I feel so bad

Tombo a cabeça no encosto da poltrona. Ouço ao longe a colega que conversa animadamente com sua companheira de baia. Invejo seu entusiasmo. Se é falso não sei dizer mas por hora, convence. Um cansaço de vida me assola retirando o pouco de energia que meu corpo ainda tem. Estou na reserva, o alarme vermelho soa alto mas nem ligo. Quero sumir daqui. Cair num abismo deixando para trás cargo, salário, casa, família, amigos, tudo.

Num instante, nada disso tem importância. Tudo, absolutamente tudo deixou de ser importante. Nada me fará falta. Nem mesmo aquele amor que achava que sentia por você, homem das cavernas. Para onde sigo, não precisarei de você, nem de nenhum outro ogro que me faça carinhos. Teclo essa carta de despedida ligada no piloto automático. Esvaziei-me de sentimentos. Estou oca.

Um jovem de seus treze anos adentra o espaço carregado de livros e cadernos. Carinha de nerd, senta-se com foco voltado aos estudos. Solto um riso de escárnio pois sei que todo estudo será em vão. Ele também não escapará…

Assusto com meus próprios pensamentos. Nunca os tive tão negros quanto agora. Não é de minha natureza ser assim. Mas constato que mudei e muito. Estou árida. Nem lágrimas tenho mais. Os médicos disseram que sofro de síndrome do olho seco. Tenho outra linha de diagnóstico. Minha secura é da alma e não apenas dos olhos. Aliás, eles só refletem o que carrego nela. E no momento, tenho a minha arenosa.

Sinto-me próxima de Schopenhauer. Logo ele que tanto combati no passado achando-o deprimente. Hoje, estou lado a lado  de sua personalidade sombria e pessimista.

Numa última tentativa de escapar dessa sensação ruim, busco algo olhando pela janela. Quem sabe vislumbro algo que me tire desse torpor.

Observo que venta muito. Os galhos das árvores bailam por entre fios elétricos. Uma pomba encardida defeca no parapeito e me olha como que perguntando: Que foi, nunca viu?

Sorrio de forma amarga e digo em voz baixa que ela sim é feliz. É livre. Até mesmo para cagar onde quiser sem se preocupar com o que os outros irão pensar.

Desvio o olhar da pomba e vejo um senhor de rosto vincado pelo tabaco e talvez também pela vida. Dá um trago profundo e segura por alguns segundos a fumaça. Levanta seus cansados olhos e encontra os meus. Permanecemos alguns segundos olho no olho e após constatarmos que nada temos a oferecer um ao outro, desviamos. Ele, solta um pigarro e entra no boteco em frente. Eu, disfarço minha sensação de vazio e aciono a cafeteira elétrica pela enézima vez e busco no café um pouco de prazer. Em instantes, o aroma da cafeína inunda o ambiente e preenche-me de um fugaz prazer.  Entretanto, ao término de mais essa xícara, apenas um azedume ácido permanece. Volto a estaca zero.

Penso que para dar cabo dessa minha insignificante vida terei muito trabalho. Desisto. Sigo adiante com mais um dia enfadonho. Carimbo, enumero, catalogo, guardo livros em ordem alfabética e assim, mais um dia vejo terminar. Passo o cartão da empresa e finalizo minha contribuição. Deveria estar feliz mas a única coisa que sinto retornando para o lar é um peso e um vazio imenso que não sei explicar. Já no ônibus, na solidão imposta pelo fone de ouvido conectado ao Spotify, ouço Ella Fitzgerald. Absorvo a paisagem urbana recordando uma frase de uma amiga:

“Mais um dia. Menos um dia”.

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10 comentários sobre “I feel so bad

  1. Roseli, vc é incrível! Os grandes escritores conseguem descrever alguns simples minutos como sendo um conto a ser absorvido imediatamente. Mais um dia, menos um dia, mais um texto pra eu ler… rsrsrs Beijos!

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