Sismos

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Sonho. E no transe desse sonho, sinto tremores. A cama, mole feito gelatina me devolve à vida. A vida, por questão de segundos, mostra que tudo trepida. Lustres pendentes brincam de balanço. Vão pra lá e pra cá num ruído que amedronta. O quarto, uma grande montanha russa. O piso movimenta-se causando náusea sem fim no meu epicentro. Vomito.

A louça na cozinha mais parece pipoca pulando na panela. Cacos por todo lado e o som de tudo se movendo. É sinistro. Quadros são arremessados da parede, TV escorrega do rack, janelas explodem. A mistura de sons causam-me pânico mas não consigo pensar em nada. Muito menos, sair do lugar. Permaneço. Observo. Ouço. Sinto…

O mundo de outros desabando sobre meu mundo. Corpos tomando o espaço do meu corpo. É um peso muito grande! Ouço gemidos abafados ao meu redor. Trago a garganta fechada, seca e meus olhos serrados. Não tenho certeza se me encontro viva ou morta. Continuo inerte, submersa num mar de entulhos. Os sons que chegam até meus ouvidos empoeirentos são confusos. Nada distingo.

Aqui, onde me encontro, continuo a sentir tremores. Ao redor e dentro de mim. Tremo de medo pela primeira vez. Tremo por minha vida e dos outros que, reunidos, formamos um coro de desesperados.

Espero. Imóvel, aguardo ser resgatada. Não importando mais se viva ou morta.

Mais tremor. Agora promovido pelos tratores que vasculham os escombros do que um dia foi uma cidade. Curioso! Não sinto medo, não sinto frio, nem calor…Não sinto dor. Faço parte agora do imenso nada.Terei voltado a ser molécula no espaço? Confusa demais para filosofar, mantenho-me stand by. Não tenho escolha, portanto, mantenho-me calada. Boca e espírito . Não tenho ideia de quanto tempo permaneço nessa posição. Não sei se é dia ou noite. Não sei se desistiram de nós. Algumas vozes se calaram. Será a morte esse grande silêncccccc??..

Entrondo!

Ahhh!! ÚÚHh!!

Um sobrevivente! Um sobrevivente!! – grita um bombeiro acompanhado de um cão que teima em me lamber. É quente. É úmido. O medo volta com força total e, liberta do concreto que me oprimia, grito com todas as forças de meus falidos pulmões.

Deveria de me sentir feliz por ser resgatada mas, o medo toma conta de mim. Enquanto estava lá embaixo, tinha companhia. O que será de mim depois que a tormenta passar e não tiver restado nada nem ninguém? Como viver com esse peso da vida?

Choro. Pela primeira vez choro muito. Lágrimas misturadas com sangue e outros fluídos. Meus e dos outros que jamais se reerguerão. Braços me envolvem delicadamente, uma voz embargada pronuncia em meus ouvidos palavras de reconforto tentando me acalmar.

Tremo. De frio, de dor, de não saber meu futuro. Terei algum? Tremo novamente. Agora de convulsão. Sou colocada numa maca e sigo para hospital mais próximo. A estrada está péssima. Ambulância sacoleja.

Vida que segue t(r)emendo o amanhã.

Imagem: Google

 

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4 comentários sobre “Sismos

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