Visão desfocada

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Do nada, o olho pisca ininterruptamente. Ora seca, ora lacrimeja. Em outros momentos, arde como se uma bomba de gás pimenta tivesse estourado à minha frente. E coçar então? Pior de tudo, é quando tudo isso acontece num momento em que não posso demostrar desconforto. Seja numa reunião importante ou num encontro amoroso. Afinal, nas duas situações queremos e precisamos mostrar nosso melhor. Provar que é competente naquilo que faz. Então, esse olho maldito, me entrega estragando toda mise-en-scéne.

Desde pequena sofro desse mal. Pior quando o estado do olho chega a criar remelas. Isso afasta as pessoas de mim. Ficam com medo que seja contagioso. Não é. Contudo, até provar vai um bom tempo de conversa e desgaste. Prefiro ficar de olhos baixos ou com óculos de sol. Pena que sempre esqueço de andar com eles na bolsa. E o que dizer da claridade do dia quando estou com eles irritados?

Sinto-me a própria vampira Miriam Blaylock. Com muita fome de viver mas impossibilitada pela visão embaçada. Clamo pela escuridão. Nessas horas, a vontade de se encolher até ficar do tamanho de um átomo é grande. Perder-se por entre a poeira do universo e passar desapercebida. Fica só na ilusão. A cada encontro nos corredores da empresa, uma pessoa pergunta: Nossa, como está seu olho! É conjuntivite? Credo isso pega!

Só suspiro, sorrio amarelo e sigo meu caminhar ignorando os comentários desnecessários que as pessoas insistem em fazer.

A paciência foi algo que desenvolvi ao longo dos anos para poder viver por aqui. Como um discípulo de um mestre Kung Fu, através de muita humildade, fui moldando minha personalidade rebelde para sobreviver. Aprendi que somente quem se torna maleável feito aço quente, pode se moldar às situações e intempéries do tempo. Assim me fiz. Assim me tornei. E a paciência me dá condições de aguardar o momento de ficar novamente com os olhos curados e enxergar o mundo como ele é. Sem embaço, nem pontos escuros.

Desconfio que essa anomalia seja mais da minha alma que se nega a ver a feiura da vida. De perceber que ela não é como nos contos de fadas que tudo se resolve num piscar de olhos. Em dizer fórmulas mágicas e tudo retornar ao normal com os “Foram felizes para sempre”. A constatação de que felizes e sempre são invenções e não condizem com a realidade, talvez tenham me agredido a alma a tal ponto de, para sobreviver, de tempos em tempos, meu organismo se ataca para se defender. Freud deve explicar.

Imagem: Google

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12 comentários sobre “Visão desfocada

  1. Roseli, eu sei que é piegas mas não consigo não pensar que estes momentos sombrios a quais vivemos nos coloca com sangue nos olhos. Estamos iradas, surtada e adoecidas com toda esta burrice global. Perdoe a minha pobre interpretação, mas eu estou com sangue nos olhos. Tudo passa!

  2. Eu adoro tudo que me permite distanciar-me de pessoas, você sabe. Elas causam cansaço, preguiça. Me causam aquele descontentar. Eu inventava doenças na infância. Fazia manchas na pele e avisava que era contagioso. Funcionava por um tempo. rs

    Ok. não sou normal.
    Eu sei, você já sabia disso.

    Mas eu nunca quero mostrar o meu melhor, rá.
    O pior é sempre mais agradável.
    Até porque nunca sabemos o que o outro vê de fato. aff
    bacio

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