Nada mudou

Quase não dormi a noite. Acordei várias vezes, inclusive, para socorrer minha irmã cadeirante que – desculpe a rima, num roupante, levantou correndo no escuro, descalça e caiu. Báh!

Fui arrancada do mundo de Sandman e, com o coração galopante, socorri a pobre que, desesperada para urinar, esqueceu-se de que não anda. Pode?

Com o espírito ainda dormente, levei-a ao banheiro, fui em busca de roupas limpas pois com o baque, urinou-se toda, corri em busca do pano de chão para limpar todo líquido espalhado pelo quarto e banheiro.

Calma que o dia ainda nem começou. No caminho ao trabalho, refleti sobre o quanto as coisas andam esquisitas por toda parte. Será que sempre foram e eu é que não percebi?

Na plataforma lotada da estação de trem, observo centenas de rostos que trazem em comum, uma única máscara: indiferença. Acompanhada, claro, de um smartphone e sua extensão: fone de ouvido. Em plena sete horas da manhã, olhos embaçados de sono fixados na telinha led buscando um pouco de alegria nas redes sociais. Ninguém se olha, ninguém se importa com o companheiro ao lado.

Outro dia, na academia, enquanto corria na esteira ouvindo George Michael, distraí, olhei para o lado de forma brusca, deixei cair meu celular. Num ato impensado, tentei pegá-lo e, quando dei por mim, já mirava o chão. Cena digna de um vídeo show do Faustão. Mico total. Fechei os olhos e entreguei minha alma a Deus pois vi que o corpo já era. Estatelada no chão, com o cotovelo arrebentado e já começando a sangrar percebi que ninguém me notou.

Gente, sabe o que significa para um nativo de câncer passar desapercebido? Meu sangue subiu para esferas altíssimas tamanha minha indignação. NINGUÉM PERCEBEU?

Peguei os cacos de minha dignidade junto do celular, voltei a esteira e corri mais trinta minutos numa velocidade de atleta olímpico. Convenci-me de que tenho um cardio em ótima forma assim como meus ossos. Depois, fiquei duas semanas de molho me recompondo. Ninguém sentiu minha falta. Ainda inconformada.

Mas olha, não era nada disso que queria falar. Na real, o que queria comentar por aqui com vocês, é que, lendo o livro A vida gritando nos cantos, de meu querido, amado e idolatrado Caio Fernando Abreu, notei o quanto as coisas desde a época em que ele escreveu tais crônicas, não mudaram nada.

Oh vida mais besta!

Crônicas escritas no ano de 1987 continuam assombradamente atuais. Sua crônica intitulada Um prato de lentilha mostra um Brasil que praticamente não mudou nada. Os mesmos personagens políticos (Eca!), as mesmas questões sociais em debate, os mesmos ou iguais conflitos mundiais, a mesma falta de dinheiro e de perspectiva de vida.

Oh vida mais besta!

E eu aqui, na biblioteca, rodeada de adolescentes idiotizados, mimados e sem preocupação a não ser com o próprio umbigo cheiroso de cria bem cuidada. Constato que o futuro do Brasil continuará o mesmo e não mudará absolutamente nada.

Oh vida mais besta!

 

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2 comentários sobre “Nada mudou

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