Delírios após o almoço

Todo mundo tem uma válvula de escape para suas neuroses, preocupações do dia a dia, medos etc. Como faço parte da humanidade, tenho as minhas. Duas delas, vocês leitores assíduos, já conhecem: a escrita e a leitura. Mas tenho outras: música, meditação, pensar. Pensar obsessivamente em algo.

No momento, tenho um pensamento único, repetitivo. Acordo pensando, passo o dia com esse pensamento indo e vindo, volto a deitar em minha cama pensando, pensando, pensando.

Ainda trago comigo, aos cinquenta e três anos, a fantasia de que, se pensar demais, com muita intensidade, ininterruptamente, a coisa se concretiza. E eu quero. Muito. Que se concretize. Quero. Ordeno. Não admito que o destino seja filho da puta e me sacaneie. Realize o que desejo e ponto.

Mas não foi nada disso que estava disposta a escrever por aqui. O que me trouxe mais uma vez aqui, no blog, foi um texto de Caio Fernando Abreu, do livro A vida gritando pelos cantos.

É. Não adianta fazer caretas e revirar os olhos. Vou falar nele de novo. Gosto dele uai! Bom, se não gosta dele pode parar a leitura por aqui e vá ver o que Anitta fez com sua boca. Por aqui, falo de Caio F. novamente.

E por que falo dele? Simples: tudo o que ele escreveu, bate direto aqui, em mio cuore que pulsa incessantemente. Ao término de mais uma crônica lida, paro e penso:

Puta que o pariu, tinha de morrer antes de nos cruzarmos na esquina da Rua Augusta com a Avenida Paulista? Ou, tinha de sumir do planeta antes de nos esbarrarmos na Frei Caneca, indo ao shopping comer e depois pegar um cinema? Caio, que fique registrado minha revolta: Não te perdoo! E nem adianta ficar me olhando dessa forma.

Cara, tínhamos de ter nos esbarrado e fincado amizade. Trocarmos nosso parecer sobre a cultura, tricotar sobre os filmes da última mostra de cinema de São Paulo, trocar confidências sobre as paqueras do momento. Você se foi, antes mesmo de nossa primeira briga.

Mas também não era nada disso que queria escrever. Está vendo como você me tira dos trilhos?

O que queria mesmo, era dizer aos meus leitores, o quanto ler suas crônicas traz conhecimento geral sobre cultura, política, economia e o principal: conhecimento sobre as emoções humanas.

Só para citar um exemplo disso tudo que digo: na crônica Para embalar John Cheever, você me fez relembrar de um grupo musical que amava tanto que até hoje, tenho seu LP: Nouvelle Cuisine. Nunca mais soube nada dos músicos. Eram tão bons, talentosos, cool. Caio F. também me fez lembrar de Laurie Anderson (lembram dela?) e de Philip Glass (lembram dele?)

Caio me apresentou a canção Forgetting, letra de Laurie Anderson para a música de Philip Glass. Essa eu não conhecia e fui imediatamente buscar no Santo Google.

Esse cara (O Caio) sabia das coisas! Ouvi a primeira vez e não parei mais. Daí, busquei a obra de Philip Glass e, cá estou de fone de ouvido, absorvendo seu som maravilhoso no álbum com trilha sonora do filme As horas, baseado na obra de Michael Cunningham . Ah, não posso me esquecer de John Cheever que também foi apresentado à mim. Nunca li nada dele e agora, quero conhecer sua obra. Já vi que aqui na biblioteca não temos. Preciso providenciar.

Agora me responde: Caio é ou não é o Cara? Desde que comecei a ler sua obra, tenho aprendido tanto, relembrado tanta coisa que vivi nas décadas de oitenta e noventa e que foram engolidas pela rotina maçante que levamos. Só posso dizer que sou grata, por manter esse contato próximo através da leitura de suas crônicas e me enriquecer com tudo o que ele escreveu. Amo sua euforia, sua melancolia, sua ironia, sua tristeza com o rumo que o país tomava com toda a crise política e econômica que vivenciou. Vejo agora mais um ponto em comum entre nós.

Caio, nada mudou. A situação só foi maquiada por um tempo mas com o descuido, a máscara caiu revelando que nosso país ainda continua do mesmo jeito. Ou talvez pior.

Mas quer saber? Também não era nada disso que queria escrever. Mas foi bom falar do Caio pois assim, esqueci por alguns minutos daquele pensamento que tem me atormentado. Ih, voltou com tudo. Espera um pouco que vou ao banheiro ler mais um capítulo do livro afinal, minha vida também grita pelos cantos e percebi agora que meus cantos não andam nada arredondados. Estão de bico, pontudos e machucando. Será que chego viva até o final da semana? Haja coração!

PS: Alguém sabe do paradeiro dos rapazes do Nouvelle Cuisine? Laurie Anderson? Philip Glass?

 

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