Blue jeans

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Tédio. Palavra curta com significância profunda. Causa um sabor – ora azedo, ora ácido de algo borrachudo que cresce em nossas bocas do estômago transformando-se num grande incômodo. Sofro de tédio muitas vezes. Agora mesmo. Nesse exato segundo em que escrevo essas linhas, um tédio absurdo toma conta de meu ser. Tento enganá-lo pensando em coisas prazerosas. Procuro lembrar de acontecimentos agradáveis em meu passado. Rememoro os traços de quem amo. Recordo passagens de viagens que fiz. Nada remove essa sensação de inoperância diante da vida. Incomoda o raso das existências alheias que presencio com olhar de voyeur e me questiono se não serei tão rasa quanto eles.

Hoje, pela manhã vindo ao trabalho no ônibus, ouvia Legião ao vivo pelo Spotify. Sorri de forma desencantada ao ouvir Renato Russo dizer, no show ao vivo, que ainda não era a vez do brasileiro ser feliz. Quem sabe daqui um tempo… – dizia ele numa voz firme e ainda esperançosa. É Renato, anos se passaram e ainda não chegou a nossa vez de ser feliz. Ainda não. Talvez nem chegue ou, quem sabe, tenhamos uma ideia errônea e idealizada do que vem a ser felicidade.

A vida, de tão líquida como o filósofo tão bem descreveu, escorreu. Por entre os dedos tortos pelo tempo, tento segurar um pouco dela e ver se ainda resta algum tipo de sentido. Desisto. Deixo pingar a última gota e seco minhas mãos na velha calça jeans.

Sorrio pela segunda vez ao me lembrar de uma canção publicitária tão antiga quanto eu:

Liberdade é uma calça velha, azul e desbotada…

Se a canção for verdadeira, minha liberdade está me sufocando. Ainda resta essa velha calça jeans que, mesmo após quarenta anos, me serve como da primeira vez que a vesti e saí da loja carregada de sacolas e sonhos.

Os sonhos desbotaram tanto quanto a velha calça jeans. Ela mostrou-se mais resistente que eles que se esgarçaram no passar dos anos. E o tédio, essa epidemia contemporânea, assumiu seu lugar de destaque. Tornou-se companhia constante da velha jovem e seu jeans puído pelo tempo.

Imagem: Unsplash

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5 comentários sobre “Blue jeans

  1. Roseli, minha querida escritora, sua vida é fantástica! Pense bem: a sua calça jeans de 40 anos atrás te SEEEEEERVE! Se isso acontecesse comigo já seria a pessoa mais feliz do mundo inteiro kkkkkkkkk

  2. A pensar aqui na insanidade desse mundo contemporâneo e a recordar nosso diálogo com café. Que bom que conseguimos nos desvencilhar da turba e ter nossos momentos porque as pessoas já não olham mais além de suas janelas. Não vai me espantar se o horizonte deixar de ser o que é. Em breve iremos a um museu e ficaremos maravilhados com uma parede onde o horizonte virou arte. aff

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