Meu universo ruindo

A photo by Greg Rakozy. unsplash.com/photos/oMpAz-DN-9I

Tudo anda muito chato. Acontecimentos. Pessoas. Atitudes. Vida.

Um misto de depressão e vontade estúpida de viver. Mas não aqui. Não ao lado dessas pessoas. Percorro as vias públicas, desviando da massa que, envoltos na febre Pokémon, são atropelados por minha ira. Nem percebem. Não me notam. Não sou imagem holográfica.

Percorro a Paulista, num desejo raro de desviar de meus próprios pensamentos. Geralmente recorro à eles quando me sinto assim, cheia. Hoje, faço diferente.

Em passadas ligeiras, transformo-me em maratonista desviando de pessoas, carros, motos e bicicletas. Desvio inclusive, deles, os pensamentos. Assumo um nada total que se avoluma e toma conta do meu ser. Flutuo. Deixo para trás dores – da alma e das articulações desgastadas. Desapego-me de bolsa, identidade, dinheiro. Desço a Augusta, de forma veloz. Prestes a chegar à esquina com Caio Prado, percebo que só tenho metade de mim volitando pelas vias públicas. Desintegro-me para não me perder de vez. Moléculas roselianas sobrevoam o céu poluído de São Paulo. Prestes a chegar ao meu destino, já com chaves em punho, respiro aliviada. Sou apenas um esboço mal feito de mim mesma. Um rascunho feito às pressas por um retratista medíocre.

Giro a chave. Entro. Fecho a porta e escuto o silêncio do ambiente. Aos poucos tomo ciência do retumbar de meu coração. Ainda pulsa. Ainda vivo nessa carcaça decadente que teima em amar a vida. Mesmo que essa, muitas vezes se mostre inimiga.

Lágrimas descem por meu rosto cansado de mais um dia, menos um dia – como sempre diz uma querida amiga minha. Mais uma data riscada em meu calendário. Mais um passar de horas que apago de minha existência. Nada aconteceu. Nada acontece. Pela janela, observo as luzes nos prédios que me avizinham. Estrelas reluzentes em meu universo em constante caos.

Imagem: Unsplash

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6 comentários sobre “Meu universo ruindo

  1. Me pego sentindo algumas vezes assim, farta de tudo e todos até daqueles que nem conheço, da combustão de carros da grama seca da praça, da lotação que demora… Mas o que sempre me intriga é a vontade de viver que renova em mim a cada manhã, é como um ciclo vicioso, hoje estou mal amanhã certamente estarei bem me alegrando das folhas secas que caem no banco da praça…
    Texto ótimo continue escrevendo seu cotidiano adoro ler isso!

    • Acredito que esses são sentimentos comuns a todos. Só precisamos tomar cuidados para que não se torne crônico. Obrigada por prestigiar o blog e comentar. Vocês leitores são fundamentais para minha escrita. Abraço!

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