Resgate

bau velho

Foi com alegria e certa curiosidade que encontrei no fundo do porão da antiga casa de minha avó, um velho baú. A peça foi do meu avô e encontrava-se coberto de pó e teia de aranha. Tossindo um pouco devido a minha alergia, precisei levantar do chão, me afastar e acalmar os pulmões agredidos pelo excesso de pó e lembranças.

Voltei para perto do baú e, respirando fundo, abri. Uma profusão de fotos, correspondências, bottons, pulseiras, apito e muitas outras coisas antigas guardadas de forma desorganizada dentro da peça.

Meus olhos se encheram d’água. Em parte pelo tanto de lembrança que retornaram de tão profundas gavetas da memória. Em parte, pelo tanto de cheiro de velharia, mofo e umidade que exalava do baú.

Com esforço, empurrei o baú para perto da única janela que existia no porão, que dava para o jardim. para melhor respirar e remexer aquilo tudo. A curiosidade falando mais alto. Sentei feito índio e comecei a jogar tudo pra fora e selecionar as inúmeras fotos P&B, binóculos, álbuns com suas capas rotas e amarelecidas pelo tempo.

Iniciei a investigação pegando foto por foto e tentando identificar ano, pessoas, lugares.

Numa foto quase apagada, reconheci a antiga estação de trem da minha cidade. Digo reconheci, porque já vi outras fotos da mesma época, num enorme painel em eterna exposição no museu da cidade. Na minúscula plataforma, está um grupo de pelo menos dez pessoas. Homens de terno, gravata e chapéu de feltro. Mulheres de vestido rodado, salto agulha ou sapatilha, cabelos presos num coque ou num rabo de cavalo ou com presilhas. Reconheço minha mãe entre as mulheres. Garota de seus quinze anos, cabelos cacheados na altura dos ombros, saia rodada e plissada, blusa de ban-lon, sapatilha e meia soquete. Parei ali, naquela figura que se perdeu no tempo. Naquela menina que não cheguei a conhecer mas que me era tão familiar apesar da distância. Todos sisudos na fotografia. Típica pose da década de 50.

Reconheci a irmã mais nova de minha mãe que se vestia de forma semelhante mas, com a diferença de usar salto alto.

Tão lindas! Tão jovens! Tão cheia de sonhos!

Sonhos…Essa ideia ficou martelando e questionei quais seriam os sonhos que elas acalentavam naquele momento vivido? Sei por palavras de minha própria mãe que ela não tinha tempo para sonhar. A vida sempre foi dura para ela e não foi dado a chance nem o direito a sonhos. Segundo ela, aceitava o que a vida lhe ofertava.

Sempre que ela dizia isso, me causava mal estar. Para mim, eterna e assumida sonhadora, a vida sem eles era praticamente impossível. O que veio depois eu soube, acompanhei de perto a luta das duas para enfrentar tantos reveses que a vida apresentou. Sei que, apesar das diferenças existentes entre elas, sempre foram amigas e companheiras. Com o passar dos anos, minha mãe se anestesiou. Minha tia, amargou e envelheceu barbaramente.

Olhando novamente as fotos – sim, fotos pois encontrei outras do mesmo passeio, um piquenique no Pico do Jaraguá, reconheci duas amigas de minha mãe e tia que até hoje frequentam minha casa. Nas fotos, duas moçoilas irradiando juventude. Hoje, uma está quase cega e paralítica. A outra, ácida e revoltada com o que a vida lhe presenteou. Desquitada, mãe de um único filho que herdou sua revolta, tornou-se uma religiosa da pior espécie não vendo a hora de morrer para ganhar o céu. Coitada! Ainda crê nisso! A outra, mesmo cega e sem poder andar, manteve a chama da alegria e serenidade acesas dentro de si, sendo uma presença amorosa que dá prazer em reencontrar.

Daquelas fotos, a maioria das pessoas ali presente no piquenique já estão mortas ou a beira de. Por instantes, bateu uma fina dor em meu peito ao ver o quanto a vida é efêmera. Passamos por ela numa velocidade atroz. Nos binóculos, reconheci a criança que fui ao lado de minha irmã mais velha e duas primas. No meio delas, em frente ao portão da minha antiga casa, estava registrada para a eternidade, uma criança de seus três anos, ridícula num vestidinho curto deixando à mostra uma fralda avantajada deixando-me parecida com uma saúva branca. Comecei a rir da comparação. Cabelinho tigela, liso e ralo, olhar distante de quem não estava entendendo nada e o eterno dedo na boca. Sempre tive essa mania. Até hoje gosto de ficar assim. Minha irmã, também de cabelinho tigela, saia xadrez de lãzinha – lembro dela vermelha e azul-marinho pois também a usei mais tarde. Blusinha com laçarote, sandália verlon. Minha prima, um vestido tubinho com laçarote fino, botinha branca de verniz curta e uma boina de lado na cabeça. Minha outra prima, irmã mais nova, vestia uma calça cigarrete xadrez, sapatilha branca de verniz (pelo jeito era moda) e uma blusinha marinheiro.

Tão bonitinhas, tão meninas e tão sisudas nas fotos. Sempre achei graça na seriedade das fotos antigas. Hoje, ao contrário, todos gostamos de fazer caras e bocas, caretas espalhando sorrisos para registrar uma alegria muitas vezes falsa.

Revirando um pouco mais, encontrei um convite de casamento de um casal de tios, um santinho de alguém que se foi e não conheci, um álbum de figurinha que pertenceu ao irmão caçula de minha mãe…Um Bat Beg lilás que me acompanhou por um bom tempo deixando meus braços com hematomas semelhantes ao brinquedo! Então ele estava aqui o tempo todo! De uma hora pra outro meu brinquedo favorito sumiu não deixando rastro de seu paradeiro. Cheguei a achar que tinham roubado ele na escola. Só pode ter sido minha mãe quem o escondeu. Ela odiava seu barulho e temia que me machucasse feio. Peguei nas mãos e tentei brincar como nos velhos tempos. Era um ás nesse brinquedo! O máximo que consegui foi fazer reaparecer os hematomas que colecionava no passado e constatei o quanto isso dói. Encontrei o boneco Mickey de minha irmã caçula com a orelha mordida. Lembrei o quanto eu gostava de assustar a pobre criança no berço com esse boneco. Eu era terrível!

-Tia, finalmente te achei! Está todo mundo te procurando. O caixão já foi fechado e está todo mundo indo pro cemitério. Infelizmente, você perdeu o bonito discurso do tio Lázaro. Ele é bom nisso hein? Podia ter sido político ou padre. O que você está vendo?

-Vidas. Após uma que se foi, precisei resgatar outras para aplacar a dor que estava sentindo. Não dizem que recordar é viver?

-Ah tia, pára com isso. Ficar remexendo velharias não faz bem a ninguém. Vem, sobe comigo que quase todo mundo já se foi. Você vai comigo em meu carro.

-Tá. Só me faz um favor

-Sim?

-Ajude-me a levar esse baú pois a partir de hoje ele é meu.

-Tia, mas isso é velho demais e está muito empoeirado. Deixa isso aí vai.

-Não. Ele vai comigo pois faz parte da minha vida. Sem ele, não saio daqui.

-Ai,ai,ai porque que todo mundo que envelhece se apega tanto as coisas antigas hein? Meus pais são iguaizinhos. Tá bom, eu levo pra você.

Saímos do porão em silêncio. O sobrinho, já homem feito. Alto, musculoso, bonito em seus vinte e quatro anos carregando o pesado baú e eu, cinquentona, já sentindo o peso de muitas experiências mas com a chama da alegria em viver acesa. Chegamos à rua e, ao entrarmos no carro, já distanciando da velha casa tive a certeza de que, se meu sobrinho conseguir envelhecer, saberá da importância de se resgatar memórias. Sorrio melancólica enquanto que pela janela, paisagens familiares vão ficando para trás. A vida segue.

Imagem: Google

Anúncios

7 comentários sobre “Resgate

  1. Que lindo, Roseli!
    Também encontrei um baú, na última visita ao meu pai.
    Mas, ele ainda não me deixou trazer. Me deu apenas a mala.
    Beijos

  2. Muito tri, Roseli. Minha irmã encontrou um baú e descreveu, não com o mesmo talento, as sensações e sentimentos. É, como você diz, a vida e seus fragmentos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s