Filosofando entre amigos

Outro dia, numa roda de amigos, discutíamos vários assuntos até chegar ao tema “relações amorosas”. Após todos falarem um pouco sobre suas experiências, olharam para mim e um silêncio pairou na sala.

Demorei a perceber que todos aguardavam uma palavra minha sobre o assunto. Sorrindo um pouco sem graça, disse que não tinha nada a declarar. Na hora, todos rebateram ao mesmo tempo dizendo não aceitar essa resposta. Eu tinha de sair de meu pedestal e abrir o coração para todos. Pensei na hora: Abrir meu coração? De que forma se ele já se encontra escancarado há anos!

Permaneci mais alguns minutos quieta e então falei: “Já sofri muito por amor. Já paguei micos em nome do amor. Já dei muitos foras em nome desse amor. Já derramei muitas lágrimas por amor. Já passei noites insone por conta de um amor. Já transei loucamente em nome do amor…

Silêncio e muitos pares de olhos em cima de mim aguardando um desfecho do que havia começado a falar.

– Continue, termine. Como é sua vida amorosa hoje? – pergunta uma nova amiga que ainda não sabe nada sobre minha vida privada. Seus olhos denunciam curiosidade.

-Hoje? Ah… Minha vida amorosa atualmente é bem tranquila, serena. Existe uma parceria incrível entre nós duas. Uma apoiando a outra. Não importa que situação se apresente. A harmonia, a sinceridade, o carinho é sempre mútuo.

Paulo, um amigo das antigas, do tempo da faculdade, coça a cabeça e olhando de forma indireta para mim comenta de forma quase inaudível:

-Poxa, não me leve a mal amiga mas…Nossa! Nunca imaginei que você fosse lésbica. Veja,  não estou sendo preconceituoso. Não mesmo. Mas é que, ah, sei lá! Você já namorou tantos caras… Até rolou uma paquera entre nós na faculdade. Mas, poxa! Afinal está feliz né? Então é o que interessa. Te amo mesmo assim viu! – E finalizando seu pensamento, levanta-se e vem ao meu encontro na intenção de um abraço.

Aceitei mas falei de imediato:

-Pessoal, vocês tiram conclusões muito apressadas. Não disse que tenho uma companheira nem disse que sou lésbica. Como você mesmo disse agorinha, também não tenho preconceitos. Aliás, tenho grandes amigas e conhecidas lésbicas.

-Ah não é não?

-Não Paulo. Não sou. O que quero dizer, é que hoje, do alto de meus cinquenta e três anos, encontrei um ponto de equilíbrio. Finalmente após décadas de brigas internas e muita terapia, encontrei a aceitação para muitas coisas e vivo numa paz imensa. Vivo sozinha mas jamais solitária. E sabem porque? Porque a solidão é minha aliada para muitas coisas. Exemplo: Refletir sobre meus aprendizados, minhas fraquezas, meus pontos positivos. Planejar meu dia a dia. Escrever. Ler. Fazer minha yoga. Ouvir minhas músicas e assistir aos filmes favoritos. Experimentar fazer os pratos que tanto gosto. E finalmente, me preparar para recepcionar os amigos que são fundamentais em minha vida. Não preciso mais de um amor carnal, sofrido, angustiado e desesperado. Isso foi bom quando tive meus vinte anos. Hoje, meu amor ganhou outras cores e sabores. Sou feliz assim. Acho que isso é maturidade. Tin!Tin!

 

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