa?

O danado do aparelho parecendo compreender minha proposta maluca, apitou estridente me fazendo cair num riso…

…contido. Percebe que tive de ficar estátua de novo?

A partir desse nosso acordo, o resto das vinte e quatro horas passaram numa enorme brincadeira. Mais gostoso ainda foi contagiar as pessoas ao meu redor que aceitaram fazer parte da brincadeira. Cada vez que o aparelho apitava, eu me paralisava e as pessoas ao meu redor também. Olhos brilhantes, músculos intactos, respiração suspensa. Piiiiiiiiiiiiii!!! Todos caíamos num riso contagiante e assim, cheguei ao término de mais um dia de trabalho que – diferente dos outros -, foi transformado em pura nostalgia de criança onde nós adultos, deixamos por quinze minutos, vir a tona o que fomos no passado: crianças felizes e despreocupadas.

Nada como transformar situações cansativas e enfadonhas em algo lúdico e divertido.

Fundamental alimentar a criança que habita nosso interior.

O quê? Quer saber como terminou? Ah, confesso que não terminou muito bem não afinal, em pleno Valentine Day, tive de dar adeus a quem sabiamente me conquistou. Tive de dizer Goodbye ao aparelhinho Pi, deixando-o solitário aguardando um próximo paciente a utilizá-lo. Sei que ficou triste afinal, nem sempre os humanos entendem a piada e a transforma numa história com final feliz. Fazer o quê não é mesmo?

É seguir em frente e ver se numa próxima esquina alguém desperte esse brilho em nosso olhar e tenha o poder de aquecer o coração.

Happy Valentine’s Day for everyone!

Imagem licenciada: Shutterstock

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Defeito de fábrica

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Não me considero a perfeição em forma de gente. Aliás, estou bem longe disso. No geral, talvez tirando meu geniosinho do cão, sou um bom ser humano. Fui educada para ser cordial com as pessoas, respeitar a todos, fazer o bem sem ver a quem. Tenho um coração imenso que procuro na medida do possível, abraçar a todos que se aproximam de mim…

Mas sofro de um pequeno “defeito de fábrica” e, por conta dele, já entrei em algumas frias. Também já perdi amizades, amores e emprego.

É algo mais forte que minha consciência. Quanto menos espero, pá! Já foi. Aconteceu. E nem sempre dá para consertar. Fazer terapia não foi algo que me beneficiou muito nesse problema. Pelo contrário. Sabe, até por aqui tenho que me policiar para não cair no erro novamente. Só digo uma coisa: não é fácil. É cada saia justa que pelamor!

Quem não me conhece costuma fazer uma leitura errada sobre mim. Certa vez, um paquera – futuro namorado -, disse após algumas saídas que eu não era o que ele imaginou ao me conhecer. Que eu aparentava ser uma mulher frágil, delicada e no convívio, mostrei-me uma leoa e isso o assustou. Achei graça dessa confissão afinal, o rapaz estava assustado de verdade comigo! Segui meu caminho achando que ele havia usado essa desculpa para me descartar. Hoje, sei que realmente devo ter assustado o gajo. Depois dele, muitas outras pessoas se assustaram comigo. Algumas bateram de frente e eu mostrei minhas presas. Outras, tentaram puxar meu tapete. Com isso, aprendi a mergulhar e a dar saltos acrobáticos. Lei da sobrevivência. Com o passar das décadas, hoje, mais vivida e mais malhada pela vida, tenho um olhar desbotado com relação aos humanos. Não sou pessimista contudo, tenho uma ótica realista: o ser humano não evoluirá tão já. Fato!

Passei a usar a conduta que me dá um pouco de conforto e proteção: permanecer em silêncio. Nas últimas semanas tenho me sentido uma autêntica freira carmelita que fez seus votos de silêncio.

Pergunto: como elas aguentavam? Estou quase ficando louca com tanta conversa interior! São tantas Roselis conversando ininterruptamente sobre todos os assuntos tabus daqui do lado de fora que estão me enlouquecendo. Não durmo mais, não descanso, nem escrever consigo. Ler então, algo que me era tão prazeroso, hoje tornou-se castigo. E tudo por quê? Por conta da minha tramela cerrada e dessas vozes internas que não descansam um minuto sequer.

Não sei quanto tempo vou aguentar. Confesso aqui minha fraqueza: assim como o personagem do Luiz Fernando Guimarães que era sincero e não media as consequências do que falava, eu, num proporção menor porém não menos trabalhosa, falo o que penso sem pensar. Deu pra entender ou fui muito confusa? Se fui, é culpa dessas vozes que querem todas falar ao mesmo tempo. Vou respirar fundo e falar de forma bem de-va-gar…

Falo demais. Cursava a terceira série primária, quando recebi o convite e saí escondida com uma colega. Pulamos o muro  e fomos para a casa dela. Passamos a manhã assistindo os desenhos animados e comendo pipoca. Ao sairmos, do outro lado da rua, reconheci meu pai. Outra pessoa em meu lugar sabendo que está fazendo algo errado se esconderia. O que a boca aberta aqui fez? Assoviou e acenou para ele e ainda disse: Oi pai! Quicetafazenoaqui? Nem preciso dizer o final dessa história né? Ah, preciso? Apanhei e fiquei de castigo.

E assim, desde pequena fui atravessando os anos tropeçando na minha língua comprida que não cabe dentro da boca.

Recentemente, aconteceu algo que, se pudesse rebobinar a fita e voltar atrás, juro que faria isso. Minha língua foi mais rápida. O efeito delas chegou mais rápido ainda. Caros leitores, com o perdão da palavra: ME FODI!

Para você que se espantou com meu linguajar, é isso mesmo. O que aconteceu não tem outra palavra  que expresse melhor. E por conta dessa minha língua larga e comprida é que estou aqui, num castigo imposto por mim mesma. Ficar calada por tempo indeterminado pensando: Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?Por que fui falar isso?…

 

Imagem licenciada: Shutterstock

Carta de apresentação

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Testo minha capacidade de continuar escrevendo. E escrevo para manter a lucidez.

Exercito a escrita, gerando força para seguir em frente com a vida. Essa mesma vida que hora está uma beleza, ora pesadelo.

E nesse exato momento, ela se encontra feito roteiro de Bergman. Introspecção total no qual me escondo para não encarar minha mediocridade.

Quisera eu ser uma pessoa genial. Não sou. Vivo meu dia a dia comandada pela mesquinhez, corroída pela falta de amor próprio, inveja e desejo de exterminar metade da população mundial.

Reconhecer a vileza e ignorância das pessoas que me rodeiam, me faz lembrar que não sou diferente delas. E isso acaba comigo. Dia após dia, durmo pensando em acordar uma pessoa melhor.

E sempre desperto sentindo que estou mais miserável, mais hipócrita, mais…

Desesperada por dar um fim a essa maratona desembestada tentando provar que sou melhor. Não. Não sou melhor que ninguém. Também não sou pior. Somente, minha humanidade pura, bruta, ressequida, fala mais alto. Salta aos olhos dos outros que, críticos feito eu, reconhece-se em mim e gera – neles também – , essa revolta que não tem fim.

 

Imagem licenciada Shutterstock