Fiando-se nas tais tecnologias

moça e computador

De boca semi aberta, olho para todos na sala em que trabalho. Cada um em seu cercadinho, em seu mundinho virtual, fingindo trabalhar, quando na realidade, navegam em suas redes sociais deixando o real, suspenso no ar. E eu, agarrada na ponta desse real, quase caindo no limbo da indiferença de todos.

Acabei de comentar algo que acreditava ser do interesse de todos ali presente e, no entanto, ganhei o silêncio desanimador daqueles que não estão nem aí para você.

Confesso que me senti do tamanho de uma nanomolécula perdida no espaço sideral. E, tomando meu café amargo, continuei olhando a todos e confirmando que, não estava enganada, encontrava-me mais invisível que o próprio personagem de H. G. Wells.

Não satisfeita, falei num tom mais alto e agudo várias baboseiras, fiz careta, peidei alto.

Nenhuma manifestação de que tinham me ouvido. Não contente e agora, emputecida, esbravejei um palavrão na área da sala em que mais tem eco. Olhei e…Nada.

Todos continuavam indiferentes a mim. Vencida pela total falta de interesse pela minha pessoa, saí da sala batendo a porta e ainda olhei para trás na esperança de ter acordado algum deles dessa apatia coletiva. Não obtive sucesso. Até que, caminhando pelo corredor em direção ao banheiro, tive uma brilhante ideia! Esse lampejo criativo luciferiano, foi se formando em meu cérebro super estimulado pela cafeína.

Caí na gargalhada.

Passado alguns minutos de minha não notada saída, regressei encontrando a sala agitada. Todos falavam e gesticulavam ao mesmo tempo transformando o ambiente num movimentado pátio de colégio em pleno recreio.

-Credo gente, o que aconteceu? Lá de fora se ouve esse mercado de peixe.

-Ah é…Roseli, onde você estava que não viu o que aconteceu?

-Fui até o departamento médico. Minha pressão estava baixa… Eu falei pra você ao sair mas parece que estava muito ocupada.

-Hum é. Devia estar mesmo. Nem ouvi. Mas olha, de uma hora para outra, a rede da empresa caiu. Ficaremos sem internet por pelo menos uns dois dias. É o fim! É o fim!

-Nossa…Que coisa não? Vá confiar nessas tecnologias

 

Imagem: NegativeSpace

 

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Aquela puta amizade que foi sem nunca ter sido

Afinidade pura! Certa vez, um grande amigo meu – daqueles que são alma gêmea -, iniciou um gesto que achei divino: escrever cartas para seus amigos utilizando textos de escritores famosos (ou não) que tivessem tudo a ver com o destinatário. Estava prestes a fazer aniversário quando recebi sua carta. Linda, num envelope carmim, selado com ex-libris em cera derretida. Achei um luxo!

Mas, o que mais me encantou e sensibilizou, foi o conteúdo da carta: um texto de Caio Fernando Abreu: Os sapatinhos vermelhos presente na coletânea Os dragões não conhecem o paraíso. Desculpem minha ignorância, mas ainda não conhecia esse escritor. Logo eu, uma devoradora de livros e conhecedora de autores do mundo todo. Li, reli várias vezes. Emocionei em todas as leituras. Guardo até hoje essa correspondência. Assim como as demais que recebi do mesmo amigo. São verdadeiros tesouros que nenhum valor monetário cobre.

A partir daquela carta, busquei livros de Caio como alguém perdido num deserto que busca por água. Quanta identificação com seus pensamentos, suas palavras!

Hoje, passado alguns anos, voltei a pegar um livro de Caio, A vida gritando nos cantos.

Fui almoçar e levei-o comigo para uma breve leitura após a refeição. Sentei-me ao sol, abri o livro e mergulhei em suas crônicas. Quase perdi a hora de passar o crachá e retornar ao trabalho.  Atenta na leitura, nem percebi o quanto o sol estava quente e agressivo.

Fui ao banheiro e vi que estava um pimentão de tão vermelha. Não liguei. Meu coração encontrava-se aquecido pelas suas palavras. E cheguei a seguinte conclusão: se tivesse tido oportunidade de conhecê-lo em vida, tenho certeza que teríamos sido grandes amigos! Amigos de uma vida inteira. Amigos de se sentar, abrir uma garrafa de vinho, botar uma música de Marina Lima na vitrola (coisa mais antiga, mas se encaixa perfeitamente no texto), e passaríamos a noite trocando figurinhas sobre a vida.

Nem veríamos a manhã chegar e nem perceberíamos os pássaros cantando anunciando um novo dia.

Sinto não tê-lo conhecido. Choro internamente essa chance perdida. No entanto, consolo-me através das leituras de seus contos, crônicas e cartas. Registros que ficaram para a eternidade e para corações sensíveis. Feito o nosso.

Exercitando a pequenez para engrandecer

Vaidade. Segundo Houaiss: qualidade do que é vão, vazio, firmado sobre aparência ilusória. Futilidade… E por aí vai mais tantos outros atributos a uma qualidade (ou será falta dela?) que determinadas pessoas possuem.

Introduzi esse texto com essa pequena explicação firmada por um estudioso, justamente para discorrer sobre esse traço comportamental que tanto afeta as pessoas.

Num mundo onde o importante é parecer e não ser, de fato, a vaidade passou, de defeito vergonhoso, a um atributo dos mais cobiçados. Em todas as áreas, esbarramos com pessoas desvergonhosamente infladas pelo excesso de vaidade.

E as criaturas piram ao redor de seus umbigos!

Cruzo diariamente em diversos locais com pessoas portadoras desse mal. Elas não sabem. Elas ainda não têm consciência do mal que as assolam. São dignas de pena, pobrezinhas. Se acham a última cocada da embalagem. Mal sabem do quanto servem de chacota das demais pessoas que convivem com elas. Mal sabem que, de pessoas, passaram a personagens dessa que por hora vos escreve. Aliás, são elas que me inspiram à exaustão, na criação de minhas obras literárias. Só tenho a agradecer!

No entanto, pobres seres. Esquecem que todos, sem exceção, temos data de validade e nunca sabemos quando essa validade expira.

Em nome dessa vaidade, tenho presenciado atitudes absurdas, quando não, desrespeitosa e irresponsável.

Por conta disso tudo, procuro sempre tomar precauções para não reproduzir tal comportamento. O mundo já está abarrotado de seres inflados. O mundo carece de pessoas mais pé no chão e humildes. E humildade aqui, não significa ser fraco de espírito. Muito pelo contrário. Ser humilde, é ter a grandeza em se manter “pequeno” para não ofuscar olhos já tão embaçados pela futilidade. Procuro na medida do possível, fazer parte desse grupo que preza a beleza natural das coisas e pessoas. Menos é mais. Sempre.