Memória: universo intocável

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A manhã inicia envolta numa densa neblina. Ao abrir a porta que dá para o quintal, recebe uma lufada de vento gelado. Sorri! O galo da vizinha da rua debaixo canta animado. Alguns bem-te-vis e beija-flores voam ao redor do jardim e da horta que seu pai cuida tão bem. Há uma fina camada de gelo na plantação.

Com seus pezinhos envoltos numa alpargata gasta e uma meia listrada e rota, dá alguns passos no frio piso de cimento queimado. Quase escorrega, porém, consegue se equilibrar. Respira fundo e solta o ar pela boca. Diverte-se com a fumaça de ar quente que sai. Isso é inverno para ela! Corre para o balanço que seu pai instalou no fundo do quintal. Passa as pequenas mãozinhas na tábua molhada, esfrega-as na calça de flanela xadrez e senta balançando feliz. O dia promete!

Sua mãe grita da cozinha chamando todos para tomar o café da manhã. O aroma do café coado tira a pequena de seus devaneios infantis. Pula do balanço e entra pela cozinha para ocupar seu lugar a mesa. Todos reunidos, dá gosto ver seu pai – homem robusto, saudável, fartos bigodes negros – de olhos brilhantes feito os das crianças. Assobia de alegria ao ver as broas de milho quentinhas, o café aromático, o leite espumoso na jarra, a manteiga, o pão francês quentinho que sua mãe trouxe da padaria da esquina.

Sua mãe…

Figura ímpar. Mulher batalhadora que madruga para oferecer o pouco de conforto material aos seus. Mesmo com a renda escassa, prima por manter a família bem alimentada. É sua maneira de expressar seu amor.

Apesar de magricela, a menina é boa de garfo. Trata de comer sua broa, sua fatia de pão com manteiga, sua xícara de café com leite e a seguir, um pouco de achocolatado. Coisa rara que só acontece nessa época quando esfria. A criança estremece de contentamento ao sentir a quentura e o doce do chocolate. O dia promete!

O resto da manhã foi de muita tarefa na cozinha. Sua avó materna e mais duas tias chegam para reforçar as atividades. Forno aquecido, mais broas assando, um bolo com cobertura de pasta americana sendo confeccionado pelas mãos hábeis de sua tia, quituteira de fama no bairro. Do outro lado da cozinha, sua outra tia manipula a massa da bala de coco. A guria ama ficar sentada quieta olhando a destreza dela a esticar – com velocidade  – a tira de massa para não açucarar.

Sempre pensa: Minha família só tem artista!

A transformação da tira termina com as balas já cortadas descansando no frio mármore da pia, prontas para degustar.

Pura magia! A tia sempre oferece uma bala fresquinha à ela que, salivando, chupa bem devagarinho para que a bala não acabe nunca. Do lado de fora, no quintal, seu pai cozinha os pinhões. Outra iguaria que somente nesse mês do ano surge. Ela gosta de ver o pai mexendo no caldeirão com uma colher de pau e depois – com eles já cozidos e escorridos – descascar deixando-os peladinhos prontos para o banquete de logo mais. Sua avó, como sempre, se encarrega do feitio da paçoca. Posiciona o pilão centenário no meio do quintal e, munida de açúcar, amendoim torrado, farinha de mandioca e sal, deita o bastão para transformá-los em paçoca. Enquanto soca os ingredientes, dona Maria entoa uma cantoria que alegra o ambiente fazendo todos relembrar: Hoje é dia de festa!

De olhinhos vidrados na figura da avó com seu vestido florido azul marinho, avental e lenço prendendo os cabelos, chinelos nos pés – mesmo no inverno – balançando sua barriga cantando e rindo ao mesmo tempo. A garota sorri ao se aproximar da avó e pede o enorme bastão para socar um pouco. Arrisca cantar e ambas caem na risada com o desafino e a voz diminuta da menina. Quando terminam, comem a paçoca às colheradas. Coisa boa vó! – diz a garota com a boca cheia de doce.

Às dezesseis horas, a mãe surge à porta da cozinha chamando as crianças para o banho.

Está frio pra tomar banho mãe! – responde o irmão que não se dá muito bem com a água.

Não quero saber se está frio ou quente. Já pro banho moleque! Até as cinco quero todos de banho tomado e vestidos.

Quando a mãe fala nesse tom de voz não tem discussão. Gostando ou não, todos obedecem. Enquanto a gurizada está no banho, alguns homens da família – tios e primos – chegam trazendo lenha para montar a fogueira. Seu Pedro, o avó materno, passeia pelo quintal verificando tudo de mãos para trás pensativo. É seu jeito mineiro de ser. Confere tudo, afinal, também tem interesse que tudo saia perfeito.

Dezoito horas. Frio intenso, contudo, a temperatura entre todos os presentes encontra-se bem alto. No portão principal, seu Pedro recebe familiares que chegam abraçando-o. Ele é um dos aniversariantes do mês. A enorme mesa montada no quintal – na parte coberta – tem uma toalha estampada e uma vasta seleção de gostosuras juninas: bolo de fubá, de milho, broinhas, pé de moleque, paçoca, balas de coco, pinhão. Tudo distribuído ao redor do enorme bolo de aniversário coberto de massa americana colorido. Do outro lado, uma mesa menor com jarras de quentão, K-suco de uva e morango, garrafas térmicas com achocolatado e café. Na fogueira já ardendo em todo seu potencial, espetos com batata doce assando. Na vitrola, um disco entoa canções…

Capelinha de melão
é de São João.
É de cravo, é de rosa, é de manjericão.
São João está dormindo,
não me ouve não.
Acordai, acordai, acordai, João.
Atirei rosas pelo caminho.
A ventania veio e levou.
Tu me fizeste com seus espinhos uma coroa de flor.
Em pouco tempo a casa está lotada de familiares e amigos celebrando. O mês de junho é repleto de aniversariantes. A começar pelos avós, seu Pedro, seu Benedito, terminando pela neta, a menina magricela que hoje, resplandece de alegria por ver tantas guloseimas. Em frente ao bolo, seis pessoas felizes fazem seus pedidos antes de assoprarem as velinhas. O pedido da menina – talvez pela pureza infantil ainda não corrompida pelas mazelas de adulto – só deseja que o resto da vida seja uma grande e ininterrupta festa de aniversário.
Papai do céu, deixa eu ser eternamente criança!
Enquanto faz o pedido, uma estrela cadente atravessa a noite escura sacramentando sua solicitação.
Gente, lembrando dessas passagens de minha infância percebo que Papai do Céu atendeu meu pedido naquela noite fria: não perdi de vista minha menina magricela, sardenta e sonhadora. Não cresci muito no tamanho, continuo sonhadora e transformei meus sonhos em narrativas. E continuo amando festas juninas! Os balões, hoje solto na minha imaginação, afinal, consciência é necessário. E por aqui, eles continuam coloridos e belos a subir pelo céu de junho.

Cabra duro na queda!

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Definitivamente eles não me entendem! E definitivamente, não faço parte dessa turma. Por mais que me esforce, não consigo ser como eles. Tudo parece tão fácil. No entanto, para mim, soa como algo inatingível. Falo pouco, sou de poucos movimentos e mesmo esses poucos, desenvolvo bem devagar. Que posso fazer? É meu ritmo. Já disse, sou diferente. Caí do disco voador num passeio despretensioso pela via Láctea. Bem feito! Quem mandou viajar por aí. Deveria ter ficado no meu canto, em minha poeira espacial bem escondido.

Agora, peno diariamente sendo obrigado a conviver com essa raça humana, primitiva, rancorosa, grosseira e feia. Nesse exato momento, encontro-me num P.S. horroroso, que aqui, chamam de UPA. Horroroso até no nome. Onde já se viu um nome desse para designar centro de atendimento? Só perde para a falta de profissionalismo da equipe. Se tivesse lágrimas, acreditem, choraria diante do que vejo e ouço. Toda essa situação me faz lembrar dos anos lindos e felizes que passei lá nos Emirados do Satélite 9, dois sóis após a Nebulosa 3. Lá, é local de seres evoluídos, limpos, éticos e generosos. Bem diferente do que se vê aqui nesse planetinha de merda! Estão vendo só? Até meu linguajar refinado perdi convivendo com essa gentalha. Ah que saudades ( isso aprendi aqui também) de minha juventude brincando nas nuvens lilás que percorre o Planeta Ruffus 72A. Cercada por seres de luz, inteligência elevada, padrão indescritível que não cabe no vocabulário paupérrimo dos terrestres. Pouco a pouco estou perdendo a lucidez de minha mente brilhante. Estou me nivelando à eles. Triste destino o meu.

Ando sentindo o que aqui  denominam depressão, melancolia, tristeza. Sinto falta dos sons equilibrados do espaço. Aqui, tudo muito barulhento. Meus sensíveis ouvidos já se encontram afetados por tamanha poluição sonora. São incapazes de apreciar o verdadeiro som da alma: o silêncio. Não sabem que é através dele que alcançamos outros níveis da alma e apaziguamos a mente tornando-a mais produtiva. Por conta disso, todos se encontram sempre cansados, sem energia para nada. Burros! Sim, todos por aqui são burros! Onde já se viu, estão acabando com a beleza natural desse planeta de terceira. O que de melhor tinham aqui, estão conseguindo liquidar. E enchem a boca de um imbecil orgulho autodenominando-se Raça Inteligente! Oh God! Quanta baboseira!

Pior de tudo é que, se pudesse, colocaria um ponto final na minha infeliz existência. Não posso. E acreditem, não é por covardia. Tenho coragem suficiente para fazer isso e muito mais. No entanto, fui confeccionado num material que não se destrói. Não finda. Viverei eternamente. O que para os humanos é algo sonhado em alcançar, para mim – confinado a esse bloco de terra e água superpopuloso de criaturas tacanhas e hostis – transformou-se no pior castigo.

Acompanho a saga desse povo há um bom tempo para saber que jamais se modificarão. Evolução aqui passa batido e reto. Logo, encontro-me totalmente desesperançado.

Tentei de tudo para definhar e colocar um ponto final em meu sofrimento. Nada adiantou. Alistei-me em grupos extremistas, fui homem bomba, estive em todas as guerras no século XX e nada. Nem um arranhão sequer. Experimentei drogas pesadas que arrasariam qualquer um. Comigo, o máximo que ganhei foi uma suave diarréia. LSD, cocaína, crack, drogas da felicidade, nada faz efeito em mim. Durante as campanhas espaciais, fiz de tudo para conseguir uma vaga num desses satélites e foguetes espaciais. Como dizem por aqui: a esperança é a última que morre e, movido por essa esperança, tinha intenção de conseguir uma vaga e me lançar no espaço. Rever um pouco da paisagem em que fui criado. Devo ter vindo com defeito de fabricação: azar em todos o meu material genético. Só pode. Tanto espaço me aguardando para explorar e rever, onde fui cair? Onde? Onde?

No deserto de Tarakum. Mais conhecido como A Porta do Inferno. Tinha que ser eu o agraciado dessa brincadeira de mal gosto do destino! Caí em pleno buraco de fogo que os cientistas russos tão graciosamente criaram sem querer querendo e que persiste pegando fogo até hoje. Saí da cratera literalmente pegando fogo. No corpo e na alma de tanta raiva pelo meu intento mal sucedido. E ainda por cima, com uma platéia a se espantar e me achar o máximo! Até hoje devem achar que fui um ator contratado para entreter os turistas imbecis que por lá aparecem.

Não pensem vocês que não tentei outras vezes sair daqui. Tentei. Juro. Muitas. Inúmeras vezes. Pelo teor de minha voz já sacaram que nenhuma deu certo – caso contrário -não estaria perdendo meu tempo aqui, desabafando com vocês.

Chego a seguinte conclusão: Meu confinamento foi decretado pelo Senhor do Universo. Talvez tenha sido apagado de meu chip o passado e atitudes contrárias às Leis Universais. Tenho pedido perdão diariamente na esperança (ela novamente) de que um dia, encontre uma boa alma que me tire dessa sentença tão amarga que é viver no planeta Terra

– Senhor Z, o senhor é um sortudo. Apesar do quadro, o senhor se safou do chikungunya. Entre tantas pessoas vítimas dessa febre que mata, o senhor saiu ileso. Caso de estudo hein? Homem sortudo! Vá para casa!

Go home

Imagem: Hypescience

 

Reza mal feita

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Tem dias em que a melhor coisa a se fazer é…Não levantar da cama por nada!

Juro por todos os Santos que orei antes de me levantar hoje. Agradeci mais um dia de vida, pedi bençãos e proteção para mim e toda família, pelos amigos e colegas, pela humanidade que possa regressar para sua condição de apenas ser humanos.

Levantei desejando ficar mais um bocado debaixo das cobertas afinal, que frioo!!

Tinha intenção de ir direto para o banheiro tomar uma ducha para despertar de vez. Mudei de ideia bem na esquina do banheiro com a cozinha. Decidi adiantar ligando o forno para assar alguns pãezinhos de queijo para o café da manhã. Não contente, achei melhor colocar um pouco de água para esquentar e fazer um café bem quentinho afinal, o café passado na cafeteira não esquenta como gosto.

Sonolenta, acendi o fogo, coloquei a caneca com a água e encosto na pia esperando não sei o quê. Talvez despertar de vez. De repente, um cheiro de queimado toma conta de minhas narinas.

Senhor!! Meu pijama encontrava-se em chamas na manga. Brigadista juramentada por três anos consecutivos, respirei fundo e com calma, coloquei meu braço inteiro debaixo da água que jorrou fortemente da torneira escancarada. Por segundos passou por minha mente um filme sobre minha vida e o trágico final dela se transformando em cinzas. Lembrei das inúmeras vítimas do incêndio em Portugal e assoprando o suave ardor em minha pele, imaginei a dor e desespero de quem morre torrado. Senti pelo pijama mas agradeci em pensamento e em fala alta pelo apartamento aos anjos protetores que mesmo me observando ainda sonolenta, livraram-me de um destino pra lá de quente. Assei os pãezinhos, ficaram no ponto. Passei o café, fiz um pouco de leite sem lactose e deixando de lado a ideia de um banho, optei por me alimentar antes. Com calma, tranquilidade e consciência de fazer o que fazia esquecendo um pouco o mundo da fantasia. Vivo por lá. Às vezes, a vida te grita para que retorne e finque os pés na realidade. Lembrei enquanto tomava um gole do café de que hoje teria logo cedo uma consulta com minha ortodontista. Humm! Não se esqueça de escovar muito bem os dentes! – pensei esboçando um sorriso cafeinado.

Num piscar de olhos embaçados, já havia se passado uma hora e eu precisava me apressar. Dei uma volta debaixo do chuveiro, saí tiritando de frio, me enrolei na toalha e ao sair quase caio escorregando numa poça de sabão que não havia diluído. Troquei-me em segundos quando me lembrei que não havia passado desodorante.

Sacoo!! – disparei correndo ao banheiro abrindo a camisa e passando o desodorante seco. Voltei ao quarto, caçando minhas botas. Peguei bolsa, celular, olhei ao redor e, Ah! Já ia me esquecendo: minha marmita na geladeira.

Pronto. Almoço garantido Quase na porta, sinto uma dor de barriga das boas. Fiquei na indecisão: volto? não volto? uso o banheiro do consultório, e se não der tempo? uso o banheiro do metrô…Eca! Voltei para meu banheiro branquinho, puro, limpinho e cheiroso. Para distrair, pego a última edição da revista Casa & Jardim. Adoro me distrair vendo casas bonitas enquanto o intestino trabalha. Não consigo me ocupar das belezas da arquitetura urbana da matéria principal. Minha matéria estava rebelde e se debatendo dentro de minhas entranhas. Senhor o que é isso? Um Alien dentro de mim? Vontade de gritar, contudo, tive de bancar a fina e gemer em silêncio para não acordar a vizinhança que ainda dormia. Entre a vontade de gritar e chorar de dor, veio-me a lembrança da famosa cena dos filmes As branquelas – quando uma delas que sofre de intolerância a lactose, experimenta um salgadinho numa festa e vai parar no banheiro. Jesuis essa cena é hilária! Quem já assistiu sabe do que falo. Iniciei um ritual louco para expurgar aquilo que me causava dores e barulho. O que era aquilo crescendo dentro de moi? Dobrei-me, botei a cara quase rente ao chão, cheguei a ficar tête-à-tête com uma formiguinha minúscula que circulava  desgarrada de seu bando. Até ela parecia desesperada para sair dali. Pressentia perigo assim como eu.

Passou… Chegou a calmaria e com ela, a consciência de que precisava sair de casa urgente. A consulta!

Saio correndo do apartamento, do elevador, do prédio. Chego driblando moradores de rua, adentro a estação de metrô. Driblo mais uma vez o mar de gente a minha frente se arrastando feito lesmas de olhos pregados em seus smartphones. Odeio-os!! Saiam de minha frente cambada! Numa tomada de cena típica de quem tem pressa, quando não havia mais espaço para alguém no vagão, entro com tudo e faço dar espaço para mim e mais meia dúzia que entra junto. Agora, respirar fundo, olhar para o infinito e seguir viagem. Uma estação apenas.

Uma estação apenas no qual tenho de aguentar uma senhora vestida de debutante de quinze anos em plena oito horas da manhã que fica de cara grudada a minha e não para de me olhar e de me avaliar. Puta que o pariu! A vontade de xingar é grande mas, minha finesse passa por cima e mantenho-me estátua de sal. Nem piscar pisquei. Cerrei a boca caso contrário, mandaria aquela lá catar coquinho no mar Vermelho.

Finalmente chego ao consultório. E, para compensar toda a chateação daquela maldita maquininha lixando nossos dentes (odeio), minha ortodontista é um amor e me entretém com sua viagem à Irlanda. Graças a Deus fiquei compenetrada em suas narrativas de viagem e quase nem percebi sua tortura. Saio correndo do consultório. No elevador, olho o celular e vejo que se passou uma hora. Senhor! Vou chegar muito tarde no trabalho. Paciência.

Na rua, além do frio desgraçado – percebo que não saí vestida de forma adequada – uma garoa maldita que me ataca por todos os lados. Não adianta sombrinha.

Chego molhada, descabelada, rosto cheio de massa branca (é eu sei, a dentista falou para eu limpar no banheiro. esqueci) e seca por cafeína. Meu reino por uma xícara de café extra forte!

Num minuto raro de paz interior saboreio esse néctar dos deuses quando meu celular toca e é minha irmã toda desesperada ( provavelmente descabelada também) para avisar que mamys estava no hospital e que o hospital se negava a atendê-la por falta de pagamento da mensalidade de janeiro. Fale com o financeiro!

O café entala na garganta, esfria e depois esquenta tal minha temperatura de braveza. Engasgo de indignação pois tenho tudo pago. Misericórdia! Esse povo só sabe falar em dinheiro! Tô garrando ódio pelo sistema capitalista. Sim senhor! Ódio!

Explico para a simpática moça que me atende que tenho tudo pago e juramentado. Nada devo…Quer dizer, até devo mas, fala sério quem não deve nesse país nénão?

Ela delicadamente diz que compreende minha situação, mas, que o sistema acusa não pagamento. Mas tenho tudo pago moça… O sistema acusa dona…Tenho tudo pago pôxa! Compreendo senhora, sinto muito sua mãe não poderá ser atendida. O sistema não libera…Tá tudo pago merda! Será que não entende? Preciso desenhar? Dona, tenha calma, tudo está sendo gravad…Quero mais é que grave ess aporra toda! Merda de capitalismo, só interessa o dinheiro, a porra da saúde do povo que se dane. Morram imbecis!!! Ouço um engasgo, um soluço do outro lado. Que foi? silêncio. Vai desligar na minha cara vai? Você tem mãe? Ficaria calma diante de uma cilada dessas? Há mais de vinte anos pago essa porra de convênio e quando preciso tiram o corpo fora?silêncio

Dona/Dona o caralho! Tenho nome./Certo, desculpa qual seu nome?Não interessa só quero que minha mãe seja atendida. Entendeu! Entendi. Calma senhora. Faz o seguinte: vá ao seu banco e peça um extrato do mês todo e verifique se eles não estornaram o valor para sua conta novamente. Cêbebeu foi? Desde quando o banco devolve dinheiro na conta de pobre? Acorda ALICE! Senhora, vou desligar. Vá ao banco e verifique. Caso contrário, o convênio de sua mãe será cancelado. Obrigada e tenha um bom dia!.

Filadaputa nem deu tempo de responder e já bateu o telefone. Transbordo-me em fel de tanta raiva. Lembro que ao acordar rezei. Oh meu Deuzinho, eu rezei. Não foi suficiente não? Precisava de mais ardor nas orações é? Fala sério: muita viadagem heim! Cê num era assim lá nos primórdios! Ah tátátá, entendi. Sorry. Vou conversar com meu gerente, fazer uma social, fingir que sou rica, perder minha hora de almoço num banco. Tudo o que mais gosto de fazer. Nossa quanta felicidade!

Tudo visto, nada resolvido retorno para a empresa e vou esquentar minha marmita. Nem tenho vontade de comer mas, assim que abro, o aroma que vem de dentro me faz esquecer um pouco tudo o que aconteceu até agora. Almoço, converso, chego até a rir um pouco da desgraça alheia afinal, ser humano é isso mesmo.

Cá estou eu entre risos e reflexões sobre esse dia tão conturbado que ainda não acabou. Ah! Minha mãezinha foi atendida por uma médica que solicitou uma série de exames. Fico mais tranquila mas..

O que mais virá pela frente heim?

Imagem: Google

Lero com Toninho

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Esse texto escrevi em maio de 2015 com o título Devaneios juninos. Deixo minha homenagem a esse Santo que – mesmo não sendo católica – nutro uma simpatia. Como estou atarefada essa semana, republico pois sei que muitas pessoas ainda não leram. Aos que já leram, tenham um pouquinho de paciência que em breve escrevo algo inédito.

 

“Eu pedi a São João, ao querido São João que me desse um matrimônio…”

Todo aniversário ouvia essa música. Fazia parte da trilha sonora das festas que faziam em meu aniversário.

Pequena, até gostava de cantar mas não entendia seu enredo. Simplesmente reproduzia a cantoria.

Adolescente, cantava com todo fervor mentalizando o Santo e pedindo de coração essa graça.

Jovem adulta, ansiava por esse tão cantado matrimônio enxergando o pretendente em todo homem que cruzava meu caminho.

Madura…

Parei de ir às festas juninas, tapo os ouvidos diante dessa canção e das demais. Nunca mais fui a quermesse, nem pisei o solo de uma igreja…

Falando em igreja, lembrei que entrei na igreja de Santo Antonio, em Portugal em 2006. Sim, a casa real do Santo casamenteiro e bati uma “papo com ele”. Falei:

– Seguinte meu Santo, vou te bater a real: tô encalhada sim, a situação tá difícil mas para quem faz milagre, é fichinha. Concorda? Então, ôh meu santinho, vim de tão longe! Conceda-me a graça de conhecer um bom homem e com ele me casar. Só pra desempatar esse jogo que continua no zero a zero. Entende? Pôxa! Sou boa de cozinha, ótima na cama (alguns assim disseram), excelente administradora, bonita, inteligente, carinhosa. Que mais me falta meu Santo? Fale agora ou se cale para todo o sempre!

Esperei um tempo e nada do mardito me responder. Sua imagem ficou lá, olhando para o horizonte, ignorando-me na cara dura. Ora pois!

Fiz minhas preces ajoelhada, acendi velas, fiz o pai nosso, contribui com a igreja (em euros) e voltei feliz da vida para o Brasil com a certeza que o Santo faria a parte dele no acordo estabelecido.

O tempo foi passando e a situação necas de mudar. Ah tá! Vai, Confesso que até conheci alguns homens interessantes. Tudo bem que todos de início são príncipes que como passar do tempo vão transformando-se pouco a pouco em sapos. Alguns sapos até que me cativaram mas, como são escorregadios, escaparam por entre meus dedos.

A raiva foi tomando conta de meu ser até que decidi mudar de endereço. Saí do condomínio pantanoso e regressei para o solo urbano.

Fechei o estabelecimento antes mesmo de sua inauguração oficial. Piso duro nesse solo embrutecido revestido de concreto, piche e pedras. Olho firme o horizonte, feito o Santo que se dizia casamenteiro.

Outro dia em sonho, tive um dedo de prosa com o tal e ele, desconsolado pedia desculpas. Confessou não saber quem foi o sacana que espalhou ser ele, o santo casamenteiro. “Nunca fui nada disso dona. Isso foi intriga da oposição. Aposto que foi Pedro que – ganancioso – deve ter espalhado isso aos quatro cantos para ganhar pontos com o Senhor e obter a responsabilidade e as chaves do Paraíso. Uma vez confidenciou que não tinha muita paciência com a mulherada.

Maldito pescador! Essa ele me deve! Um dia ele me paga. Nem que eu espere a eternidade se findar, acerto as contas com esse senhor das lorotas!”

Despertei com esse pedaço de sonho claro como a luz da manhã. Fiquei penalizada com Toninho. Coitado!

Tendo de aguentar o mulherio todo desesperado atrás de um casamento sem nem saber fazer o tal milagre.

Sua orelha deve arder feito labaredas do inferno de Dante. E não ter ninguém para ajudá-lo a desfazer tal engano.

Sensibilizada, comprei uma imagem dele e montei um altar onde rezo todas as noites. Não para pedir casamento.

Não! Isso não desejo mais. Rezo pela sua paz de espírito. Rogo a Deus e ao menino Jesus clemência para esse pobre e injustiçado Santo.

Um vento não sei de onde refresca o ambiente e faz a imagem cair. Pulo no afã de salvar o santo de se transformar em cacos.

Repousando em meu colo, tenho a nítida impressão que ele sorri para mim.

Reponho-o no altar, faço mais uma oração agradecendo por ter sido rápida evitando sua quebra e levanto-me para sair um pouco. Preciso respirar ares novos. De repente, deu-me uma vontade absurda de pegar um cinema. Faz tempo que não assisto a nenhum filme. Nem sei o que anda passando no circuito da cidade.

Tomo um banho e arrumo-me como há muito não fazia. Ao olhar no espelho, certifico que minha figura está bem interessante.

“Gata, se eu fosse um homem, hoje, com certeza me aproximaria de você. Está irresistível!” – caio na risada ao perceber que falei essa baboseira em voz alta.

Ao quase fechar a porta, já de luz apagada, vejo que esqueci a vela do altar acesa. Sua luz refletindo o rosto de Santo António me dá a nítida impressão de que o santo pisca o olho pra mim. Assopro a vela, olho mais uma vez incrédula para a imagem e saio de casa.

A idade avançada já deve estar fazendo estragos em meus neurônios. Penso enquanto me dirijo ao cinema. Sorrio diante desse pensamento.

Já de ingresso comprado, pipoca e refrigerante nas mãos, sigo para a sala de projeção. Ao entrar no corredor, com a sala já as escuras, tropeço e caio sentada no colo de um senhor.

Que vergonha!

Toda sem graça, peço desculpas.pela minha atrapalhação, levanto com o resto de dignidade que sobrou e vou ao encontro de minha poltrona. Sento-me, respiro fundo já pensando que fora uma péssima ideia ir ao cinema e olho de relance para o senhor que serviu de poltrona para mim.

Nossos olhos se encontram. Tenho certeza que fiquei da cor de cereja madura.

Que vergonha! O homem vai pensar que vim a cata de uma aventura! Vamos prestar atenção no filme. Ah! Está passando propaganda.

Importa-se de sentar ao seu lado? Vejo que está sozinha e como também estou só… Posso?

Hum!Hum!

Valentine’s day

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O choque ao te rever não foi bem o que esperava sentir. É certo que passado tantos anos, ambos envelhecemos. Mas não foi a falta de cabelos ou a barriga proeminente, muito menos as rugas profundas em seu rosto que me incomodaram.

Ao contrário do que esperava encontrar, você manteve-se muito bem. Soube envelhecer. Corpo esguio, ainda lapidado pela musculação. Pele azeitonada pelo sol, cabelos com reflexos esbranquecidos te presentearam com certo charme que seduz qualquer mulher. Seus profundos olhos verdes mantiveram o brilho e a vivacidade que outrora me encantou.

Te observar a certa distância sentado com elegância fumando seu inseparável cigarro – ao mesmo tempo que me trouxe boas lembranças, novamente veio carregada de sensações que não soube muito bem traduzir. Titubiei.

A insegurança de enxergar através de seu límpido olhar minha carcaça envelhecida e desprovida daquela jovial menina de seus dezesseis anos, me fez dar dois passos atrás.

Sei que casou, teve filhos que hoje devem ser adultos feito nós. Também soube por conhecidos, que divorciou e novamente encontrou alguém. Ao contrário de você, não soube prosseguir. Passei décadas pulando de relação em relação. Fui incapaz de me entregar a outro após te perder. Hoje sei que fui fraca e teimosa em não romper de vez nosso cordão umbilical. Busquei insanamente seu corpo em outros corpos, seu sorriso em outras bocas, seu olhar em outros olhos. Luta vã. Perdi duplamente por não saber abrir mão de um amor juvenil e por deixar escoar tantos outros homens que poderiam e quiseram me fazer feliz. Fiquei presa a uma ilusão. A um amor inventado por minha mente ultra romântica. Fui incapaz de me desvencilhar da roupagem adolescente. E levei essa rebelde pro resto de minha vida emocional. Mesmo agora, portadora de uma carcaça envelhecida e craquelada pela osteoporose, carrego ainda essa menina que um dia te amou e se entregou ao jovem risonho e sensual que você me apresentou.

Te observo mais alguns minutos por trás de uma banca de flores. Talvez a mesma banca que você adquiriu o buquê de rosas que repousa na mesa. Você não se esqueceu das minhas preferidas: rosas silvestres! Estão lindas! Obrigada amor mas não poderei aceitar. Desculpe mais uma vez me acovardar diante de uma possível felicidade. Não sei lidar com isso. A solidão me é familiar e quente feito útero de mãe. Te observo mais uma vez e num roupante, saco meu smartphone e registro sua elegante pose no café.

Segurando uma lágrima que queima meus olhos, dou as costas à você e sigo meu caminho rumo ao metrô. Escondo-me na multidão. No vagão, vários casais se enamoram e muitos rapazes carregam seu arranjo de flor que em breve farão alguma namorada ou esposa se encher de alegria e transbordar de amor. Sentada olhando pela janela, reafirmo que esse dia não me pertence.

Imagem: Unsplash

Diário de bordo: sem maiores acontecimentos

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Hoje foi um sábado abençoado. Do jeitinho que gosto. Céu azul de brigadeiro, sol ameno, muito iluminado. Dia de sair às ruas para compras, encontrar amigos, degustar guloseimas. E esse mês em especial é de muitas e deliciosas guloseimas. Junho, mês de festas juninas que – infelizmente nas grandes cidades perderam força. Contudo, ainda que de forma reduzida, surgem aqui e ali algumas amostras do que foi um dia essas festividades.

É o mês onde celebro meu nascimento. Há quem odeie aniversários. Eu amo afinal, viver é uma eterna festa. Mesmo que haja brigas, perdas, obstáculos, viver é sempre motivo de alegrias. E eu, mesmo que melancolicamente (sou canceriana lembra?), alegro-me com as pequenas coisas que a vida me oferta. Quer coisa mais prazerosa que ao acordar, ouvir o canto de diversos pássaros em sua janela? E o que me diz de abrir a mesma janela à noite e se deparar com a belezura da majestosa Lua? Ou então, ser pega de surpresa enquanto anda pela calçada preocupada com contas a pagar, por acordes afinados de um músico de rua. Aqui na região da Paulista tem a escolher. E eu me rendo!

Próximo ao meu aniversário costumo entrar no que chamam de “Inferno astral”. Acredito que Papai do Céu esse ano resolveu olhar com mais atenção e carinho para essa sua cria. Ando num momento muito feliz apesar das dificuldades que passo. Sem problemas afinal – assim como a maioria dos brasileiros, o que não falta são problemas financeiros e esses, conheço de longa data. Aliás, já fui concebida num período de maré baixa, bem rala. Talvez por isso mesmo, tiro de letra e sinto que sou excelente economista. Ou devo dizer equilibrista? Uma vez que consigo equilibrar com maestria as finanças mensais, penso que não sou ruim não! Nesse um ano vivendo sozinha, aprendi que posso perfeitamente atravessar trinta dias corridos sem um puto no bolso. E quer saber? Ando de boa! Sinto-me privilegiada afinal, tenho um espaço que aos poucos está ficando com minha identidade, tenho profissão e emprego, guarda roupa sortido (tá legal, tudo roupa antiga mas como é de boa qualidade, estão tinindo), calçados de couro, geladeira cheia e sortida de alimentos de qualidade. Levo muito a sério cuidar de minha saúde. No momento é meu único bem. Mas também, não radicalizo. Como o que me dá vontade. Sigo a linha “Mulheres francesas não engordam”. Como sem culpa. Deve dar certo pois sempre fui magra.

Não. Não possuo automóvel porque nunca me interessei em aprender a dirigir. Sempre preferi sentar na janelinha para apreciar a paisagem e sonhar. É caro leitor, nascer canceriana dá nisso. Sempre com a cabeça no mundo da Lua! Decididamente, não daria certo dirigir. Seria irresponsabilidade. Gosto de caminhar, atravessar ruas, alamedas, avenidas. Gosto de observar rostos, posturas, comportamentos. Esse é meu material de trabalho. Andar também é um ato de meditação. Enquanto caminho penso, reflito, oro. Aproveito esses momentos para vibrar pela humanidade. A situação no planeta azul anda bem preta não é mesmo? Faço minha parte mesmo que ela pareça ser insignificante. Junto minhas doações energéticas às demais doadas por aqueles que também desprendem um pouco de si ao próximo. Essa é minha religiosidade. Não necessito de templos.

No entanto, atravessei meio século e nunca tive alguém para chamar de meu amor. Algumas pessoas ( muitas) estranham. Acham que devo ter algum transtorno por não haver casado nem tido filhos. Creio que na realização da criação, Deus determinou assim: uns têm, outros não. O universo necessita desse equilíbrio. Aceito sem maiores encanações. Vivo de boa aceitando o que ela me oferece. Sei que ela é generosa com quem a respeita e eu a respeito muito. E sou grata sempre. Ah! Antes que pense, não. Não sou a chata do pedaço que vive a pregar ensinamentos. Em minha concepção, cada um que busque seu próprio método de aprendizagem. Faço o que acredito ser o melhor para mim. Respeito o livre arbítrio do próximo. Se não concordo apenas lamento e sigo em frente.

Enfim, sentei aqui e iniciei esse texto sem nem saber o que pretendia escrever. Apenas deixei fluir pensamentos e sentimentos de um dia que para mim foi perfeito. O que? Se aconteceu algo especial? Não. Absolutamente nada de especial. Meu dia foi até bem comum no entanto, a graça está justamente nisso. Em reconhecer que é no cotidiano que se encontra a felicidade tão procurada e aclamada por todos. Eu encontrei!