Criador e criatura

Da janela de seu quarto, observa um recorte do mundo exterior. Do lado de cá, é ciente de sua realidade. É só isso que tem. Contudo, o que não sabem, é da riqueza de sua imaginação. Através dela, percorre mundos paralelos e inventados por sua mente criativa e alimentada por muitas leituras desde que se alfabetizou. A rica moldura para a realidade, pincela traços grotescos de concreto envelhecido, pinturas desgastadas pelo tempo, vidros repletos de adesivos de estudantes que vem e vão, neons anunciando noitadas quentes a preços convidativos, drinques e diversão garantida, jardins verticais e grafites.

Sirenes rasgam o parco silêncio da rua anunciando mais doentes chegando ao hospital no final da rua. São mais frequentes aos fins de semana acompanhados de muitas cheiradas e álcool. A existência de muitos terminam ali.

Enquanto isso, sua vida segue arrastada numa rotina medonha. Não reclama. Está bom assim. Tem tudo à mão. Somente o que necessita para manter-se viva…

Tudo mudou há seis anos. Era outra pessoa. Ousada, destemida, competente e conhecida. Teve fotos estampadas por diversas vezes em jornais. Uma celebridade. Ganhou dinheiro, viajou, adquiriu imóveis. Aqueceu seu corpo escultural ao lado de muitos homens.

O prazer físico era um de seus vícios que – na medida do possível e também do impossível -, saciava. Seu duplex, decorado por Sig Bergamin, fora palco de muitas orgias. De três em três meses, abria as portas para um grupo seleto. Com direito a roteiro, personagens, boa gastronomia, bebidas à vontade. Baixelas de prata repleta de pó espalhadas por toda parte ofertavam aos convidados, momentos de puro êxtase sensorial, corporal, acompanhados sempre por música clássica ou eletrônica além de trechos de poemas e contos de autores conhecidos ou anônimos. Tudo variando conforme o tema estabelecido por ela. Toda festa era sucesso absoluto e comentadas por semanas nas rodas de amigos. Amante de sexo grupal, seu clímax era o anal que a deixava louca de tesão e estimulava fila indiana da ala masculina para enrabá-la. As mulheres participantes sugavam seus peitos bem garantidos pela gravidade entre outras brincadeiras. Seus bicos chegavam a sangrar de tão chupados e mordidos. Não ligava. A dor fazia parte do jogo. Inúmeras vezes gozou equilibrando-se no parapeito da janela do vigésimo andar. Ali, nas alturas, nua, sentindo o vento a lhe abraçar o corpo junto com algum outro a lhe penetrar, sentia-se verdadeiramente livre e dona do mundo. Seu mundo. O sexo tornou-se seu vício maior. Mais que a cheiradas, picadas e destilados. O parceiro desse vício era o risco calculado. A adrenalina era altamente prazerosa. Foi ousando e se arriscando cada vez mais. Até o momento que seus parceiros de aventura começaram a sair de cena. Muita loucura. Sem maiores explicações, a vida lhe deu um xeque-mate antes que ela fosse responsável pela morte de alguém ou de si mesma. Certa manhã, despertou sentindo-se estranha. Não reconheceu ao mirar-se em seu espelho veneziano. Recolheu-se debaixo dos lençóis egípcios e permaneceu na penumbra por várias horas. Que se tornaram dias, meses, anos. Raras vezes saiu do edifício a não ser para ir ao médico da família que a acompanha desde então. Os amigos, de início até a visitavam mas, aos poucos se distanciaram. Ela não era mais divertida. Olhar ausente pairando sabe-se lá em que paisagens causava incômodo a quem se aventurasse a visitá-la. Muda. De mulher extrovertida e com os temas sempre atualizados sobre tudo, nada mais pronunciava. Sua articulação desembaraçada havia se perdido. Somente balbucias incompreensíveis. Sua beleza – antes admirada e invejada -, agora, apenas um punhado de pele flácida de coloração acinzentada. Seus cabelos volumosos, com brilho e sedosos, hoje, um emaranhado fosco e quebrado. Ela o arrebenta em momentos de crise…

Lê mais uma vez o que acabou de escrever com a ajuda do software Motrix, instalado em seu notebook, sorri satisfeita com sua mais recente história e personagem.

Assim como Álvares de Azevedo, nada viveu em sua limitada vida porém, o que consegue vivenciar através de leituras e escritas comprova sua experiência! Por hora é só. Seu corpo pede repouso.

 

 

 

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