Sabe aquela vontade de falar?

morder a lingua

Sigo alucinada numa atitude mecânica de retirar velhas etiquetas de uma antiga coleção italiana de grandes pensadores. Entre o manuseio do estilete, que rasga as etiquetas ao meio e a limpeza das impurezas da cola envelhecida, procuro manter minha mente em paz.

Tudo em vão.

Descobri que também sofro de ansiedade. Doença contemporânea que assola cento e um por cento da população. E eu que me achava livre disso! Engrossei a estatística.

Uma náusea sobe me fazendo fechar os olhos e minha boca se contrai, numa inútil tentativa de brecar o vômito. Saio correndo para o banheiro.

Lá, num instante bulímico, jorro todo o conteúdo do almoço e junto, vai a matéria que me envenena a alma: a ansiedade. Como diz o outro: Garrei um ódio dessa mardita!

Ela tem acabado com meu aparelho gástrico e com minhas horas de sono. Ela é sorrateira. Vai se manifestando de fininho à partir do momento em que abro os olhos pela manhã. Mas isso, quando consigo pregar os olhos. Ultimamente não tenho tido esse privilégio. Daí, minha máscara de panda.

Agora, por exemplo, enquanto trabalho limpando e catalogando essa coleção, minha mente divaga e vai pra bem longe daqui. Sigo para meu objeto de desejo do momento.

Meu amante inatingível que teima em escapar de minhas mãos. Sei que cederá e um dia será todo meu mas, enquanto isso não concretiza, sofro as dores do martírio. A espera me assola o espírito.

Descubro-me impaciente. Logo eu que, tantos anos a fio, fui discípula de Yogananda. Eu que tive, através das leituras e exercícios do professor Hermógenes, completo controle de minha respiração e músculos. Tudo se tornou inoperante porque ela – a ansiedade -, encontra-se no controle. E eu, pobre mortal, fico à mercê de seus caprichos.

Por instantes senti um forte desejo de copular mas, no momento, não tenho ninguém a quem recorrer. Até lembrei de meus brinquedinhos íntimos no entanto, sei que serão inúteis. Pelo menos para esse momento. Quem sabe num outro contexto de vida volte a descer e brincar no playground.

A solidão é boa, gosto dela. Contudo, nesse exato momento, gostaria de ter alguém aqui do meu lado para me abraçar, beijar minha testa e assegurar que conseguirei tudo o que almejo.

Aliada à ansiedade, encontra-se lado a lado numa íntima amizade, a vontade de abrir a boca e falar tudo aquilo que não posso. Não posso, entende? Não agora.

Logo eu que sempre fui uma matraca, ter de ficar em silêncio está acabando comigo. Minha língua já tem cicatrizes de tanto que a tenho mordido nos últimos dias. Aconselharam-me a não abrir o bico. Afugentar a inveja. Compreendo.

Mas olha, está difícil. Diria até que é obra impossível de se concretizar. Permanecer em silêncio absoluto. Não fui talhada para isso. Se assim fosse, teria optado por ser uma irmã da Ordem das Carmelitas Descalças. Gosto da contemplação mas, de preferência, ao lado de alguém com quem comentar as belezas da vida. E quer saber?

Vou parando por aqui porque a vontade de dizer “aquilo” está voltando com força total. Antes que cometa algum delito, calo-me diante da platéia. E respiro fundo. E solto o ar. E volto a inspirar. Novamente expiro.

-Ai Meu Deus, quero tanto gritar ao mundo que… Nhác! 

Calalomoudiminhalíngadenovo!

 

 

 

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I feel so bad

Tombo a cabeça no encosto da poltrona. Ouço ao longe a colega que conversa animadamente com sua companheira de baia. Invejo seu entusiasmo. Se é falso não sei dizer mas por hora, convence. Um cansaço de vida me assola retirando o pouco de energia que meu corpo ainda tem. Estou na reserva, o alarme vermelho soa alto mas nem ligo. Quero sumir daqui. Cair num abismo deixando para trás cargo, salário, casa, família, amigos, tudo.

Num instante, nada disso tem importância. Tudo, absolutamente tudo deixou de ser importante. Nada me fará falta. Nem mesmo aquele amor que achava que sentia por você, homem das cavernas. Para onde sigo, não precisarei de você, nem de nenhum outro ogro que me faça carinhos. Teclo essa carta de despedida ligada no piloto automático. Esvaziei-me de sentimentos. Estou oca.

Um jovem de seus treze anos adentra o espaço carregado de livros e cadernos. Carinha de nerd, senta-se com foco voltado aos estudos. Solto um riso de escárnio pois sei que todo estudo será em vão. Ele também não escapará…

Assusto com meus próprios pensamentos. Nunca os tive tão negros quanto agora. Não é de minha natureza ser assim. Mas constato que mudei e muito. Estou árida. Nem lágrimas tenho mais. Os médicos disseram que sofro de síndrome do olho seco. Tenho outra linha de diagnóstico. Minha secura é da alma e não apenas dos olhos. Aliás, eles só refletem o que carrego nela. E no momento, tenho a minha arenosa.

Sinto-me próxima de Schopenhauer. Logo ele que tanto combati no passado achando-o deprimente. Hoje, estou lado a lado  de sua personalidade sombria e pessimista.

Numa última tentativa de escapar dessa sensação ruim, busco algo olhando pela janela. Quem sabe vislumbro algo que me tire desse torpor.

Observo que venta muito. Os galhos das árvores bailam por entre fios elétricos. Uma pomba encardida defeca no parapeito e me olha como que perguntando: Que foi, nunca viu?

Sorrio de forma amarga e digo em voz baixa que ela sim é feliz. É livre. Até mesmo para cagar onde quiser sem se preocupar com o que os outros irão pensar.

Desvio o olhar da pomba e vejo um senhor de rosto vincado pelo tabaco e talvez também pela vida. Dá um trago profundo e segura por alguns segundos a fumaça. Levanta seus cansados olhos e encontra os meus. Permanecemos alguns segundos olho no olho e após constatarmos que nada temos a oferecer um ao outro, desviamos. Ele, solta um pigarro e entra no boteco em frente. Eu, disfarço minha sensação de vazio e aciono a cafeteira elétrica pela enézima vez e busco no café um pouco de prazer. Em instantes, o aroma da cafeína inunda o ambiente e preenche-me de um fugaz prazer.  Entretanto, ao término de mais essa xícara, apenas um azedume ácido permanece. Volto a estaca zero.

Penso que para dar cabo dessa minha insignificante vida terei muito trabalho. Desisto. Sigo adiante com mais um dia enfadonho. Carimbo, enumero, catalogo, guardo livros em ordem alfabética e assim, mais um dia vejo terminar. Passo o cartão da empresa e finalizo minha contribuição. Deveria estar feliz mas a única coisa que sinto retornando para o lar é um peso e um vazio imenso que não sei explicar. Já no ônibus, na solidão imposta pelo fone de ouvido conectado ao Spotify, ouço Ella Fitzgerald. Absorvo a paisagem urbana recordando uma frase de uma amiga:

“Mais um dia. Menos um dia”.