Cotidiano

harvest_thumbEntre os pés de cafezais, passava os dias sangrando suas mãos e pensando num futuro melhor. Melhor? Existe isso? Com o que será que parece?

Nasceu entre colheitas de café,laranja,batata e algodão. Seus pés, alargados pelas pisadas no solo fértil, eram grossos feito suas tranças. Olhar duro para uma infante saindo rumo a pré-adolescência. Teve como companhia baldes de água que buscava no riacho próximo de onde dividia um casebre com mais oito pessoas. Aos seis anos já era responsável por acordar as três da manhã e colocar gravetos para alimentar a brasa do fogão e pegar água para passar o café. Depois de comer uma naco de polenta assada, tomar uma chávena de café bem doce, saía no terreiro para ajudar suas irmãs maiores a debulhar as espigas de milho. Às nove horas da manhã saía acompanhada de Marciana, sua irmã mais velha carregando nas costas o almoço de seu pai e seus dois irmãos que trabalhavam na colheita do café. Enquanto atravessavam a estrada até chegar a plantação de café, tinham suas caminhadas interrompidas por cobras que passavam por elas tranquilamente e sumiam por entre o matagal da encosta. Outras vezes, se escondiam para não serem mira de bois bravos que escapavam da boiada.

Regressando para casa, ia para o celeiro separar as batatas colhidas. De um lado as bonitas, em bom estado das que já estavam feias, passadas. As boas eram ensacadas e separadas para o patrãozinho que mais tarde, mandava seu capataz, o seu Ernani, pegar as sacas e levar para a casa grande.

Às quinze horas, era a responsável por passar um novo café enquanto sua mãe, dona Ercília fazia broas de milho e assava na chapa do fogão a lenha. Algumas vezes até dava tempo de lembrar que ainda era uma criança e brincava.
Mas sua vida de criança tinha duração curta e logo, tinha de voltar para o trabalho que não terminava nunca.

Era pegar água para o preparo da sopa do jantar, limpar o arroz, separar o feijão,lavar a roupa no riacho afofar o travesseiro de paina, virar o pesado colchão de capim com a ajuda das irmãs, varrer o chão de terra batida com vassoura de piaçava tomando o cuidado de molhar de leve o chão para não levantar pó.

Deitavam-se por volta das dezenove horas cansadas de um dia de lida embrutecido para tão pouca idade. Eram tempos em que não se reconhecia infância. Apenas seres gerados para a labuta.

Virgínia pensava diferente e planejava em silêncio absoluto, o dia em que partiria para a cidade grande em busca de uma vida melhor. Toda noite fechava os olhos sonhando com um futuro mais colorido e menos dolorido. Sonhava um dia poder ter seu primeiro par de calçados a embelezar seus pés esparramados.

Imagem: Harvest – Robert Duncan

Anúncios

2 comentários sobre “Cotidiano

  1. Olha, minha mãe teve uma infância bem parecida como essa, e eu jamais conheci mulher mais sábia e forte como ela. Venceu e marcou minha existência.

    Agora, pra esse “café bem doce” 😝 😝

    Mas pra vc 😘😘 por essa belezura de conto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s