Acordo doloroso

Uma sensação estranha se desenha aos poucos em meu interior. Minha mente busca – na vã tentativa de negação, pensar em coisas alegres. É lógico que fracasso.

À tarde tento fingir que trabalho, num esforço intenso de parecer concentrada. Descobri que sou excelente atriz! Ninguém percebe ou, por outro lado, todos agem da mesma forma que eu. Fingem na frustrada tentativa de sabotar a realidade.

Olhos caídos, andar pesado, dedos nervosos teclando em busca de notícias positivas.

É não deu. A vida vem e escarra em nossas caras que ela não é a tela do plin-plin. Não utiliza imagem HD, não se mascara muito menos te poupa se você for bom.

Por outro lado, a Morte, essa misteriosa dama que a todos assombra e fascina, também trabalha no mesmo esquema. Uma é o complemento da outra. Trabalham em parceria constante. E se respeitam quando finda o contrato de alguém.

Hoje, muitas pessoas tiveram seu contrato encerrado. Sinto por todos. Mas o término de contrato do Clown mexe com o emocional de todos.

O Clown é um personagem que habita o imaginário das pessoas. Figura constante na infância que se materializa na fase adulta resgatando a criança que um dia fomos.

Figura que trás no rosto, a alegria e a pureza do espírito, assombrada por um olhar melancólico que sabe que a vida não é só beleza.

A Morte resistiu bravamente. Aguentou paciente a espera da realização máxima do Clown para levá-lo consigo. Chegou inclusive a se emocionar – coisa rara de acontecer, com o talento do palhaço no picadeiro da vida.

Mas não teve jeito. Funcionária padrão do Senhor do Universo, ela não pestaneja diante das situações, muito menos das emoções que todo ser humano expressa. Calejada diante do sofrimento, criou uma couraça para se proteger caso contrário, não teria a competência que tem. Já traçou antecipadamente todos os passos para o desfecho do escolhido da vez.

Planejou com Mãe D’água, como seria o grand finale. O local era cenário perfeito para esse enredo. A Senhora das Águas garantiu que seria inesquecível. E foi.

Poucas vezes a Morte sentiu aperto no coronário ao carregar o dileto. Hoje, sentiu que também morria um pouco.

 

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