Visita inesperada

kinder ovoSeu assovio característico adentrou a janela e se instalou em cada célula de meu corpo que até então, encontrava-se anestesiado. Alerta geral.
Abaixei o volume da televisão e fiquei atenta. Ouvi novamente. Levantei de um salto único esquecendo as dores da fibromialgia e abri a janela. Olhei de um lado, de outro, até que o som chegou até mim revelando seu dono.
Do outro lado da calçada, equilibrado numa bicicleta, você sorrindo me olhava. E acenou fazendo mímica para abrir o portão do prédio para subir.
O misto de emoções que me assolou causou uma paralisia temporária. Não conseguia sair do lugar nem mover nenhum músculo. Só queria eternizar aquele momento te vendo de novo.
Tão lindo e sorridente como sempre. Pediu mais uma vez para abrir o portão e correndo para o interfone, acionei o dispositivo.
Tomada pela ansiedade do reencontro não esperado, destravei a tranca da porta e – de portas abertas -, olhava os andares que o elevador anunciava passar.
Impasse. O elevador parou e ninguém saiu. Aguardei com o coração descompassado. Silêncio. A luz cansada, apagou-se. Assim como minha esperança. Retornei e fechei a porta pensando no absurdo de tudo. Ao girar a chave, a campainha tocou.
Fiquei de respiração suspensa. Aguardei um segundo até a campainha soar pela segunda vez.
Abri. Do nada você surgiu à minha frente mantendo o sorriso tão amado e com olhos brilhantes de emoção. Assim como eu. Avançou em minha direção envolvendo-me num abraço apertado, quente. Exatamente como na nossa despedida.
Ficamos assim por um tempo que não sei precisar. Choramos em silêncio. Palavras eram desnecessárias e jamais traduziriam o que sentíamos.
Fiz sinal para sentarmos e vendo você se desvencilhar de mim e seguir para o sofá, te observei por trás. Não mudou nada!
– Sua bike?
– Deixei na portaria. Não pretendo nem posso demorar.
-Ah!…
– Estranho você aparecer assim, do nada, sem avisar…
– É. Resolvi assim, de última hora. Fiz mal? Desculpa…
– Não não…. Sem problemas. É que fui pega de surpresa mesmo.
Um silêncio tomou conta da sala e ambos, de olhos baixos não conseguíamos falar.
Vencendo a inibição do momento, você olhou para a TV ligada e disse:
-Ah! Está assistindo essa série. Legal. É divertida.
– É. Estou gostando. Tinha até me esquecido mas retomei essa semana. Começou a terceira temporada. Será que eles alcançam o céu? E será que realmente o céu é um Bom lugar? Tenho minhas dúvidas.
– Eu também. Se quer saber minha opinião. Mas é uma série divertida. Vale por isso.
– Senti saudades…
– Eu também. Muita.
– Sofri com sua ausência…
– Eu também. Acredite. Ainda sofro por isso te procurei.
– brigada…
– Quero que leve sua vida de boa. Não se prenda ao passado. O que passou, passou.
– Fácil falar…
– Sei… Mas é preciso. Eu também tenho de me esforçar ao máximo para vencer a tristeza que muitas vezes bati aqui óh! Cessabeonde.
– Sei… Desculpa se foquei apenas em mim e não vi o que estava escancarado na minha cara. Poderia ter sido diferente
– Não. Não poderia. Tenha certeza disso. Precisava partir. Mesmo não querendo, precisava. Não tem de sentir culpa alguma. Esse foi um dos motivos para essa minha visita.
– Ah é? E qual é o outro motivo além desse?
– Pura saudade de nossas conversas.
– Entendo. Também sinto.
– E também sinto falta de nossas experiências gastronômicas. Nunca mais fiz aquela massa ao molho pesti. Bom né? E você? Continua gostando e fazendo?
– Sim. Adoro massas. Sigo em frente fazendo minhas receitas. Com a diferença que agora, como sozinha…
-É.



-Preciso ir. Não posso demorar muito.
– Não. Não vá.
– Gostaria de ficar mais. Não posso. Por favor, não chore. Nunca mais. Foi por isso também que vim. Para pedir que não chore mais por mim. Acredite: estou bem. Tenho crescido, conhecido pessoas, aprendido ofícios novos. Nunca imaginei isso. Promete não chorar mais?
– Não me peça pra te esquecer. Não consigo.
– Não estou pedindo para me esquecer. Nem quero que isso aconteça. Só não quero que sofra.
– Vou tentar
– Tente. É importante para mim.
– Está bem. Vai me visitar de novo?
– Não. Não voltarei mais aqui.



– Por favor, não torne tudo mais difícil do que já é
– esculpa
– Te amo. Vou te amar sempre. Pra eternidade.
– Eu também.
– Já vou. Fica bem. Por favor, fica bem. Seja feliz.
– Seja feliz também e se, precisar, conta sempre comigo. Sabe que pode contar né?
– Oh se sei! Te amo! Te amo! Te amo! Fui!
– Espere! Vou te acompanhar até a portaria.
– Não. Você fica aqui. Não torne tudo mais difícil do que já é.
– Deixa eu ficar um pouco mais em sua companhia.
– Não. Desculpe, mas será pior. Para nós dois. Fica!

O barulho de uma porta batendo forte me despertou assustada. No escuro do quarto, compreendi que tudo não passou de um sonho. Um lindo sonho. Ao acender a luz e sentar, percebo um objeto depositado aos pés da cama. Toco e reconheço: um kinder ovo! Você sempre gostou. Desde bebê.
Confusa, levanto-me e percorro os metros quadrados de minha quitinete em busca de algo que possa explicar o surgimento desse brinquedo afinal, não recebi ninguém aqui esses dias. Muito menos uma criança. Ao abri-lo, junto ao brinquedo, cai um papel enrolado com a seguinte mensagem: Nunca duvide do impossível. O amor tudo pode.

 

Esse texto brotou da saudade que sinto do meu “Menino Maluquinho”. Hoje faria 24 anos. Saudade sem fim mas com paz no coração e um agradecimento eterno por ter convivido comigo por 23 anos de muita parceria e afinidade. Grata pelo kinder ovo que deixou de lembrança para mim em sua última visita. Guardo como tesouro nosso.

Imagem: Google

 

Salamandrei

Nunca gostei de retrospectivas. Para mim, o que passou, passou. Mesmo que tenha sido bom, não vale a pena ver de novo. Quem gosta disso é a Globo. Eu não.

Contudo, até como forma de retomar a escrita que anda bem parada, decidi escrever e discorrer sobre o ano de 2017. Nunca fui pessimista. Costumo ser até um pouco otária de tanto exalar otimismo. É minha filosofia de vida. Ninguém precisa concordar. Cada um, cada um. Também não é costume meu chorar fracassos e percalços.

Mas devo confessar que esse ano foi um ano de provação pessoal. Fui posta à prova em diversos setores. Quase fui reprovada nessa matéria. Ainda bem que na vida real, não existe isso caso contrário, repetir o ano de 2017 seria penalização máxima que – com certeza – me faria desistir. Sentir-se na corda bamba atravessando um precipício a querer lhe engolir, não costuma ser uma sensação agradável. Percorri o ano pisando numa linha invisível que a todo momento balançava e me trazia um sentimento de pânico. E a quem recorrer quando – de repente – sua confiança não encontra moradia em ninguém? Nem mesmo naqueles que tanto confiou?

Alguns podem achar que seja loucura minha. E eu digo: pode até ser afinal, quem hoje não tem pelo menos um fio de neurose? Encontro-me na normalidade.

Minha zona de conforto perdeu  a estabilidade que até então mantinha-me segura. Minhas placas tectônicas moveram-se de forma transloucadas fazendo-me cair diversas vezes. Estou cheia de escoriações físicas e também na alma. O corpo, tratei de passar muito cataflan e bolsa de gelo. E na alma? O que devo aplicar para sanar as dores?

Muita respiração pausada. Muito mantra. Muito vinho para amaciar a carne e entorpecer as emoções. Muito hare khrisna, muito tambor batido. Contudo, o que mais tenho necessitado é de amor. A começar por mim mesma a se enternecer pelos cacos espalhados no chão após o vendaval. Mesmo em pedaços, essa sou eu que teimo em seguir adiante. E sigo tentando ser como a salamandra regenerando minhas partes danificadas.

Hoje, quase um ano, acredito que assimilei parte do aprendizado. Quase refeita, consigo andar de cabeça erguida e só fraquejo quando estou só. Até voltei a sorrir. Outro dia, chegando em meu apartamento, notei que meu vaso de violeta floriu. Fui tomada por uma alegria tão grande que lágrimas me fizeram companhia. O bom é que dessa vez foram lágrimas de alegria. E assim, volto a reconhecer a riqueza da vida. Hora sangramos diante de perdas e tristezas. Hora lacrimejamos de felicidade e assim, através das pequenas coisas que nos acontece no dia a dia, celebramos a graça de estarmos vivos.

E eu, que iniciei esse texto mergulhada na melancolia, termino com o coração palpitando ao som de Freddie Mercury : Show must go on!