Trilha sonora de uma existência

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Quando a vida pesa demais, ouço música. Quando ela sorri para mim, comemoro ouvindo e cantando. Para dar conta das tarefas domésticas, som na caixa maestro.

Devo ouvir música desde o embrião. Meus pais sempre ouviam rádio e meu pai em especial, adorava boleros, tangos, salsas e chorinhos.

Em minha casa, durante a infância, podia faltar mantimentos no armário mas música jamais.

Cresci acumulando trilhas sonoras das mais variadas. Na infância, a turma da Jovem Guarda. Não perdia um programa e sabia cantar todas as canções e a coreografia da turma do Roberto. Mais tarde na adolescência, descobri as canções internacionais cantadas primeiro na vozes dos brasileiros Christian, Mark Davis, Tony Stevens e Morris Albert. Sabe quem são? Mocinha, em meados de 1977, no antigo ginásio, meu primeiro estremecimento musical: Pink Floyd. Ouvir o som do LP The dark side of the moon foi para aquela menina magricela, o primeiro divisor de águas sonora. Extasiei-me!

No ano seguinte, outro impacto. Esse, me causa arrepios até hoje: A night at the opera, da banda inglesa Queen. Pode parecer clichê mas, quando ouvi pela primeira vez Bohemian Rhapsody, simplesmente paralisei. A princípio não compreendi o que era aquela música mas, a necessidade de ouvi-la mais vezes me levou a atravessar a passagem da galeria onde trabalhava e entrar na loja de disco para perguntar que música era aquela e quem a cantava.

Trago ótimas e carinhosas lembranças desse período. A amizade com os rapazes de lá e os discos que fui colecionando ao longo dos anos, foram muitos. Infelizmente, as pessoas se foram. Alguns se mudaram de cidade, outros partiram dessa esfera, outros, simplesmente evaporaram no ar. Nunca mais tive notícias. Restaram as lembranças que são muitas e os LPs que, mesmo amarelados pelo tempo, estão em perfeito estado e tocam que é uma beleza!

Fã ardorosa que me tornei, a espera por cada trabalho novo me deixava com uma palpitação boa. Trabalhava com gosto para ter um dinheirinho extra para comprar e aumentar minha coleção. Depois, claro, vieram muitos e muitos grupos musicais e cantores que fui descobrindo e me apaixonando pelo som que faziam.

No âmbito musical brasileiro, a descoberta de Elis Regina foi outro momento marcante. Que voz e interpretação era aquela? Trago em minha coleção basicamente toda obra que a doce “Pimentinha” lançou em vida. Que primor! Na mesma época comecei a comprar também os discos da desvairada “Ovelha Negra” Rita Lee. Identificação total com sua porralouquice. Mesmo que eu demonstre por fora ser uma pessoa clássica e reservada, meu instinto animal é roqueira e ela, representa maravilhosamente o rock brasileiro. Ainda mais na pele de mulher. Identificação total.

E o que dizer da minha descoberta e ingresso na música clássica? Mais nova, achava ópera e música instrumental uma chatice só. No entanto quando despertei para a beleza e riqueza delas, mergulhei fundo e fiz minha coleção com todos os compositores e suas obras. Um dos que mais me impactou foi Mozart com sua obra Réquiem em ré menor. O que é aquilo? Foi o que pensei ao ouvir pela primeira vez. Dormi muitas noites ao som desse réquiem. Que virtuose! Que talento para compor algo tão belo!

Independente de ser uma missa fúnebre, ela não me entristece. Pelo contrário, ela me leva para lugares que somente uma música pra lá de perfeita pode te levar. Não tenho nem palavras para descrever o que sinto ao ouvi-la.

Depois vieram tantos outros como por exemplo, Astor Piazzolla. com seu sofisticado bandoneon, a descoberta do jazz através do trompete de Chet Baker e Miles Davis, das vozes femininas do jazz como Billie Holiday, Nina Simone… Nossa são tantas que merece uma outra e única postagem até mesmo para falar de minhas mais recentes descobertas.

Enfim, não consigo conceber uma vida sem trilha sonora. E pensar que há pessoas no mundo que não ligam para música. Tenho dó. Suas vidas devem ser bem mais pobre do que a  minha. Que aliás, de pobre não tem nada a não ser a conta sempre no vermelho mas isso… Ah, isso é outra história! Minha moeda de troca é a arte na qual a música está inserida, é meu tesouro que ninguém rouba. Essa levo comigo.