Território demarcado

Sofia está deitada há pelo menos duas horas em total escuridão. Ao contrário de suas irmãs, a falta de luz não lhe causa pavor. Pelo contrário, sente-se confortada.

Ouve os inúmeros sons que vem da rua: carros com seus motores envenenados que passam pela avenida rasgando asfalto, travestis cantando, metendo bronca nos playboys que passam em seus tanques urbanos proferindo ofensas homofóbicas para encobrir suas taras em dar o rabo. Ouve a água escorrendo pela pia da vizinha e o barulho das louças repousando no suporte para secar. O som do elevador chama sua atenção. Passos pesados pelo corredor denunciam que o vizinho do apartamento à esquerda, chegou. Chaves tilintando, passando a trinca, luzes acendendo, TV ligada e a janela sendo aberta num movimento brusco que ensurdece ouvidos mais sensíveis. Não é o caso dela. Já calejados por tanto barulho, nem se importa mais. Mês passado chegou a marcar consulta num otorrino preocupada em estar perdendo audição. Mais tranquila, saiu do consultório após entregar exames feitos lá mesmo, com a afirmativa do especialista de que sua audição, apesar da idade, é perfeita. O que já não ocorre com a visão. Talvez, goste tanto da escuridão porque no fundo, já tenha a certeza de que num futuro próximo, terá ela, como companheira em tempo integral.

Deitada de bruços, mantém  a respiração tranquila, quase parada e adentra um mundo paralelo. Entra numa sintonia com algo desconhecido e sente, de repente, a presença de alguém que se aproxima da cama.

Percebe o colchão se afundar e uma energia a envolve. É desconhecida. A princípio, se assusta, no entanto, ao perceber o abraço invisível, o compasso de seu coração se normaliza. É do bem! Em pensamento, dá as boas vindas mas pede que respeite o espaço que, por hora, lhe pertence. Sente-se novamente abraçada e, numa lufada morna, a tal presença se esvai no ar deixando-a sozinha. Tem plena consciência de que jamais estamos sós. Em nenhum momento. Também sabe que fora do apartamento, encontram-se soldados do bem protegendo sua morada. Em pensamento, agradece.

Ao som de gritarias de jovens exaltados saindo da danceteria no final da rua, adormece sentindo-se em casa.

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Um novo passo

fred_ginger

Danço. Por que a vida já é um imenso palco que, se você não seguir, te passam para trás, te derrubam e te jogam para escanteio. Aprendi meus primeiros passos dessa coreografia, logo cedo, bem novinha. Outra grande lição que levei pra vida, é dançar conforme a música. Assim minha avó ensinou para minha mãe, que repassou a lição para seus filhos. Pena que nem todos aprendem.

Com o tempo, passei a fazer passos mais ousados, mais bem sincronizados com meus parceiros de dança. Transformei-me numa virtuose das passadas rápidas, realizando espacates formidáveis. Minha elasticidade impressionava a todos. Dobrava-me feito bambu. Resistente feito eles. Vi-me obrigada a fortalecer para não quebrar.

Com o passar dos anos, corpo enferrou naturalmente. Era de se esperar, contudo, aprendi novas técnicas e pouco a pouco aprendi a dar elasticidade à alma.

Foi aí que tirei a sorte grande! E de lambuja, aprendi a cantar também. Veja bem, não tenho voz privilegiada mas, mesmo assim, canto para desafogar a pressão do dia a dia, libertar tudo o que trago preso no peito e me sentir leve feito folha ao vento. E funciona.

É, acredite! Tente sair dançando e cantando. Verá mudanças significativas em sua vida.

Já aviso que isso não é sabedoria barata de autoajuda. É minha vivência, minha experiência de vida.

E se serviu para mim, por que não para outros? Hoje, no alto de meus sessenta e seis anos, trago minha alma expandida, maleável, leve. Sorrio para a dificuldade, pisco de forma malandra para a dor – que aliás, são muitas, assovio para a dureza de um salário de aposentada, vejo as contas se acumulando e ao invés de desesperar, levanto com certa dificuldade nas juntas e dou banana pra elas e saio à rua em busca de alegria. Tristeza acumulei e curti na juventude pois lá, era legal ficar deprimida por amor ou falta dele. Hoje, ciente de que nada se leva dessa vida, quero mais é ser feliz, dar risada – muitas, diga-se de passagem, achar graça em meus micos que são diversos e bem cultivados.

Minha filosofia? “Infeliz daquele que evita os micos”. São eles o tempero de nosso cotidiano que dão um “que” em nossas vidas muitas vezes desbotadas pelas intempéries.

Durante muitos anos engessei minha essência para fazer parte de alguma turma, algum grupo, buscando a aceitação do próximo.

Me feri demais nessa tentativa que se mostrou inútil. Quando decidi  me libertar, foi a glória!

Quando jovens, somos ingênuos e tolos por achar que tudo se resume ao que se aparenta e não ao que se é de fato. Hoje sou. Joguei pro alto a preocupação com a aparência. Aparentar ser bonita, jovem, gostosa, sensual, sexy. Tudo ilusão! Mantive a vaidade de se cuidar o básico: higiene sempre pois ninguém merece sentir sua “sovaqueira”. Desagradável demais! Cuido de minhas roupas que por hora, são simples mas de boa qualidade e sempre limpas. Mantenho-me penteada, unhas bem aparadas porque ser velha já é um fardo, manter unhas longas se assemelhando às bruxas de contos de fadas, não dá. Esse personagem não visto. Com o ganho da experiência, adquiri o maravilhoso hábito de sorrir com os lábios e a alma. Por isso consigo tocar à todos. Sorrir, vai além de exercitar a musculatura facial. É transformar a alma num regozijo pleno.

De passo em passo, moldei meu espírito numa Ginger Rogers e hoje, bailo com a leveza dos astros. Para muitos, não passo de uma velha gagá precisando ser internada com urgência. Para outros, exemplo a ser seguido. Vai de cada um e não questiono opiniões. Acato e as respeito afinal, o livre arbítrio é uma benção que todos recebemos ao nascer e nosso maior tesouro. Só necessitamos de sabedoria para usá-lo. E eu, à minha moda, acredito que saiba utilizá-lo. Aceita ser meu partner nessa contra dança?

Imagem: Mattsko