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porta macica

Voltar àquela casa…

De frente ao portão. O mesmo portão de uma vida inteira. Sólido, retorcido em curvas e linhas. Tal qual nossas vidas. Pintado num azul envelhecido feito casco de velhos navios. Apesar da idade avançada, não continha nenhum ponto de ferrugem. “Coisa boa, de primeira” – diria seu velho avô Pierre, nascido na região Sudoeste da França. Berço da agricultura e do bom vinho.

…Vô Pierre…Quantas lembranças passaram pela mente de Marjorie.

Passando o pesado portão, percorreu o corredor que dava acesso a um novo lance de escadas. Cinco degraus. Quando pequena, gostava de pular um a um sentindo-se vitoriosa quando superando o medo, saltava os cinco de uma vez, aterrizando feito ave no solo de lajotas hidráulicas.

Lembrou de uma queda e do corte profundo no queixo. Mais que a dor física, ela sentiu o peso do olhar de sua mãe, sempre severa em não admitir desobediência. Seu pai, ao contrário. Homem com alma de criança, cairia na gargalhada vendo-a se esborrachar. Sempre gostou de coisa mal feita. Essa era a famosa frase de dona Dulce, mãe de seu pai. Outra mulher aristocrática que não admitia intimidades nem falta de etiquetas.

…Vó Dulce, uma chata e mal amada isso sim! Nunca gostei dela.

Do alto da escada, pôde vislumbrar a porta maciça de jacarandá sempre lustrosa. Visualizou o corredor ao lado que percorria toda a extensão da casa e desembocava na enorme cozinha. Um dos seus lugares favoritos da casa. Aspirou o aroma do forte café que sua avó materna Elisa sempre passava no coador de pano preso a um suporte de ferro fundido. Seu perfume se espalhava por toda casa!

Sentiu ímpeto de correr pelo corredor e cair direto na cozinha, como fazia de pequena. Conteve-se e, respirando fundo para controlar suas emoções, entrou pela porta da sala.

Nada havia mudado! À sua direita, o enorme sofá carmim. No centro, a mesa com sua base talhada cheirando a óleo de peroba repousando no tapete Aubusson. As cadeiras de espaldar alto lhe trouxe lembranças da infância quando tentava com dificuldades, escalar essas maravilhas. Os retratos pintados a óleo de seus avós ainda jovens lhe causou frisson no peito.

Percorreu o corredor que levava aos quartos. O primeiro, de sua tia Aneli. Decoração espartana. Árido feito seu coração. Frio como sua alma. Nem entrou. Recuou e prosseguiu entrando no próximo. O de seus avós. Pôde sentir o perfume do talco de rosas que sua vó usava. Viu sobre a cômoda antiga, a escova de ossos que penteava suas longas madeixas. Gostava de apreciar esse ritual. Viu os enormes grampos de cabelo, pousados ao lado da escova. Percebeu do lado oposto à cômoda, um mancebo de madeira que trazia no alto, o chapéu de feltro de seu avô Pierre. Cinza chumbo.Uma de suas inúmeras camisas xadrez de flanela, encontrava-se displicentemente jogada aos pés da cama. Caminhou pelo quarto fazendo ruídos ao mudar seus passos miúdos na velha tábua do assoalho gasto pelo tempo. Parou. Ouviu vozes abafadas. Abaixou-se no chão e grudou os ouvidos tentando reconhecer as vozes que falavam sem parar. Lembrou-se de que embaixo dos quartos, ficavam os porões da casa. Doces recordações se elevaram no ar, feito fumaça produzida no fogão à lenha. Decidiu parar de explorar as dependências principais da casa . Saindo pelo corredor, desceu ao subsolo onde ficavam os tais porões. Resquícios de suas fantasias de menina. Local mágico, com personagens criados por ela naqueles anos difíceis de sua infância.

Ao ultrapassar a soleira da porta do primeiro porão – o maior dos três, sentiu-se arremessada a Storybrook. Respirou magia por toda parte. Cheiro de coisas eternamente guardadas por gerações. Potes, garrafas, brinquedos, bolas coloridas. Estranhamente repousavam nas prateleiras sem fim como que, esperando o momento de serem úteis na vida de alguém. Remexendo com certo zelo nas caixas, encontrou uma antiga pasta onde guardava seus desenhos. Quanta emoção ao abrir e vê-los intactos. Na adolescência, fora uma desenhista espetacular. Depois, com as cobranças da vida adulta, deixou de lado essa atividade que tanto prazer lhe proporcionava. Abrindo um sorriso “Monalisa”, pensou: Preciso voltar a fazer alguns rabiscos. Acho que não perdi a mão.

Por segundos pensou em levar consigo a pasta. No entanto, sua consciência acusou que deveria deixar lá afinal, ali, era seu lugar. Com certo pesar, repôs na prateleira e seguiu para o segundo porão.

Lá, encontrou diversas ferramentas do seu avô. Algo chamou sua atenção. O velho e querido pilão onde, nas tardes mornas de sua infância, vó Elisa convocava a todos para participar da festa que era moer amendoim até virar paçoca. Formava-se fila de crianças e adultos para a deliciosa farra de socar o amendoim e o açúcar enquanto sua avó puxava a cantoria batendo palmas e arrastando os velhos chinelos. Seus olhos, do brilho intenso da alegria, recebeu um descortinar sombrio ao desviar-se para o objeto ao lado pendurado na parede. O reio de cavalo trançado que servira um dia para surrá-la por uma traquinagem de criança. Nunca se esqueceu da dor que sentiu. Dor física e moral pois sabia em seu íntimo que o que fez, não era para tamanho castigo. Sentiu-se uma escrava castigada no tronco da senzala.

Tantas vivências naquela casa, tantos acontecimentos que foram responsáveis pelo que era agora. Voltar àquele universo, era quase como voltar os ponteiros do relógio do tempo e retroceder à infância.

..Oi, tudo bem? Já faz um tempo que observamos a senhora parada, olhando para o prédio. Por acaso está interessada em entrar e conhecer nosso belo e arrojado condomínio? Não se acanhe, será um prazer mostrar as dependências.

Retorno à realidade, Marjorie sorri.

-Obrigada. Não preciso entrar. Conheço cada pedacinho desse terreno e tudo o que existe debaixo desse emaranhado de concreto e vidro. Não se preocupe comigo, já estou de saída. Só parei aqui para resgatar algo valioso que um dia deixei aqui.

-Valioso? O que? Esqueceu alguma joia no condomínio?

-Joia? É. Posso chamá-la assim também. Agora que reencontrei minha essência de criança, posso seguir com minha vida longe daqui. Desculpa o incômodo.

O segurança do condomínio não entendendo nada acompanhou a figura delicada da jovem senhora que sumiu na esquina da rua. Coçando a cabeça e realinhando seu boné, voltou à sua guarita pensando em voz alta:

-É cada doido que aparece por aqui que vou te contar. Dona mais esquisita!

Imagem: Pinterest

Visão desfocada

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Do nada, o olho pisca ininterruptamente. Ora seca, ora lacrimeja. Em outros momentos, arde como se uma bomba de gás pimenta tivesse estourado à minha frente. E coçar então? Pior de tudo, é quando tudo isso acontece num momento em que não posso demostrar desconforto. Seja numa reunião importante ou num encontro amoroso. Afinal, nas duas situações queremos e precisamos mostrar nosso melhor. Provar que é competente naquilo que faz. Então, esse olho maldito, me entrega estragando toda mise-en-scéne.

Desde pequena sofro desse mal. Pior quando o estado do olho chega a criar remelas. Isso afasta as pessoas de mim. Ficam com medo que seja contagioso. Não é. Contudo, até provar vai um bom tempo de conversa e desgaste. Prefiro ficar de olhos baixos ou com óculos de sol. Pena que sempre esqueço de andar com eles na bolsa. E o que dizer da claridade do dia quando estou com eles irritados?

Sinto-me a própria vampira Miriam Blaylock. Com muita fome de viver mas impossibilitada pela visão embaçada. Clamo pela escuridão. Nessas horas, a vontade de se encolher até ficar do tamanho de um átomo é grande. Perder-se por entre a poeira do universo e passar desapercebida. Fica só na ilusão. A cada encontro nos corredores da empresa, uma pessoa pergunta: Nossa, como está seu olho! É conjuntivite? Credo isso pega!

Só suspiro, sorrio amarelo e sigo meu caminhar ignorando os comentários desnecessários que as pessoas insistem em fazer.

A paciência foi algo que desenvolvi ao longo dos anos para poder viver por aqui. Como um discípulo de um mestre Kung Fu, através de muita humildade, fui moldando minha personalidade rebelde para sobreviver. Aprendi que somente quem se torna maleável feito aço quente, pode se moldar às situações e intempéries do tempo. Assim me fiz. Assim me tornei. E a paciência me dá condições de aguardar o momento de ficar novamente com os olhos curados e enxergar o mundo como ele é. Sem embaço, nem pontos escuros.

Desconfio que essa anomalia seja mais da minha alma que se nega a ver a feiura da vida. De perceber que ela não é como nos contos de fadas que tudo se resolve num piscar de olhos. Em dizer fórmulas mágicas e tudo retornar ao normal com os “Foram felizes para sempre”. A constatação de que felizes e sempre são invenções e não condizem com a realidade, talvez tenham me agredido a alma a tal ponto de, para sobreviver, de tempos em tempos, meu organismo se ataca para se defender. Freud deve explicar.

Imagem: Google

Fim de contrato

Um tropeço, um baque.

Como a vida é efêmera. Como é rápida e, mais rápida ainda se esvai deixando apenas rastros de incompreensão e…Saudades.

Como uma vida que mal começou, pode terminar sem aviso prévio, sem mensagens de despedida, sem um até breve num e-mail ou no WhatsApp?

Sendo ela uma senhora regida por regras que sempre existiram, por que insistimos em nos espantar diante de suas atitudes?

Qual o motivo de sofrermos e desistirmos dela se, desde nosso nascimento, já sabemos a que viemos?

E não adianta choro, nem promessas, muito menos barganha. O fim é inexorável para tudo. Para todos.