Reza mal feita

Angry-lady

Tem dias em que a melhor coisa a se fazer é…Não levantar da cama por nada!

Juro por todos os Santos que orei antes de me levantar hoje. Agradeci mais um dia de vida, pedi bençãos e proteção para mim e toda família, pelos amigos e colegas, pela humanidade que possa regressar para sua condição de apenas ser humanos.

Levantei desejando ficar mais um bocado debaixo das cobertas afinal, que frioo!!

Tinha intenção de ir direto para o banheiro tomar uma ducha para despertar de vez. Mudei de ideia bem na esquina do banheiro com a cozinha. Decidi adiantar ligando o forno para assar alguns pãezinhos de queijo para o café da manhã. Não contente, achei melhor colocar um pouco de água para esquentar e fazer um café bem quentinho afinal, o café passado na cafeteira não esquenta como gosto.

Sonolenta, acendi o fogo, coloquei a caneca com a água e encosto na pia esperando não sei o quê. Talvez despertar de vez. De repente, um cheiro de queimado toma conta de minhas narinas.

Senhor!! Meu pijama encontrava-se em chamas na manga. Brigadista juramentada por três anos consecutivos, respirei fundo e com calma, coloquei meu braço inteiro debaixo da água que jorrou fortemente da torneira escancarada. Por segundos passou por minha mente um filme sobre minha vida e o trágico final dela se transformando em cinzas. Lembrei das inúmeras vítimas do incêndio em Portugal e assoprando o suave ardor em minha pele, imaginei a dor e desespero de quem morre torrado. Senti pelo pijama mas agradeci em pensamento e em fala alta pelo apartamento aos anjos protetores que mesmo me observando ainda sonolenta, livraram-me de um destino pra lá de quente. Assei os pãezinhos, ficaram no ponto. Passei o café, fiz um pouco de leite sem lactose e deixando de lado a ideia de um banho, optei por me alimentar antes. Com calma, tranquilidade e consciência de fazer o que fazia esquecendo um pouco o mundo da fantasia. Vivo por lá. Às vezes, a vida te grita para que retorne e finque os pés na realidade. Lembrei enquanto tomava um gole do café de que hoje teria logo cedo uma consulta com minha ortodontista. Humm! Não se esqueça de escovar muito bem os dentes! – pensei esboçando um sorriso cafeinado.

Num piscar de olhos embaçados, já havia se passado uma hora e eu precisava me apressar. Dei uma volta debaixo do chuveiro, saí tiritando de frio, me enrolei na toalha e ao sair quase caio escorregando numa poça de sabão que não havia diluído. Troquei-me em segundos quando me lembrei que não havia passado desodorante.

Sacoo!! – disparei correndo ao banheiro abrindo a camisa e passando o desodorante seco. Voltei ao quarto, caçando minhas botas. Peguei bolsa, celular, olhei ao redor e, Ah! Já ia me esquecendo: minha marmita na geladeira.

Pronto. Almoço garantido Quase na porta, sinto uma dor de barriga das boas. Fiquei na indecisão: volto? não volto? uso o banheiro do consultório, e se não der tempo? uso o banheiro do metrô…Eca! Voltei para meu banheiro branquinho, puro, limpinho e cheiroso. Para distrair, pego a última edição da revista Casa & Jardim. Adoro me distrair vendo casas bonitas enquanto o intestino trabalha. Não consigo me ocupar das belezas da arquitetura urbana da matéria principal. Minha matéria estava rebelde e se debatendo dentro de minhas entranhas. Senhor o que é isso? Um Alien dentro de mim? Vontade de gritar, contudo, tive de bancar a fina e gemer em silêncio para não acordar a vizinhança que ainda dormia. Entre a vontade de gritar e chorar de dor, veio-me a lembrança da famosa cena dos filmes As branquelas – quando uma delas que sofre de intolerância a lactose, experimenta um salgadinho numa festa e vai parar no banheiro. Jesuis essa cena é hilária! Quem já assistiu sabe do que falo. Iniciei um ritual louco para expurgar aquilo que me causava dores e barulho. O que era aquilo crescendo dentro de moi? Dobrei-me, botei a cara quase rente ao chão, cheguei a ficar tête-à-tête com uma formiguinha minúscula que circulava  desgarrada de seu bando. Até ela parecia desesperada para sair dali. Pressentia perigo assim como eu.

Passou… Chegou a calmaria e com ela, a consciência de que precisava sair de casa urgente. A consulta!

Saio correndo do apartamento, do elevador, do prédio. Chego driblando moradores de rua, adentro a estação de metrô. Driblo mais uma vez o mar de gente a minha frente se arrastando feito lesmas de olhos pregados em seus smartphones. Odeio-os!! Saiam de minha frente cambada! Numa tomada de cena típica de quem tem pressa, quando não havia mais espaço para alguém no vagão, entro com tudo e faço dar espaço para mim e mais meia dúzia que entra junto. Agora, respirar fundo, olhar para o infinito e seguir viagem. Uma estação apenas.

Uma estação apenas no qual tenho de aguentar uma senhora vestida de debutante de quinze anos em plena oito horas da manhã que fica de cara grudada a minha e não para de me olhar e de me avaliar. Puta que o pariu! A vontade de xingar é grande mas, minha finesse passa por cima e mantenho-me estátua de sal. Nem piscar pisquei. Cerrei a boca caso contrário, mandaria aquela lá catar coquinho no mar Vermelho.

Finalmente chego ao consultório. E, para compensar toda a chateação daquela maldita maquininha lixando nossos dentes (odeio), minha ortodontista é um amor e me entretém com sua viagem à Irlanda. Graças a Deus fiquei compenetrada em suas narrativas de viagem e quase nem percebi sua tortura. Saio correndo do consultório. No elevador, olho o celular e vejo que se passou uma hora. Senhor! Vou chegar muito tarde no trabalho. Paciência.

Na rua, além do frio desgraçado – percebo que não saí vestida de forma adequada – uma garoa maldita que me ataca por todos os lados. Não adianta sombrinha.

Chego molhada, descabelada, rosto cheio de massa branca (é eu sei, a dentista falou para eu limpar no banheiro. esqueci) e seca por cafeína. Meu reino por uma xícara de café extra forte!

Num minuto raro de paz interior saboreio esse néctar dos deuses quando meu celular toca e é minha irmã toda desesperada ( provavelmente descabelada também) para avisar que mamys estava no hospital e que o hospital se negava a atendê-la por falta de pagamento da mensalidade de janeiro. Fale com o financeiro!

O café entala na garganta, esfria e depois esquenta tal minha temperatura de braveza. Engasgo de indignação pois tenho tudo pago. Misericórdia! Esse povo só sabe falar em dinheiro! Tô garrando ódio pelo sistema capitalista. Sim senhor! Ódio!

Explico para a simpática moça que me atende que tenho tudo pago e juramentado. Nada devo…Quer dizer, até devo mas, fala sério quem não deve nesse país nénão?

Ela delicadamente diz que compreende minha situação, mas, que o sistema acusa não pagamento. Mas tenho tudo pago moça… O sistema acusa dona…Tenho tudo pago pôxa! Compreendo senhora, sinto muito sua mãe não poderá ser atendida. O sistema não libera…Tá tudo pago merda! Será que não entende? Preciso desenhar? Dona, tenha calma, tudo está sendo gravad…Quero mais é que grave ess aporra toda! Merda de capitalismo, só interessa o dinheiro, a porra da saúde do povo que se dane. Morram imbecis!!! Ouço um engasgo, um soluço do outro lado. Que foi? silêncio. Vai desligar na minha cara vai? Você tem mãe? Ficaria calma diante de uma cilada dessas? Há mais de vinte anos pago essa porra de convênio e quando preciso tiram o corpo fora?silêncio

Dona/Dona o caralho! Tenho nome./Certo, desculpa qual seu nome?Não interessa só quero que minha mãe seja atendida. Entendeu! Entendi. Calma senhora. Faz o seguinte: vá ao seu banco e peça um extrato do mês todo e verifique se eles não estornaram o valor para sua conta novamente. Cêbebeu foi? Desde quando o banco devolve dinheiro na conta de pobre? Acorda ALICE! Senhora, vou desligar. Vá ao banco e verifique. Caso contrário, o convênio de sua mãe será cancelado. Obrigada e tenha um bom dia!.

Filadaputa nem deu tempo de responder e já bateu o telefone. Transbordo-me em fel de tanta raiva. Lembro que ao acordar rezei. Oh meu Deuzinho, eu rezei. Não foi suficiente não? Precisava de mais ardor nas orações é? Fala sério: muita viadagem heim! Cê num era assim lá nos primórdios! Ah tátátá, entendi. Sorry. Vou conversar com meu gerente, fazer uma social, fingir que sou rica, perder minha hora de almoço num banco. Tudo o que mais gosto de fazer. Nossa quanta felicidade!

Tudo visto, nada resolvido retorno para a empresa e vou esquentar minha marmita. Nem tenho vontade de comer mas, assim que abro, o aroma que vem de dentro me faz esquecer um pouco tudo o que aconteceu até agora. Almoço, converso, chego até a rir um pouco da desgraça alheia afinal, ser humano é isso mesmo.

Cá estou eu entre risos e reflexões sobre esse dia tão conturbado que ainda não acabou. Ah! Minha mãezinha foi atendida por uma médica que solicitou uma série de exames. Fico mais tranquila mas..

O que mais virá pela frente heim?

Imagem: Google

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10 comentários sobre “Reza mal feita

  1. Roseli, mais um daqueles textos seus que a gente nunca mais esquece! Eita! Espero que a noite tenha sido esplendorosa… magnífica, enfim, dos males, o menor. Força na peruca que a vida ainda é longa! Beijos!

    • Clara, sempre um prazer receber você por aqui. O bom de escrever é justamente pegar essas coisitas amargas da vida e transformá-las em comédia da vida privada. Nossa ótica muda completamente e vamos combinar: rir ainda é o melhor remédio! Beijos

    • Aurea, sou a típica canceriana: mal humorada mas também sarrista com tudo. Perco o amigo mas não perco a piada. Se não tivermos humor a vida fica difícil demais nénão? Beijo comadre! Bom demais de ver por aqui

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