Debut

elegant-silver-bridal-shoesDorothéa perdia-se na imagem refletida no espelho. Nunca se vira tão linda assim. Pela primeira vez, em treze anos, sentia-se parte da humanidade civilizada. Pela primeira vez, estava limpa, banho tomado numa imensa banheira, num cômodo forrado de mármore rosado e enormes espelhos por todas as paredes. Lembrou-se do toque prazeroso da toalha felpuda em seu corpo. Do cheiro adocicado de amêndoas. Do shampoo que transformou seus desgrenhados cabelos sem vida, numa cascata brilhosa e perfumada. Sorriu para sua imagem refletida mostrando dentes fortes e bem feitos que também ganhara vida após uma longa escovação. Sentia um gostinho de menta na boca. Uma senhora entrou no quarto trazendo um traje branco, bordado com pequenos vidrinhos que brilhavam conforme a luz batia neles. Trouxe também um par de calçados prateados e de salto. Seus olhos cresceram diante de tanta beleza. Afinal, para quem só andava descalça ou – quando muito -, num chinelo improvisado de papelão, ter agora em seus pés calçados tão finos era como entrar  no céu. Toda feliz, vestiu-se e calçou os sapatos. Caiu como uma luva. A mesma senhora voltou ao quarto trazendo agora, uma maleta de maquiagem realçando os belos olhos verdes, destacando as maçãs do rosto e colorindo os lábios carnudos da jovem.

Perfeito! – disse entre os dentes  a senhora que admirava o que via pela frente. Fruto de seu olhar clínico e experiência de vida.

Sorrindo disse à Dorothéa: Menina acredite hoje você fará história na própria vida e dos outros. Vire-se para eu ajeitar o laço do vestido e do seu cabelo. Lembre-se: Sorria sempre que a vida também lhe sorrirá!

Juntas, saíram abraçadas do quarto rumo ao destino que se abria para a jovem e promissora prostituta.

 

Imagem: Cherry Mary

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Maré de decisões

pes na praia

Observando a movimentação dos pescadores, Luciana se encontra há horas, no pequeno porto. O vai e vem dos barcos e das ondas, acalentam seu coração – por hora -, conturbado. Em seu íntimo, várias questões se digladiam. Muitas decisões importantes a tomar. Decisões que mudarão definitivamente sua jovem vida. Enquanto pensa, uma doce brisa brinca com seus longos cabelos negros. Tenta assimilar sua nova realidade, se preocupa em como revelar à sua família. Sabe que não será fácil. Chuta a areia, levanta e segue pela orla resoluta em parar na primeira lanchonete que encontrar e comer umas fritas bem crocantes. A vontade surgiu do nada e fez a menina salivar de desejo. O primeiro, de muitos que terá até completar os nove meses. Após saciar essa vontade, ela pensará numa forma de contar para sua mãe.

“Prepara o lombo Luciana! Hoje a noite a jiripoca vai piar!”

 

Imagem: Freepik

Exercitando

Vozes abafadas lá fora. Cá dentro, mentes focadas no estudo e em seus smartphones. Sons de páginas viradas. De livros, cadernos e revistas. Meus dedos desgastados de tanto manipular livros, encontram-se ressequidos e enrugados. Mas continuam a virar página a página do livro de Murakami. Romancista como vocação. Sua leitura me leva a um balanço tímido se devo aventurar-me num território tão árido. Devo ser leviana ou totalmente sem noção para me meter nesse meio. Sei de antemão que não serei bem recebida. Muitas críticas hão de cair sobre meus carcomidos ombros de balzaquiana. Caso tivesse bom senso, passaria longe. Recordo da leitura que fiz do livro de Stephen King sobre sua escrita. Lembro também de outros livros lidos: Para ser escritor, de Charles Kiefer, A arte de fazer artes, de Gloria Pondé, Truques da escrita, Howard S. Baker, Escrevendo com a alma, Natalie Goldberg – esse último, tenho grande estima por ele – lido  mais de uma vez. Se aprendi algo? Não sei dizer. Talvez sim. Talvez não. A única certeza que trago – agora de forma consciente – , é que não desejo copiar ninguém. Tenho imensa admiração pela escrita de centenas de escritores no entanto, não quero ser cópia de nenhum deles. Vivo em busca de um estilo próprio. Não almejo estar lado a lado dos grandes. Sou humilde ou talvez relaxada, destituída de um plano de vida literário. Na realidade, sinto-me até mal em pensar-me escritora. Dá a impressão de que estou profanando um espaço sagrado ao qual não faço parte. Sei lá. Paranoia? Quem pode dizer. Falta de comprometimento? Talvez. Preguiça? Com certeza. Insegurança? Todas confessas. Enfim, deixa eu encerrar minhas divagações diante dos alunos estudando aqui na biblioteca. Meus olhos cansados ardem após uma noite não dormida e meu corpo pede descanso. Mais um dia se encerra. Mais uma data no calendário roda e meu desejo de retomar a escrita parece aos poucos adquirir força após um período de inércia. Amanhã tentarei novamente.