Valentine’s day

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O choque ao te rever não foi bem o que esperava sentir. É certo que passado tantos anos, ambos envelhecemos. Mas não foi a falta de cabelos ou a barriga proeminente, muito menos as rugas profundas em seu rosto que me incomodaram.

Ao contrário do que esperava encontrar, você manteve-se muito bem. Soube envelhecer. Corpo esguio, ainda lapidado pela musculação. Pele azeitonada pelo sol, cabelos com reflexos esbranquecidos te presentearam com certo charme que seduz qualquer mulher. Seus profundos olhos verdes mantiveram o brilho e a vivacidade que outrora me encantou.

Te observar a certa distância sentado com elegância fumando seu inseparável cigarro – ao mesmo tempo que me trouxe boas lembranças, novamente veio carregada de sensações que não soube muito bem traduzir. Titubiei.

A insegurança de enxergar através de seu límpido olhar minha carcaça envelhecida e desprovida daquela jovial menina de seus dezesseis anos, me fez dar dois passos atrás.

Sei que casou, teve filhos que hoje devem ser adultos feito nós. Também soube por conhecidos, que divorciou e novamente encontrou alguém. Ao contrário de você, não soube prosseguir. Passei décadas pulando de relação em relação. Fui incapaz de me entregar a outro após te perder. Hoje sei que fui fraca e teimosa em não romper de vez nosso cordão umbilical. Busquei insanamente seu corpo em outros corpos, seu sorriso em outras bocas, seu olhar em outros olhos. Luta vã. Perdi duplamente por não saber abrir mão de um amor juvenil e por deixar escoar tantos outros homens que poderiam e quiseram me fazer feliz. Fiquei presa a uma ilusão. A um amor inventado por minha mente ultra romântica. Fui incapaz de me desvencilhar da roupagem adolescente. E levei essa rebelde pro resto de minha vida emocional. Mesmo agora, portadora de uma carcaça envelhecida e craquelada pela osteoporose, carrego ainda essa menina que um dia te amou e se entregou ao jovem risonho e sensual que você me apresentou.

Te observo mais alguns minutos por trás de uma banca de flores. Talvez a mesma banca que você adquiriu o buquê de rosas que repousa na mesa. Você não se esqueceu das minhas preferidas: rosas silvestres! Estão lindas! Obrigada amor mas não poderei aceitar. Desculpe mais uma vez me acovardar diante de uma possível felicidade. Não sei lidar com isso. A solidão me é familiar e quente feito útero de mãe. Te observo mais uma vez e num roupante, saco meu smartphone e registro sua elegante pose no café.

Segurando uma lágrima que queima meus olhos, dou as costas à você e sigo meu caminho rumo ao metrô. Escondo-me na multidão. No vagão, vários casais se enamoram e muitos rapazes carregam seu arranjo de flor que em breve farão alguma namorada ou esposa se encher de alegria e transbordar de amor. Sentada olhando pela janela, reafirmo que esse dia não me pertence.

Imagem: Unsplash

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8 comentários sobre “Valentine’s day

  1. Como somos estranhos a nós mesmos, rá
    O mais divertido é quando fingimos não saber porque damos volta ao redor do nosso próprio eixo. Acho que eu já passei por essa rua hoje, mas o que eu vim fazer aqui? rs

    bacio

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