Vida marvada!

Preciso disfarçar melhor. Está muito evidente minha condição. Sei que não é correto muito menos profissional mas… Ai como é difícil! Mergulho minhas mãos uma na outra esfregando de forma inquieta dando a impressão que me aqueço nessa tarde fria de outono. Só eu sei que é uma busca ineficaz de me manter aqui. Já levantei diversas vezes, fui à janela na vã esperança de que a paisagem urbana me traga de volta. Não posso sair daqui. Faço parte disso tudo. Esse silêncio de vozes onde somente o tec!tec!tec de dedinhos nervosos feito os meus se ouve, isso causa uma reação dormente em mim.

tec!tec!tec!tec – irritada levanto e sigo para o banheiro. Abaixo a tampa do acento e, num gesto lento, sento apoiando o rosto entre as mãos. Fecho os olhos por alguns segundos.

O suficiente para ser interrompida por alguém que de fato está necessitado. Dou descarga, abro a porta e saio sem nem mesmo olhar quem bate à porta. Foi horrível de minha parte, eu sei, afinal, sempre levanto a bandeira da sociabilidade corporativa.

Foda-se! Hoje não estou pra ninguém. Decido dar uma volta pelos corredores. Não desejo voltar para minha baia. Não agora. É. Já sei. O serviço acumulado me espera mas – por hora, preciso de ar. O poluído mesmo e não o condicionado. Desse meus pulmões estão saturados. Penso, enquanto subo as escadas, nas inúmeras contas vencidas repousando em meu criado mudo que grita diariamente: Precisa pagar!Precisa pagar!

Foda-se 2. O dinheiro está curto, os juros dos cartões estão pela hora da morte e até meu desencarne – por hora, encontra-se em suspenso. Não tenho seguro de vida e acho sacanagem deixar as contas do enterro para familiares e amigos. Até mesmo porque, são todos feito eu, fodidamente duros. Oh vida marvada!

Hoje, decididamente não estou num bom dia. Senti isso assim que abri os olhos em plena 4h32 com o zumbido de um infeliz pernilongo a me perturbar. Irritada, tasquei um tapa na parede e saí engolindo meu grito para não acordar vizinhos. Sabe como é, morar em apartamento… Emputecida não me dei por vencida. Fui ao banheiro urinar minha frustração de ganhar mais um hematoma na palma da mão. Espero sinceramente que seja só hematoma e não uma luxação. Já basta o tornozelo esquerdo doendo da última queda livre no asfalto da semana retrasada. Dando descarga penso: Preciso me benzer!

Enfio-me debaixo das cobertas, apago a luz e finjo dormir novamente. Tenho certeza dos próximos passos do inimigo. Permaneço de tocaia.

Bzzzzzzzzz!!! – DA PUTA!

Pláft!! – Aiii! – estatelei a mesma mão no ouvido direito que me deixa temporariamente surda.

Bosta!Merda!Caraio! Quero dormir PORRA! Acendo as luzes e – feito ninja, acerto pra valer o inimigo da vez. A adrenalina toma conta do meu ser. Arregalo os olhos míopes e o que enxergo me deixa muito, mas muito satisfeita. Um borrão e fino filete carmim escorrendo pela minha linda parede água doce. Matei! Yes! Yes! YESSS!

Pulo no colchão festejando a vitória sobre o inimigo abatido até que escorrego no cobertor e caio de bunda no chão. Puta que o pariu! Lêlê!Lêlê!

Está decidido. Vou amanhã mesmo no centro espírita tomar um passe e pedir tratamento mediúnico. Devo estar com encosto dos bravos. Ai como dói!

Arrasto-me para a cama que já esfriou mas percebo o sangue – meu sangue, escorrendo pela parede. Não posso permitir que manche minha parede pintada recentemente. Saco! Preciso limpar isso. Levanto pisando duro e mancando por conta do tornozelo machucado e da bunda latejando. Molho um perfex e retorno limpando os restos mortais do pernilongo. Crime perfeito não deve deixar rastros. Isso me vem a mente ao lembrar de minha série favorita Dexter. Pela primeira vez desde que acordei, sorrio.

Andando pelos corredores da empresa, sem querer, encontro-me em pleno fumódromo. Uma forte neblina de fumaça fedida me envolve. Mal consigo reconhecer as pessoas por trás da fumaça. Chama os bombeiros! – recordo que sou da brigada de incêndio. Riso 2.

 – O que você Miss Certinha Pollyana da Silva faz aqui entre os pecadores da Torre dos Desajustados?

Respiro fundo, tusso um pouco e respondo:

– Preciso me perder para me encontrar. Não aguento de sono e desarranjo de vivência nesse tedioso serviço que prestamos diariamente. Arranja um cigarro? Preciso tragar.

Cética porém surpresa com meu discurso, Mariana pisca, abana a fumaça ao seu redor e, oferecendo um cigarro para mim diz:

– Bem vinda a Ordem dos Desajustados Assumidos e Suicidas Disfarçados. À propósito, você sabe tragar?

– Não. Mas nunca é tarde para aprender né?

– Não. Nunca. Assim como também nunca é tarde para se perder. Bem vinda! A vida não anda fácil né?

– Não. Nada fácil. Aliás, não faço ideia do significado dessa palavra. Nos olhamos em sinal de reconhecimento e empatia. Juntas, caímos num riso sincero e nervoso.

Até me esqueci do sono que me consumia.

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9 comentários sobre “Vida marvada!

  1. Adorei sua passagem de cama/empresa, surreal. A questão das mazelas nem discuto, já disse e repito cavamos nossos próprios buracos e depois não conseguimos sair deles, enfim a questão da solidão solidaria do computador frio que também tornou-se mais que o vicio de fumar, um vicio de se estreitar dentro de uma sala fria, num dia frio cheio de tec…tec…tec. Recebi uma mensagem ontem pelo meu whatsapp muito interessante sobre campo vibracional, achei bem legal, pena que não tenho como te mandar. Saia dessa o mais rápido possível e dessas associações espúrias que criamos em nossas vidas, quanto ao cigarro nem preciso falar, creio, você não preciso disso. E quanto ao texto: muito realista e um tanto sombrio. Beijos.

    • Eduardo esse é um texto ficcional onde utilizei situações retirada da realidade que observo. O tec-tec nada mais é do que meus colegas em suas baias trabalhando. Fumar? Obrigada mas só na ficção. Não suporto nem o cheiro rs. Grata pela visita e comentário. Abraço!

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