Deu branco

Voltando de um almoço maravilhoso a base de fundo de alcachofra recheado, baby beef à milanesa, salada verde e um suco natural de abacaxi e hortelã, sentia-me satisfeita. Retornei revigorada por esse manjar dos deuses. Esse restaurante novo prometia se tornar meu preferido. Antes de iniciar minhas tarefas decidi tomar uma xícara de café para fechar com chave de ouro. Por que não passei direto para minha sala? Por que?

Enquanto ouço o som agradável da máquina moendo os grãos, chega Marcelina com sua voz irritantemente irritante.

-A essa hora e ainda não me cumprimentou? Isso sim é o que chamo de colega de trabalho! Bom dia querida! Ou será que devo dizer Boa tarde? Já almoçou não é mesmo? Pelo horário…

Dizendo essa última frase, revirou seus olhos esbugalhados como sempre fazia. Coitada, deve se achar linda fazendo charme.

Apenas esboçando um amarelado sépia como desenho de um sorriso, bem que tentei ser simpática com a figura. Mas como é difícil! Tive uma crise de tosse e acabei por respingar meu tão sonhado e querido café. Abaixei segurando alguns guardanapos de papel para limpar a sujeira. Foi quando Marcelina deu um grito estridente que fez todo o andar parar para ver o que acontecia:

-JesusMariaeJosé! Toda a Trindade Santa da Igreja Católica Romana! Mamãe! O que é isso em sua cabeça?

Assustada assim como as demais pessoas que se aproximaram, levei a mão esquerda ao topo da cabeça para averiguar o que tinha por lá. Não encontrei nada e balançando a cabeça e já fechando a cara passei um novo café.

-Menina, que relaxo é esse? Logo você que sempre foi tão vaidosa, um espelho para as demais mulheres dessa empresa…Tá apertada de grana, tá? Olha, se estiver posso te emprestar alguns e quando estiver melhor você paga. Se estiver muito, mas muito apertada mesmo, além de te emprestar a grana, faço o serviço sem cobrar nadica de nada – e falando isso numa voz baixa mas o suficiente para todos ouvirem, piscou o olho e entortou a boca numa inútil tentativa de se fazer camarada. Meu sangue subiu.

-Pelamordedeus como você sabe ser chata e inconveniente não Marcelina. Mamãe digo eu! Ai que devo ter atirado bosta na cruz e grudado chiclete Adams na testa do mano. Sai exú, me erra de vez em sempre tá bom? Não fala nada com nada! Esqueceu de tomar seu Risperdal hoje foi? Dhãã!!

Piscando algumas vezes e não tirando os olhos de minha cabeça, soltou um riso nervoso e, desafinando, disse:

-Seu cabelo colega. Filinha, você está com quatro dedos de raiz aparecendo. Criatura, pára com isso e vá hoje mesmo mudar isso que tá um horror! Está parecendo minha tia avó.

Sabe aquele segundo que dura uma eternidade onde em sua mente passa um filme inteiro de terror de terceira? Pois é, passou um agorinha em minha telinha e o massacre da serra elétrica acontecia tendo como sua vítima destroçada, Marcelina. Sorte dela que não seja uma psicopata senão..

Dei as costas e voltei para minha mesa recebendo inúmeros olhares constatando se realmente minha cabeça estava como Marcelina descreveu. Fervi por dentro. Iniciava uma planilha no Excell quando uma sombra escureceu meu lado direito. O que? Pensou que estava tento um AVC? Antes fosse. Era Marcelina.

-Criatura, volte para sua mesa e faça seu serviço que está todo empilhado te aguardando. Para de cuidar da vida alheia. Já te falei: Me erre!

-Estou preocupada com você. Está deprimida? Olha, se quiser te passo o endereço de meu psicólogo. Divido ele com você na boa. Isso é um quadro depressivo clássico. Foi aquele seu último namorado não foi? Deve ter um dedo dele nessa história toda. Não liga não que logo logo outro aparece mas primeiro, precisa se cuidar senão o único que vai conquistar é o Papai Noel UAUAUAUA!!! Desculpa mas não resisti a piada ainda mais sendo época natalina.

Fiquei em silêncio mortal olhando minha telinha do computador. Cenas de Walking Dead desfilam em sua forma mais violenta espirrando sangue por toda a sala.

Olho Marcelina nos olhos e pergunto o que tanto a incomoda em meus cabelos grisalhos aparecendo.

-Você sempre foi meu exemplo de mulher, charmosa e bem transada como seu visual entre clássico e moderno além de muito feminina. O oposto de mim. Mas agora, vendo você assim relaxada com sua aparência, fiquei decepcionada. Tinge logo esse cabelo vai!

-Marcelina, estou assumindo de vez meus grisalhos e não estou nem aí para o que pensam. Não estou preocupada em agradar aos outros mas sim a mim. E no momento, o que mais quero é ver meus cabelos branquinhos. Estou liberta dessa escravidão. Salão de agora em diante, só uma vez ao mês para cortar e olha lá!

-Mas está feio, te envelhece!

-Marcelina, todos envelhecem. Ninguém nunca te bateu essa não? É fato. E quanto antes você se tocar e assumir, melhor para você. Vai por mim.

-Não gosto! Te quero como antes. Bonita, bem cuidada e jovial. Assim tá feio! – e batendo na minha mesa saiu derrubando algumas pastas de documento deixando a mim e aos demais colegas que a tudo assistiam de queixo caído.

-Galera, o circo fechou. Voltem para suas baias e trabalhem. A palhaça aqui tem muito o que fazer. Ah! Antes que me esqueça: vão tratando de acostumar com meu visual que daqui prá frente ele só vai branquear. E dane-se o que pensam. Quero mais é curtir essa minha nova fase.

Gentem nunca pensei que enfrentaria tanta resistência das pessoas por querer deixar meus cabelos branquinhos como de minha mãe. Mas o mais difícil, o mais sacal, é aguentar diariamente os olhares de Marcelina. Deve ser cármico. Só pode! Vou aguentar nessa para na próxima encarnação não vir junta. Ninguém merece né!

 

Imagem: Google

 

 

 

 

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