Sentença final

Sabe aquele momento onde um resultado pode mudar radicalmente sua vida? Aqueles minutos que transcorrem após a notícia que ecoa em sua mente.

O ingresso naquela universidade que tanto sonhou, o emprego disputado com vários profissionais que te intimidou, o primeiro pedido de namoro, a viagem que sempre idealizou, o telefonema anunciando que alguém amado morreu.

Essas são apenas algumas das situações em que nos vemos presos entre a realidade e um corredor para o nada que simboliza o desconhecido.

Mas nada se comparara a notícia que sacramenta sua finitude nessa existência. Ao cair em nossos ouvidos, a frase traça uma coreografia fora de compasso até chegar ao cérebro. Processar é outro movimento estranho.

Estou condenado. Vou morrer. Vou morrer. Vou morrer… Difícil assimilar essa sentença afinal, por mais que saibamos que todos temos prazo de validade, preferimos passar essa peteca para os outros. E quando não temos mais ninguém a quem passar, segurar essa bola de fogo nas mãos é trabalho penoso.

A mente, confusa, não processa o fato. Perde-se em milhares de sinapses que se batem entre si causando confusão. O coração, por instantes pára de bater e depois cavalga em descompasso dificultando a respiração. Uma sudorese se espalha por todo o corpo.

Em breve, não sei quando, esse corpo não mais estará aqui enfrentando o trânsito, adentrando metrô lotado, aguentando o mal humor das pessoas que como eu, temem esse momento.

Não mais provarei os sabores de pratos gastronômicos, nem os vinhos que tanto amo.

E o que dizer do meu futebol? Nunca mais a expectativa de acompanhar da arquibancada meu time de coração ganhar uma partida. Ou perder, que também faz parte do jogo. Nunca mais xingar o torcedor anônimo do time adversário nem chamar ele pra briga.

A música, meu segundo alimento, se perderá no espaço assim como minhas moléculas.

A leitura e a escrita também farão parte do que um dia fui. Será que deixarei lembranças naqueles que ficarem? E se deixar, serão boas ou más?

Alguém sentirá minha falta ou – em sete dias após a missa -, cairei assim como tantos, no vácuo do esquecimento? Pior, nem missa terei. Lembrei que não sou católico. Alguém irá chorar por mim?

Será que minha vida foi em vão? Afinal, nada fiz de excepcional para demarcar meu nome para posteridade. Fui medíocre. Tudo em minha vida foi mais ou menos. Tive preguiça de me esforçar para ser melhor em alguma coisa. Contentava-me com o mínimo.

Estranho saber que desde já, não pertenço mais a isso tudo chamado vida. Mais estranho ainda, é saber-se lembrança. Fragmentos de uma memória que com certeza criarão de mim e não o que fui de fato. Isso, nem a gente sabe. Partirei para um nada cósmico sem ter a certeza do que fui.

Finito. Repito. No pouco tempo que me resta, vou criando meu rito.

Finito… Mais uma vez repito para mim mesmo. Trabalho no sentido de fazer a passagem o mais leve possível. Menos dolorosa mesmo que a carne grite. Mesmo que a alma insista em permanecer aqui.

Finitude…Busco uma razão para gostar da partida. Imagino cenas novas na minha minissérie preferida no qual sou protagonista. Feito Cacilda Becker, desejo sair de cena no próprio palco. Altivo. Destemido. Ousado.

Oh Deus! Misericórdia! Sei que nesse processo, não sou nada. Apenas um saco de gordura, água, fluídos. Mas…E isso tudo que carrego aqui dentro? Emaranhados de sensações, emoções, desejos, lembranças? Isso tudo não é matéria para os vermes. É o que então?

Não tenho resposta para essa e tantas outras indagações que surgem filosoficamente nesse momento único. Como já disse lá atrás o filósofo dos filósofos: Só sei que nada sei.

E nessa total ignorância , me perderei retornando para o berço de tudo transformado em poeira cósmica anônima. Sem registro, sem CPF, sem documento algum que me identifique e diferencie dos demais que já partiram.

Talvez essa seja a verdadeira democracia. É na morte que nos nivelamos e nos tornamos iguais perante o universo.

 

Imagem: Google (desconhecido)

Falta de visão

Noite chuvosa e uma ventania batucando na janela. Perfeita combinação para ficar debaixo de cobertas bem quentes. No entanto, Jussara, inquieta, levanta-se e despindo por completo, abre a janela de seu quarto. Abrindo os braços, sorri aliviada sentindo os pingos da chuva aliviar seu fogacho.

Há dois anos não sabe o que é dormir tranquila por conta dessas ondas de calor que lhe possui o corpo durante a noite. Não que durante o dia fique livre, contudo, são mais espaçadas. Agora à noite o bicho pega…

O sorriso a acompanha ao virar de costas e sentir além dos pingos, o vento assoprando e amenizando seu fogaréu interior. Uma felicidade inesperada a invade e inicia uma coreografia sem música ali mesmo, às 3 horas da manhã de uma terça-feira. Nem se dá conta que, de um prédio próximo, numa das janelas, alguém também com insônia a observa esquecendo seus próprios problemas.

Através da fumaça do cigarro e entre goles de uísque, um homem maduro abandona sua máscara diária de contrariedade e sofrimento deixando à mostra, o jovem saudável e cheio de sonhos que foi um dia. Tudo por conta dessa aparição na janela.

-Quem será ela? Não consigo enxergar direito mas ela parece ser linda! Estará dançando para algum sortudo? Quisera eu ser a platéia para essa dança.

No interior da sala, Jussara continua os passos coreografados, um misto de Ballet clássico com dança selvagem. Vem à lembrança a figura de Josephine Baker. É exatamente assim que ela se sente. Livre, leve e solta. Livre, principalmente dos calores que a sufocam.

Toda essa movimentação a faz lembrar de quando tinha quatorze anos e frequentava as aulas de Ballet de madame Remy.

Mulher mignon, refinada, delicada nos gestos porém, de uma rigidez na disciplina que a transformava numa déspota com suas pupilas. Jussara gostava de seu jeito. Sorriu satisfeita em ver que, mesmo após tantos anos sem dançar, ainda conseguia se movimentar com leveza.

Do outro lado, o homem encheu novamente o copo e acendeu mais um cigarro. Sorria entre a fumaça e os goles ao observar os seios ainda firmes que, soltos, se movimentavam com delicadeza acompanhando os braços delgados que se abriam como se quisessem alçar voo. Os cabelos da misteriosa mulher o encantou: longos, fartos e grisalhos.

-Preciso conhecer essa mulher! Onde esteve esse tempo todo que nunca a vi? Tão perto e tão distante. Essa cidade é mesmo muito louca! – dizendo isso, caiu numa risada rouca ao ver sua musa girar em frente a janela e parar de olhos fechados sentindo os pingos da chuva em sua face.

A dança durou  mais uns minutos até que satisfeita, Jussara cerrou a janela e após um banho, deitou e dormiu sentindo-se uma menina.

O homem, ainda permaneceu à janela, terminando seu cigarro e sua bebida, perdido em pensamentos que há muito não tinha: desejo.

A esperança de que ela voltasse acabou e, com suas expectativas frustradas, fechou as cortinas e retornou ao seu trabalho. Agora, sentindo-se revigorado com sua musa.

Amanheceu satisfeito com sua produção. Ela o fez esquecer as dívidas, o abandono e traição de sua última companheira , e devolveu a vontade de se reerguer afinal, ele, o grande e respeitado ilustrador precisava voltar a brilhar e a ganhar dinheiro.

Fez um café forte, tomou uma ducha revigorante. Ao se olhar no espelho, observou sua fisionomia envelhecida, sua barba grande e desalinhada, seus cabelos sem vida e suas olheiras que denunciavam noites mal dormidas e excesso de bebida e cigarro. Pensativo, sorriu e radicalizou: raspou a barba e cortou o cabelo bem curtinho.

-Assim sim! Estou irreconhecível!

Vestiu seu velho jeans, camisa xadrez e colete. Posicionou na cabeça sua boina e, satisfeito pegou o portfólio. Resoluto, partiu para o metrô rumo ao escritório de sua editora. Na plataforma lotada, ficou ao lado de uma senhora elegante num terninho rosa claro, com uma echarpe suave a envolver seu pescoço. Óculos clássico e dois livros nas mãos. Trem chegou, porta se abriu e os dois sentaram-se juntos. Ocupados com os próprios pensamentos, não imaginam que foram protagonistas de um possível futuro encontro. A vida oferece muitas oportunidades para as pessoas se encontrarem, se conhecerem e se amarem. Pena que são cegas para esses pequenos e preciosos presentes. E cada um desce nas respectivas estações e seguem seus destinos. Quem sabe amanhã ou depois?

Lado B

Sabe aquele instante em que você põe tudo a perder ao se deparar com a ignorância de um interlocutor? Quando vem à tona sua característica primitiva e, quando menos espera, bota suas presas e garras de fora ansiando para destroçar o inimigo?

Pois é…Passei por uma situação dessas. Claro que toda essa introdução é mera ilustração. Não deixei vir à superfície o lado B Roselístico, no entanto, deixei-me envolver pela energia negra da criatura que chegou até mim disposta a uma boa briga. E eu, desarmada que estava, entrei no clima. E que clima!

Quem trabalha com o público sabe que nem todo dia são flores perfumadas. As pessoas descontam em você toda raiva e frustração que sentem na vida. Quem estiver mais perto, serve de alvo para suas disparadas. No passado já enfrentei coisas bem difíceis.

Acredito que a arrogância seja o pior traço de uma personalidade até mesmo porque, engloba outros defeitos como discriminação, preconceito, racismo, sentimento de superioridade , desdém.

No mundo que circulo, convivo diariamente com ela. Já presenciei cada situação! Nunca me curvei aos ataques para me sentir inferior. Nesse quesito, sou bem resolvida e reconheço meu valor. Nunca me senti menos. Nem mais.

Quando me deparo com pessoa arrogante, chego a ficar com pena pois é visível sua infelicidade. Daí o ataque que, temporariamente, a faz sentir-se melhor. Pelo olhar endurecido e fuças dilatadas além do suor que emana ferocidade, dá para reconhecer pessoas desse quilate.

Hoje, acredito, para infelicidade de ambas, travei um embate delicado e chato com uma mulher que, se pudesse, teria atacado minha jugular. Gritou e disparou sua ira em mim feito uma PK nas mãos de um terrorista. Fui alvejada por todos os lados e, claro, para me defender, agi sem pensar. Resultado: joguei merda no ventilador.

Caro leitor, desculpe meu palavreado chulo mas não tem outra coisa para dizer a não ser isso mesmo. Pega de surpresa,  irritei-me com a pobre senhora rica.

Logo eu, que costumo ser a Zen do pedaço. Sempre com um sorriso nos lábios e uma leveza no olhar.

Mais triste fiquei ao reconhecer que ainda tenho um longo percurso a percorrer no caminho da evolução. Ainda sou Terra. Minha essência é primitiva e animalesca e mesmo com todo verniz social, ainda sei grunhir e esfolar quem atravessa meu caminho.

Não sei quanto a tal senhora. Na realidade, acredito que deve ter dormido à noite o sono dos “justos” injustiçados achando que foi a grande vítima. Da minha parte, permaneci insone lamentando o ocorrido e pensando no quanto, muitas vez, vale mais a pena ser ignorante e não ter consciência de seus atos. Sofre-se menos.

Poeminha amargo

Obscuro(antismo)

Paisagem

nebulosa

situação

vergonhosa

essa nossa

real(idade)

Sem direitos

só defeitos

sem moral

nem local

para viver

comer

trabalhar

morrer.

Esse é o país que

(não) deu certo!

Sigamos a procissão

Só nos resta orar

lamentar

vigiar

expurgar

a culpa

por não lutar

não se informar

não se responsabilizar

não

lutar,

lutar,

lutar…

rá tá tá tá Búm!!

calou Anderson,

tombou Marielle

se desfez Josés,

sumiu Amarildo,

anônimos

Esfacelou sonhos

esperanças

alegrias

carnavais

Caiu a máscara!

Amordaçaram a Bela

restou apenas a

Fera.

Esconde que ela vem aí!!!!!!