Aceitação

mulher escrevendo2

Escrever. Há meses não consigo sentar e desenvolver nada que preste. Um vazio repleto de vozes díspares tomam conta de meu interior e esse barulho interno me impede a escrita.

Trago tantas histórias dentro de mim porém, nada se concretiza. Nada me agrada.

Aquela vontade que tinha em publicar algo só meu, dissipou como tantos outros sonhos não realizados. Não é amargor que trago comigo. Talvez, uma conscientização de que nada nesse mundo valha a pena se for apenas para lustrar nosso ego.

Para mim, escrever não significa – após a labuta com as letras e histórias -, brilhar na passarela das livrarias e bares para lançamentos fúteis cheios de pessoas mais vazias que eu, que satisfazem sua autoestima fingindo-se bem sucedidas nas letras. Nada contra se você se contenta com isso. Não eu. Detesto esse teatro pobre. Ando preferindo a vida real a essas encenações canastronas. Também não tenho mais idade para brincar ou fingir ser. Entrei na caminhada de ou é, ou não é.

E tive uma prova disso tudo, durante minhas viagens em férias. O contato com pessoas simples e verdadeiras em sua essência, despertou meu desejo de mergulhar fundo na alma humana.

Conheci seres encantadores, de sorriso fácil, que não temem o olho no olho. Aliás, essa foi uma das características que observei em todos.

A religiosidade levada a sério também me tocou de forma profunda. Eu, que no passado cheguei a ser grande seguidora e trabalhadora da espiritualidade mas, que depois, fui seduzida e sugada pela carreira acadêmica e carreira. Acabei por me afastar de tudo, inclusive de mim mesma. Por anos, fingi e acreditei ser aquela personagem criada: uma mulher bem sucedida, moderna, independente, que sabe o que quer. Sou isso tudo sem dúvida, mas sou muito mais. E esse mais, ando descobrindo aos poucos. Ao vivenciar de perto a finitude da vida, tornei-me mais obstinada em viver intensamente meu dia a dia.

Contudo, mesmo tendo a certeza de que não nasci para esse ofício, sinto uma necessidade que impera sobre o bom senso pegando-me pelas mãos e fazendo sentar e escrever. Dedos e mente nervosos em traduzir o que se passa aqui dentro dessa caixa craniana. Só me resta obedecer. Mesmo que contrarie minha convicção de nunca mais fazer isso. Talvez seja meu vício. Minha fraqueza e minha melhor parte.

 

Imagem: pxhere