Pintura poética

Autumn Rain

Pousa na sacada da janela, uma folha

amarelecida

caída da árvore que luta contra poluição do ar e fios

– que a sufocam.

Esquecida, é prenúncio do outono que

atrasado, reclama sua presença entre nós

O silêncio, cá dentro, dá o tom musical perfeito

para o encerramento do dia

Anoitece em Sampa.

 

Imagem: Google

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Despedida

camelia jardimPara muitas pessoas que não me conhece direito, posso parecer fria, distante. No entanto, sou pura emoção. Apego-me as pessoas e objetos. Mas, com a mesmo a rapidez, desapego e sigo em frente. Aprendi a ser assim para sobreviver a tamanha carga de emoção que carrego comigo. Se assim não fizesse, explodiria.

Agora à tarde, recebi a notícia do falecimento de uma pessoa que foi muito importante em minha infância e juventude. Uma tia que trazia como marca registrada, uma gargalhada contagiante. Mesmo com tanto sofrimento que transportou consigo em sua vida familiar, nunca deixou de lado sua risada aberta e alegre.

Para mim, na verdade, ela morreu há sete anos, quando teve um mal estar súbito e nunca mais saiu do coma. Seu olhar brilhante, cheio de vida, sua risada, calaram juntos naquele dia. Ficou apenas o envólucro carnal que a nada respondia.

Que ela, sua família e Deus me perdoem por nunca ter feito uma visita. Apesar de tudo, sou covarde. Assumo. Não tive coragem de vê-la ali, mergulhada no silêncio. Um corpo apenas. E isso, definitivamente, não era ela.Preferi mantê-la viva e feliz em minha memória. Será um erro meu negar-me a encarar a realidade? Pode ser mas, se assim for, prefiro apegar-me à lembranças boas da minha infância e ao último contato que tive com ela um dia antes de entrar em coma. Sua visita à minha casa foi como sempre divertido, com direito a muitas risadas e o abraço recebido por ela, hoje sei que foi uma verdadeira despedida. Não nos veríamos mais em vida.

Despregou-se a bela camélia deixando cair suas pétalas perfumadas. Ficam as lembranças de uma vida. De certa forma, sinto uma alegria imensa em saber que sua essência está liberta dos despojos carnais. Livre para iniciar uma nova história. E isso me conforta. Siga em paz C.

Contos de fadas numa nova roupagem

FullSizeRenderConvido todos para comparecer  ao lançamento DesContos de Fadas, sob a organização de Maria Esther Sammarone, Alink Editora.

Um projeto primoroso do qual tenho muito orgulho em participar ao lado de outros dezesseis grandes escritores.

O projeto se propôs a repensar os contos de fadas de forma bem-humorada sob a ótica das desilusões, reflexões, neuroses e modos de vida da sociedade moderna. Em diferentes vozes e estilos, aventuras originais ou recriadas, os textos deram novas vidas a princesas, anões, bonecos, sereias, lobos, marinheiros…”

O evento de lançamento será no dia 14/05/16, um sábado, no espaço Sensorial Discos. Rua Augusta, 2389 – Jardins, São Paulo – SP. Das 15h às 19h.
@link editora.

Ano estranho de se viver

cultura de massa

O carnaval passou e o ano de fato iniciou. E o agora vem repleto de dúvidas, temor, raiva e desconforto afinal, não sabemos o que nos aguarda. Ou, talvez saibamos mas preferimos fingir que nada sabemos.

O brasileiro, em sua já conhecida apatia (e eu, me enquadro nesse grupo), continua a olhar pela janela vendo o tempo passar. Exatamente como Chico Buarque tão bem exemplificou em sua canção Carolina. Passaram os blocos carnavalescos, os blocos da corrupção. Está passando a passos miúdos, o bloco da dengue,  com destaques para o zika e chikungunya.

E nós brasileiros, tomados pela apatia patológica, seguimos feito zumbis. Metendo a mão no bolso para pagar impostos que já se encontram embutidos em todas as mercadorias. Reclamamos porque fomos educados (ou devo dizer, adestrados?) para reclamar de tudo. No entanto, sentamos toda noite em frente a telinha, assimilando todo tipo de informação (verdadeira ou não). Não adquirimos o hábito de refletir sobre as mesmas e, tomamos como verdades absolutas, tudo o que vemos na tela do Plin-Plin.

Dessa forma, nossa circunferência se amplia dia a dia de tanto engolir sapos. Passamos mal, procurando a saúde pública que agoniza em estágio terminal. Compramos remédios nas farmácias sem nem saber se são bons para nossa saúde. Transformamos nosso organismo num mix farmacológico e ainda temos a cara de pau de falar em outras drogas e seus viciados. Não percebemos a quantia absurda que temos em nossos armários. Remédios de tudo e para tudo. Se automedicar, transformou-se na pós graduação que todos têm acesso na universidade da vida.Temos moral para criticar algo ou alguém?

Óbvio que não, contudo, mesmo assim seguimos nossa caminhada – ou devo dizer derrocada?, achando que sempre os outros é que são os errados na história da humanidade.

Só sei, que nada sei, diante de tantos acontecimentos, no mínimo, estranhos que tem surgido apenas nesse primeiro semestre do ano de 2016. Temo não ter raciocínio e fundamentos suficientes para poder analisar e criticar de forma consciente e correta. Só sei que sinto. E muito. Só sei que desejo. E muito.

Ver um dia nossa nação feliz, elevada e acima de tudo, consciente de seu papel.

Será sonhar demais? E sonhar demais, será errado?

Imagem: Google

Bem sucedida

woman-1253485_960_720Ela já deveria de estar acostumada. Tudo, absolutamente tudo em sua vida era difícil. Tudo o que outras pessoas conseguiam fazer de forma fácil e rápida, para ela, quando tentava, era uma confusão só.

É claro que agora, num novo projeto de vida, não seria diferente. Não para ela.

Bem que tentou, coitadinha. Buscou se informar. Criou um verdadeiro dossiê sobre o assunto. Leu, releu. Decorou.

Trocou ideias com várias outros conhecidos que já haviam passado pela mesma experiência. Formou um bom know-How.

Já estava começando a se sentir segura diante de tanta leitura e informação acumulada. Pensava inclusive de, num futuro, tornar-se coatching e repassar seus conhecimentos para frente.

Pobrezinha. Talvez tenha sido nessa hora que enfiou os pés pelas mãos, jogando sua grande oportunidade pelo ralo.

A queda e a negativa para realizar seu projeto de vida, foi um baque imenso. Deixou-a atordoada por várias semanas. Não dormia, não se alimentava, não conseguia mais trabalhar direito só pensando naquilo que lhe fora negado.

Por que?

Era a pergunta que ninguém respondia.

Todos conseguiram. Por que não eu?

Passado alguns dias, finalmente teve êxito imediato em algo: suicidou-se.

Imagem: Pixabay

Delírios após o almoço

Todo mundo tem uma válvula de escape para suas neuroses, preocupações do dia a dia, medos etc. Como faço parte da humanidade, tenho as minhas. Duas delas, vocês leitores assíduos, já conhecem: a escrita e a leitura. Mas tenho outras: música, meditação, pensar. Pensar obsessivamente em algo.

No momento, tenho um pensamento único, repetitivo. Acordo pensando, passo o dia com esse pensamento indo e vindo, volto a deitar em minha cama pensando, pensando, pensando.

Ainda trago comigo, aos cinquenta e três anos, a fantasia de que, se pensar demais, com muita intensidade, ininterruptamente, a coisa se concretiza. E eu quero. Muito. Que se concretize. Quero. Ordeno. Não admito que o destino seja filho da puta e me sacaneie. Realize o que desejo e ponto.

Mas não foi nada disso que estava disposta a escrever por aqui. O que me trouxe mais uma vez aqui, no blog, foi um texto de Caio Fernando Abreu, do livro A vida gritando pelos cantos.

É. Não adianta fazer caretas e revirar os olhos. Vou falar nele de novo. Gosto dele uai! Bom, se não gosta dele pode parar a leitura por aqui e vá ver o que Anitta fez com sua boca. Por aqui, falo de Caio F. novamente.

E por que falo dele? Simples: tudo o que ele escreveu, bate direto aqui, em mio cuore que pulsa incessantemente. Ao término de mais uma crônica lida, paro e penso:

Puta que o pariu, tinha de morrer antes de nos cruzarmos na esquina da Rua Augusta com a Avenida Paulista? Ou, tinha de sumir do planeta antes de nos esbarrarmos na Frei Caneca, indo ao shopping comer e depois pegar um cinema? Caio, que fique registrado minha revolta: Não te perdoo! E nem adianta ficar me olhando dessa forma.

Cara, tínhamos de ter nos esbarrado e fincado amizade. Trocarmos nosso parecer sobre a cultura, tricotar sobre os filmes da última mostra de cinema de São Paulo, trocar confidências sobre as paqueras do momento. Você se foi, antes mesmo de nossa primeira briga.

Mas também não era nada disso que queria escrever. Está vendo como você me tira dos trilhos?

O que queria mesmo, era dizer aos meus leitores, o quanto ler suas crônicas traz conhecimento geral sobre cultura, política, economia e o principal: conhecimento sobre as emoções humanas.

Só para citar um exemplo disso tudo que digo: na crônica Para embalar John Cheever, você me fez relembrar de um grupo musical que amava tanto que até hoje, tenho seu LP: Nouvelle Cuisine. Nunca mais soube nada dos músicos. Eram tão bons, talentosos, cool. Caio F. também me fez lembrar de Laurie Anderson (lembram dela?) e de Philip Glass (lembram dele?)

Caio me apresentou a canção Forgetting, letra de Laurie Anderson para a música de Philip Glass. Essa eu não conhecia e fui imediatamente buscar no Santo Google.

Esse cara (O Caio) sabia das coisas! Ouvi a primeira vez e não parei mais. Daí, busquei a obra de Philip Glass e, cá estou de fone de ouvido, absorvendo seu som maravilhoso no álbum com trilha sonora do filme As horas, baseado na obra de Michael Cunningham . Ah, não posso me esquecer de John Cheever que também foi apresentado à mim. Nunca li nada dele e agora, quero conhecer sua obra. Já vi que aqui na biblioteca não temos. Preciso providenciar.

Agora me responde: Caio é ou não é o Cara? Desde que comecei a ler sua obra, tenho aprendido tanto, relembrado tanta coisa que vivi nas décadas de oitenta e noventa e que foram engolidas pela rotina maçante que levamos. Só posso dizer que sou grata, por manter esse contato próximo através da leitura de suas crônicas e me enriquecer com tudo o que ele escreveu. Amo sua euforia, sua melancolia, sua ironia, sua tristeza com o rumo que o país tomava com toda a crise política e econômica que vivenciou. Vejo agora mais um ponto em comum entre nós.

Caio, nada mudou. A situação só foi maquiada por um tempo mas com o descuido, a máscara caiu revelando que nosso país ainda continua do mesmo jeito. Ou talvez pior.

Mas quer saber? Também não era nada disso que queria escrever. Mas foi bom falar do Caio pois assim, esqueci por alguns minutos daquele pensamento que tem me atormentado. Ih, voltou com tudo. Espera um pouco que vou ao banheiro ler mais um capítulo do livro afinal, minha vida também grita pelos cantos e percebi agora que meus cantos não andam nada arredondados. Estão de bico, pontudos e machucando. Será que chego viva até o final da semana? Haja coração!

PS: Alguém sabe do paradeiro dos rapazes do Nouvelle Cuisine? Laurie Anderson? Philip Glass?

 

Moça de fino trato

meninas-uniforme (16)

Maria Eduarda, Duda para os íntimos, é uma jovem criada em seio familiar exemplar. Estuda num tradicional colégio de São Paulo. Desde pequena, preparada para futuro casamento com um dos mais cobiçados herdeiros quatrocentão.
Mas nada disso a atrai. O que lhe causa comichão entre as pernas, é passar em frente as obras e ser assediada por peões.
Todos os dias, chega do colégio, sobe para seu quarto onde sacia seu desejo com seu cão pastor.
Se joga na cama, tira a calcinha e, de cócoras, se oferece ao animal. Acostumado a essa oferenda, lambe o botão rosado que fica à mostra latejando de prazer. O som da banda Led Zepellin nas alturas, encobre seus gritinhos.
Mas isso já se tornou pouco. Quer mais. Está de olho em um dos peões da obra, próximo do colégio onde estuda.
Mulato sarado, lábios carnudos, genitália avantajada que se pronuncia, cada vez que passa, desfilando com lascívia pela calçada. Olhar faminto que observa a cadência de seu quadril que se movimenta de forma provocante toda vez que por ali passa. A saia curta do uniforme o deixa louco!
Ainda cato essa menina! – pensa Benê enquanto bate uma massa de concreto.

– Acorda hôme! Tem trabalho pela frente. Vá catá aqueles bloco pra gente levantá uma parede aqui. Anda! Oh hôme sonhadô.

-Já vai Tião. Para de implicar comigo. Vê se acha outro pra encher o saco!

-Qué sabê? Tô pelas tampa de aturá esse olhá sonhadô de quem vive em outro planeta. Aqui, quero gente com pé fincado no chão e que não tenha medo de trabalho pesado. Entendeu? E agora chega de papo furado que o engenheiro já pediu rapidez na obra.

Final de tarde, clima abafado prenunciando o forte verão que se aproxima. Maria Eduarda sai pela portaria do colégio acompanhada de um grupo de meninas. Riem de tudo e formam verdadeiro pelotão feminino exalando sensualidade. Já não são mais meninas.São verdadeiras bombas de progesterona e estrógeno em ebulição.

-Final de semana fui a uma festa com o Nivaldo. Lá, fisguei uma figura gostosézima chamado Luís Henrique. Depois de dar uma perdida no Ni, me embrenhei com Luís no armário de dispensa da casa. Entre sacos de farinha, arroz e feijão, transei pra caralho. Saí de lá dolorida mas satisfeita. Depois voltei e fiz a linha certinha para Nivaldo dizendo que tive um desarranjo intestinal por isso sumi. Pedi para ser levada pra casa e ele, gentilmente me levou. Otário! Esse acho que vai ser para casamento mesmo.

-Credo Jussara! Você é sacana demais com o pobre Nivaldo. Ele é amarradão em você desde a sexta série.

-Tá falando o que darling? Mais fdp do que você foi com o Alê ano passado, impossível! Aprendi com a mestra!

-Tem razão. Já havia me esquecido desse episódio Jú! Caramba, o Alê ficou tão furioso comigo que nem sei como não me desceu o braço. Deve ser porque ele foi criado para ser um lord. Coitado, tão maçante, tão sem imaginação, tão certinho!

-E você Duda? Sempre calada, nunca comenta sobre suas paqueras, suas conquistas. Vou acabar pensando que é lésbica amiga!

-Sai fora Jú! A fruta que gosto você já comeu até o talo.

-Uau! Nunca tinha ouvido a Duda falar assim! Conta aí seu segredo. Começa já!

-Até conto mas…Meninas, prometem não rir de mim? Caso contrário, nunca mais olho na cara de vocês.

-Fala aí Duda. Solta a língua que somos pura curiosidade.

-Está bem Paloma. Eu conto mas, espera um pouco. Vamos naquele bar que quero comprar um sorvete. Está muito quente hoje.

-Logo esse boteco? Só tem peão aí. Credo! Devem feder até!

-Cala a boca. Entra que vai entender.

Sem entenderem nada, as meninas concordam e, juntas, entram naquele recinto repleto de ogros.

Ambiente com luminosidade precária, sujo, mesas e cadeiras engorduradas e mal cheirosas. O rádio tocando Reginaldo Rossi. Ao fundo, um grupo de homens suados e sujos tomam cerveja e aguardente. Interrompem a conversa ao perceberem a presença das moças. Um silêncio anormal toma conta do bar, sempre tão barulhento. Duda olha atenciosamente para todos e pára ao reconhecer o “príncipe” mulato. Alguém mais observador veria que seus olhos ganham um brilho diferente e os bicos de seus pequenos seios entumescem. A camiseta branca do colégio não consegue esconder sua excitação. Suas mãos suam frio e um pequeno fenômeno nas partes baixas acontece deixando-a alterada.

As amigas olham-se sem entender o que está acontecendo e o porque de Duda ter escolhido entrar naquele lugar nada comum à elas.

Com esforço, Duda vai até a geladeira dos sorvetes Kibon e pega um picolé de morango com chocolate. Abre o envólucro com mãos trêmulas e dá uma lambida provocativa no sorvete. Olha para o peão que, de boca aberta pingando um pouco de cerveja, se paralisa diante de tamanha provocação.

Ainda cato essa menina. Tô ficando de pau duro só de ver ela lambendo esse sorvete. Ela tá me provocando e eu vou dar o que ela quer.

-Vocês não vão pegar um sorvete também? – Duda pergunta às amigas tentando disfarçar seu nervosismo.

-Não estamos com tanto calor assim Duda. Paga logo o sorvete que a gente te espera lá fora.

Assentindo, Duda se dirige ao caixa no final do bar. Paga e ao voltar-se, tropeça bem de frente ao mulato que, segurando-a pela fina cintura , vê seu rosto quase colado ao da branquinha cheirosa. Assusta-se ao ouvir sua voz rouca e baixa sussurrar em seu ouvido:

-Te quero moreno. Tô louca pra dar pra você.

Não acreditando no que tinha acabado de ouvir, vê a moça sair do bar rebolando na minúscula saia xadrez do uniforme. Chega a sentir dor de tanto tesão. Vira e vai para o banheiro bater uma punheta pensando na menina rica.

Que loucura, ela tá me dando bola!

Na calçada, caminham uns minutos em silêncio.

-Duda, é impressão minha ou você quis entrar naquele boteco por conta do peão de obra sarado que não tirava os olhos de você?

– É isso mesmo Duda? A Paloma está certa? Você ficou toda corada ao olhar para ele. E ele também ficou babando por você. Cara! Tá maluca? Um peão? Com tantos carinhas bonitos a nos paquerar e que são de nosso meio.

-Vocês não queriam saber meu segredo? Então, estou contando em primeira mão: quero perder minha virgindade com esse cara. Não aguento mais pensar nele e fantasiar que transo com ele até perder os sentidos. Vocês observaram o tamanho do pau dele? Está decidido. Já comuniquei à ele meu desejo e vou ficar na espera da sua decisão. Tenho certeza que ele também me quer.

-Natural que ele vai te querer Duda. Para um cara como ele, você será uma iguaria refinada para comer até se lambuzar. Talvez nem saiba como pegar em você.

-Tenho certeza que ele vai saber. Aliás, quero mais é que ele me trate feito putinha e não como uma princesa delicada e refinada. Quero me sentir o lixo, a escória. Puta de quinta. Entenderam minha fantasia?

Caminharam mais alguns metros em total silêncio. Cada uma imersa nos próprios pensamentos sobre a revelação de Duda. Esperavam tudo, menos isso.

-E eu me achando a mais louca da turma. Duda, Parabéns, me superou! Não esqueça de contar tudo depois. Nos mínimos detalhes.

 

Imagem: IMGMOB

Nada mudou

Quase não dormi a noite. Acordei várias vezes, inclusive, para socorrer minha irmã cadeirante que – desculpe a rima, num roupante, levantou correndo no escuro, descalça e caiu. Báh!

Fui arrancada do mundo de Sandman e, com o coração galopante, socorri a pobre que, desesperada para urinar, esqueceu-se de que não anda. Pode?

Com o espírito ainda dormente, levei-a ao banheiro, fui em busca de roupas limpas pois com o baque, urinou-se toda, corri em busca do pano de chão para limpar todo líquido espalhado pelo quarto e banheiro.

Calma que o dia ainda nem começou. No caminho ao trabalho, refleti sobre o quanto as coisas andam esquisitas por toda parte. Será que sempre foram e eu é que não percebi?

Na plataforma lotada da estação de trem, observo centenas de rostos que trazem em comum, uma única máscara: indiferença. Acompanhada, claro, de um smartphone e sua extensão: fone de ouvido. Em plena sete horas da manhã, olhos embaçados de sono fixados na telinha led buscando um pouco de alegria nas redes sociais. Ninguém se olha, ninguém se importa com o companheiro ao lado.

Outro dia, na academia, enquanto corria na esteira ouvindo George Michael, distraí, olhei para o lado de forma brusca, deixei cair meu celular. Num ato impensado, tentei pegá-lo e, quando dei por mim, já mirava o chão. Cena digna de um vídeo show do Faustão. Mico total. Fechei os olhos e entreguei minha alma a Deus pois vi que o corpo já era. Estatelada no chão, com o cotovelo arrebentado e já começando a sangrar percebi que ninguém me notou.

Gente, sabe o que significa para um nativo de câncer passar desapercebido? Meu sangue subiu para esferas altíssimas tamanha minha indignação. NINGUÉM PERCEBEU?

Peguei os cacos de minha dignidade junto do celular, voltei a esteira e corri mais trinta minutos numa velocidade de atleta olímpico. Convenci-me de que tenho um cardio em ótima forma assim como meus ossos. Depois, fiquei duas semanas de molho me recompondo. Ninguém sentiu minha falta. Ainda inconformada.

Mas olha, não era nada disso que queria falar. Na real, o que queria comentar por aqui com vocês, é que, lendo o livro A vida gritando nos cantos, de meu querido, amado e idolatrado Caio Fernando Abreu, notei o quanto as coisas desde a época em que ele escreveu tais crônicas, não mudaram nada.

Oh vida mais besta!

Crônicas escritas no ano de 1987 continuam assombradamente atuais. Sua crônica intitulada Um prato de lentilha mostra um Brasil que praticamente não mudou nada. Os mesmos personagens políticos (Eca!), as mesmas questões sociais em debate, os mesmos ou iguais conflitos mundiais, a mesma falta de dinheiro e de perspectiva de vida.

Oh vida mais besta!

E eu aqui, na biblioteca, rodeada de adolescentes idiotizados, mimados e sem preocupação a não ser com o próprio umbigo cheiroso de cria bem cuidada. Constato que o futuro do Brasil continuará o mesmo e não mudará absolutamente nada.

Oh vida mais besta!

 

Simples assim

Hoje acordei sentindo falta da simplicidade. No passado, saí do meu cotidiano sem verniz, sem fru-fru para conhecer e absorver um mundo que hoje, sei que não me pertence. Ou eu é que nunca pertenci à ele.

Aprendi muito nesses anos. Conheci pessoas interessantes, intelectualizadas, detentoras de verdades que não são a minha verdade. Tentei fazê-las minhas mas, soou falsa. Nem eu acreditei. Criei um personagem para desfilar nesse palco. Convenci alguns, menos a mim. Hoje, consciente do que verdadeiramente sou, retorno às minhas origens. Quero voltar a ser eu mesma. Vestir minha velha calça jeans desbotada e rasgada – mas que ainda me serve. Quero andar descalça, sujar meus pés. Esquecer no armário, meus inúmeros sapatos Louboutin. Não preciso mais deles. Meus livros, doarei para alguma biblioteca comunitária da periferia. Não preciso mais de leituras. Não posso mais perder tempo. Preciso viver. Intensamente, viver! Deixar as horas passarem ao seu bel prazer. Jogar fora todos os relógios, inclusive o smartphone. Não preciso mais de um mundo virtual. Careço do real.

Pretendo voltar a conviver com pessoas analfabetas, desdentadas, que são lúmen da verdadeira sabedoria. Desejo viver ao lado dessas criaturas que não temem o olho no olho e que são detentoras de um sorriso fácil.Quero voltar a me emocionar com os acordes simples da viola. A orquestra e seus acordes sofisticados não me emociona mais. É isso. Quero brisa no coração. Dessa fogueira das vaidades, quero distância. Não alimento meu ego com elogios falsos. Muito menos necessito de amizades interesseiras. Desse mundo me fartei.

Hoje, retorno a calmaria das tardes regadas a um bom café feito no coador de pano, acompanhado de um pedaço generoso de bolo de fubá e uma companhia real de quem me reconhece como sou e me aceita assim, sem máscaras, sem dissimulações. Simplesmente humana.