Queijo suiço

queijoCoisa mais doida que perder um grande amor, é junto ir embora um grande amigo. Perde-se o canal para o tesão, perde-se o porto seguro. Desencontra-se a emoção.

Amores? Sei que é difícil mas com esforço, abrindo o coração encontra-se outro para chamar de “Amorzão!”

Já o amigo…

Aquela sintonia para bater papo até raiar o dia, aquele olho no olho e transmissão de pensamentos, aquele compartilhar das coisas cotidianas e sem valor mas que só quando se perde percebe seu real valor.

Aquela vontade que bate de simplesmente passar a mão no telefone e ligar iniciando a conversa de onde parou no dia anterior.

Acabou.

Restou apenas o nó na garganta de seu nome querendo sair. A vontade encalacrada de saber se está bem, se está sofrendo. De ligar, ouvir sua familiar voz e perguntar: “Está tudo bem contigo?”

E bem baixinho te ouvir dizer:

“Tô não. Larga tudo e vem ficar comigo. Preciso do teu abrigo!”

Amigo perdido deixa um buraco na alma. Até conquistamos outros mas nenhum substitui aquele que se foi. E com o passar do tempo, nossa alma vai se transformando num verdadeiro queijo suíço.

Hoje perdi um amor. Mas o que mais sinto foi a perda do grande amigo.

Fiquei aqui sozinha. Sem rumo. Sem lágrimas.

Vendo baixar à sepultura do esquecimento nossa amizade.

Em luto, reluto. Mas sei que é em vão.

Vá em paz amoramigo! Ser feliz ao lado de outras.

Eu aqui me encarrego de velar por sua felicidade.

Imagem: Google

Artesã

wordcloud

Palavra

Parole

Word

Palabra

lavra

ideias

Para

pensar

Pensei

Achei,

Gostei!

Sorvi seu gosto

Absorvi os sentidos,

lidos…

Lapidei

Poli

Cortei

Transformei-as

num poema

Mas…

não sei

qual tema

colocar…

Volto a lavrar

Qual

palavra

usar?

Penso

Escrevo,

faço arte

com elas,

as palavras

sãs,

sã?

sou?

sou arte(sã)

Artesã

Exótica?

minhas unhasPercebi com a visão periférica que ela olhava minhas mãos que preparavam um café na máquina expresso. Observava que seus olhos acompanhavam cada gesto que elas faziam.  O que a princípio foi motivo de graça para mim, com o passar dos segundos, foi gerando uma irritação. Pensava com meus botões que tanto ela olhava.

Até que, quando finalmente peguei minha xícara fumegante de expresso extra forte, com um aroma que envolvia todo o ambiente, eis que ela solta a pérola:

– Diferente seu esmalte…Exótico…

Parei com a xícara no meio do caminho. Pretendia dar um bom gole afinal, pela manhã não sou ninguém antes do primeiro café. Olhei para ela com expressão de interrogação. Olhei para minhas unhas tão bonitinhas pintadas de lilás clarinho da Colorama, coleção Aquarela Tropical. Uma delicadeza só. Tive o maior trabalhão para fazê-la ontem à noite e essa figura vem e me fala que está…Exótica? O que posso compreender por Exótica?

Como já dizia minha sábia avó Maria, “para um bom entendedor, um pingo é letra” e eu já deduzia que ela estava tirando onda com a minha cara afinal, a tal criatura não sabe elogiar. Só tem boca para criticar e falar mal dos outros.

Totalmente de guarda em pé, sorvendo minha dose diária de cafeína, passei a também medir e observar cada centímetro da talzinha que falou de minhas unhas (tão lindinhas!) e achei suas unhas bem… como dizer?

Comuns! Masculinizadas. Curtinhas e desbotadas na sua cor natural. Pensei com meus grãos de café torrados que peguei para mastigar: deve ser anêmica a pobre. Não tem cor saudável ou, tem micose. Podia tratar melhor suas mãos!

Ela, a figura em questão que agora era alvo de minhas olhadas, foi ficando sem graça. Para disfarçar, resolveu pegar um café também e passou ao ritual de pegar o copo descartável, posicionar na cafeteira, escolher quantos grãos queria, pingou algumas gotas de adoçante e acionou o botão para o feitio da adorada bebida.

Sorvendo o meu que a essa altura já estava frio,posicionei-me bem a seu lado, quase num corpo a corpo e não tirava os olhos de suas mãos. Exatamente como ela fez comigo e amei (confesso) ver que ela ficava mais e mais sem graça com minha conduta digamos, nada amistosa.

Hoje é dia de confissão então faço mais uma: sou boa, mas quando estou na gira, socorro! Fico melhor ainda! Trocando em miúdos: Fico simplesmente insuportável!

Coitada! Sua saia justa foi sufocando-a até que acabou por engasgar com a bebida e saiu correndo para o banheiro.

Sentei em minha cadeira e gargalhei de prazer com o troco que dei afinal, chamar minhas unhas pintadas de lilazinho da coleção Aquarela Tropical de Exótica, é o mesmo que dizer que estavam uma bosta de feia. Não aceito! Prontofaleievinguei!

– Carolina de Deus, você viu o que aconteceu com a Marcelina? Coitada, se engasgou tomando café e tiveram que levá-la para o hospital pois a pobre estava lilás de tanto que estava sem ar. Pode até morrer, judiação! – dando-me essa notícia de sopetão,  Rutinéia saiu correndo para espalhar a notícia para todo o departamento. É nossa jornalista da Rádio Pião sempre nos informando em primeira mão.

Pensativa diante da notícia, uma ideia começou a corroer meu íntimo.

Serei uma bruxa? Terei poderes e não sabia? Sabe, sou ruim às vezes mas no geral sou gente boa. Sangue bom, entende? A Marcelina é mala sem alça mas não desejo mal dela. Nem de ninguém. Pôxa, a pobre ficou lilás de tanto engasgo. Caraca, devo ter um puta olho grande e nem sabia. Preciso cuidar mais de meus pensamentos e desejos.

Com essa decisão tomada, levantei e fui passar mais um café. O dia prometia.

E não é que caprichei nas minhas unhas! Estão lindinhas!

Imagem: Acervo pessoal

50 calendários rodados. Ou a danada está chegando. Ou simplesmente: virei a esquina da vida

mulher-sofrendo

Fui adaptando meus sentidos aos barulhos matutinos. Primeiro ouvi o motor de um caminhão que subia a rua de forma ruidosa. Parecia que perdia o fôlego naquela subida íngreme. Depois, ouvi vozes de dois homens que desciam a rua numa conversa animada sobre o que fizeram no final de semana. Aos poucos as vozes foram se afastando até se transformarem num ruído incompreensível. Continuei de olhos fechados. Ainda não queria ter contato com a realidade de mais um dia.
Após leve soneca, voltei à realidade ouvindo o assobio de alguém que parecia feliz por mais um dia de vida.
Não era o meu caso.
Irritada, virei para o outro lado da cama e cobri a cabeça com o lençol. A claridade matutina já invadia meu território.

Por mais que cobrisse a cabeça e cerrasse meus olhos, não conseguia ficar protegida na escuridão.
Teimava em não retornar à vida cotidiana. Não queria abrir os olhos e ver que tudo continuava como ontem, anteontem, transdontem…
Queria ter o poder de evaporar naquele quarto. Desejava ardentemente que um buraco se abrisse e me engolisse levando-me para a Terra do Nunca. E que lá, fosse levada para a masmorra da solidão eterna. Talvez só assim conseguisse a paz tão sonhada.
A serenidade tão almejada.
O não ser.
O nada.
Gostaria imensamente de sofrer um súbito Mal de Alzheimer galopante que apagasse de vez toda a memória que guardo em meu íntimo.
Cabeça pensante sofre muito, não esquece nada. Isso é tortura!
Já pensou? Limpar completamente os espaços de nossa memória. Deixando os arquivos vazios, leves, onde soprasse uma suave brisa o tempo todo! Seria tão…Tão aliviante! Não sentir dor de espécie alguma. Nem física muito menos emocional.
Não quero pensar. Não por hora. Continuo de olhos cerrados e mentalizo o vazio do universo.
Por instantes consigo vagar pela ausência de coisas. Flutuando por entre nuvens, sentindo o bafo cósmico em minha nuca. Aprecio o som do nada. É belo e harmonioso!
Dura pouco.
O som estridente do despertador invade o quarto quebrando o tão almejado silêncio.
Permaneço de olhos fechados. Me recuso a voltar à realidade. Em pouco tempo meu quarto é invadido por vozes agudas e alegres de meus filhos:
– Acorda véia! Levanta pra completar seus anos de vida! – grita Gustavo, de 15 anos.
– Vai mãe! Abre os olhos! Quero te abraçar e desejar feliz aniversário! Tá ficando velhaaa!!!! – completa Gisele, minha princesa de 14.
– Ohhhhh minha véia querida! Vem pra realidade! Ou acha que só eu envelheço? – diz Francisco, meu marido,
E todos caem na cama abraçando, espalhando beijos por todo lado, fazendo cócegas, descabelando e me envolvendo num carinho sem fim.
Com tanto afeto, como posso estar me sentindo tão infeliz? Tenho o que muitas mulheres almejaram a vida inteira: casamento bem estruturado, filhos lindos e saudáveis, um companheiro que me ama e procura sempre dar o melhor pra mim, uma situação financeira senão invejável, pelo menos tranquila. Sou uma mulher bonita, bem cuidada, tenho uma profissão estável…
Onde foi que me perdi? Porque essa inquietação e vontade de sumir do planeta? De sair por essa porta e nunca mais voltar?
Uma vontade absurda de gritar me invade e aos poucos, uma careta vai se formando. Vontade de gritar ao mundo que a vida passou rápida demais. Em poucas piscadas ,cinquenta anos se passaram e nem tive tempo quase de absorver as coisas boas que ela, a vida, me proporcionou. E agora observo que não tem volta. Não é como um vídeo VHS que podemos voltar quantas vezes quiser e retornar ao momento mais lindo do filme. A vida não tem replay!

Casei, tive filhos, eles cresceram e eu quase não vi o dia a dia deles devido a minha dedicação à profissão. Ser médica é maravilhoso! Não me arrependo de nada em minhas escolhas, mas, como tudo na vida, tem seu preço. E o preço pago foi não ter visto de perto o crescimento de meus rebentos.

Meu marido, o Francisco, que outrora foi um jovem lindo com seus olhos verdes cristalinos e sorriso largo que me conquistou com seu corpo escultural de surfista, hoje não passa de um senhor de meia idade obeso, com uma perda de cabelos avançada e olhos cansados.
Mas seu sorriso continua largo e contagiante! Deus! Como ainda amo esse homem! E meus filhos então? Jovens lindos, cheios de vida, saudáveis e que só me dão alegrias! Minha família é linda e têm paciência comigo que vivo sempre enfurnada em meus casos difíceis da UTI em que trabalho.
A careta vai se intensificando até que se desmancha num choro esparramado. Todos param de sorrir e ficam a me olhar de forma espantada. Choro de forma desesperada e não consigo parar. Gesticulo chamando-os para perto de mim. Beijo e abraço cada um e, entre soluços intensos e uma fracassada tentativa de sorrir consigo dizer: Obrigada Meu Deus! Obrigada família linda!
Francisco sai de meu abraço em silêncio e se ausenta por alguns segundos do quarto. O choro pouco a pouco vai se acalmando. Meus filhos se revezam no acalento que fazem em minha cabeça tombada na cama. Sinto uma mescla de vergonha, alívio e alegria.
– Regina, meu amor, olhe pra mim. Feliz aniversário! Vida longa à mulher que me faz sentir o homem mais feliz do mundo!
Enxugo os olhos congestionados e olho para ele que trás em suas mãos um pequeno pacote luxuoso.
Abrindo, vejo um lindo brilhante. Volto a me emocionar.
– Regina, esse é apenas um pequeno mimo que representa todo meu amor e carinho por você. Obrigada por existir e me fazer feliz.
Uma última lágrima escorre pela face levando embora toda a tristeza, um sorriso se esboça e abrindo meus braços, recebo minha família .
– Estou ficando velha! Cinquenta anos! Nunca pensei que fosse chegar a essa idade!
– Eu já estou com cinquenta e sete! Qual o problema?
– Nenhum problema Chico! Foi só uma reação momentânea que tive. Vamos dizer que tive uma virose emocional! Passou!
– Mãe vai por mim, de velha você não tem nada! Lindona, de virar o pescoço dos homens e mulheres. Cheia de vida e pique total pra tudo.
– É isso mesmo mãe. Minhas amigas sempre comentam o quanto você é linda e conservada. Elas têm a maior admiração por você.
– Vamos deixar de papo furado e descer para tomarmos juntos o café da manhã? E olha, prepare-se, pois o desjejum será especial hoje em homenagem à você, guerreira!

Imagem: Google

Descobri-me carneiro

DSC01493Em plena manhã ensolarada, uma tormenta se aproxima de mim e em pouco tempo, deságuo. Tento disfarçar minha umidade, mas não obtenho sucesso e as pessoas ao meu redor começam a olhar e comentar baixinho entre si. Outras, mais discretas apenas me olham de soslaio e abaixam a cabeça ou desviam o olhar atravessando a janela do coletivo perdendo-se na paisagem urbana. Uma dor que não consigo medir nem descrever toma conta de meu peito que parece pequeno para acomodar um coração que está prestes a explodir. Estarei enfartando penso eu num breve momento de lucidez. Estarei prestes a morrer? Tantos morrem seguindo para seu trabalho. Farei parte dessa estatística?

Uma sirene grita pedindo que abram espaço num trânsito transbordando de tantos tanques urbanos que tomam espaço de três carros na avenida. Os motoristas olham-se assustados, irritados, pois não tem pra onde sair para deixar a ambulância passar. Seu grito continua ecoando fazendo trilha sonora ao meu sofrimento. Choro e minhas lágrimas quentes abrem brecha numa esperança de servir de caminho para aquele que tenta sobreviver dentro da ambulância. Inútil eu sei, no entanto, prefiro pensar que ajudo de alguma forma a salvar uma vida.

Quero parar de chorar mas não consigo. Para completar, o ônibus faz uma parada num ponto em frente ao cemitério Redentor e uma canção começa a tocar no rádio Say a little prayer for you…

A tormenta volta com força total e me encolho no canto próximo à janela numa tentativa de tornar-me invisível. Parece que absorvi toda dor existente no mundo e meu peito não tem espaço suficiente para abarcar tamanha dor.

– Moça, moça, tudo bem? Já chegamos à Avenida Paulista. Ponto final. Sei que desce sempre aqui. Todo mundo já desceu.

Com muito esforço saio da neblina que me encontro e ainda com dificuldades em respirar, retorno à realidade. Agradeço o cobrador por se lembrar de mim e me avisar. Desço e tropegamente inicio minha caminhada até a empresa onde uma série de atividades me aguarda. Preciso recuperar a lucidez e despir a vestimenta de carneiro. Pelo menos por hora, voltar a ser humana.

a imensidao intima dos carneirosMarcelo Maluf, você foi o responsável por esse “mico” que paguei em plena luz do dia por volta das 8h43 da manhã dessa quarta-feira. Mais pessoas engrossarão o cordão dos que me acham doida por cantar e chorar e ler e voltar a cantar e chorar em público. Lendo o seu livro recém-lançado A imensidão íntima dos carneiros, me catapultou para uma realidade lindamente dolorosa e sofri toda a dor de seus antepassados que nada mais é, que a dor de toda a humanidade condensada nos seus. Você teve o dom de me transformar em um dos carneiros e pude vivenciar todo esse universo de sensações e dores que fazem de nós, medonhamente humanos.

Você fala no medo que é matéria palpável em todos que passamos por essa vida terrena e isso, torna seu romance universal. Parabéns! Tenho certeza que ele será compreendido em todas as nacionalidades que ele porventura venha a ser traduzido. Sua linda história familiar já é um sucesso por ter sido tramada com pontos tão finos e delicados que mesmo um ogro, ao ler suas páginas, verão seus corações empedernidos desmancharem com tamanha beleza e verdade. Ainda agora, de frente a tela de meu computador no trabalho, escrevendo essas linhas finais, emociono-me. O belo também nos faz chorar!

Título: A imensidão íntima dos carneiros

Autor: Marcelo Maluf

Editora: Reformatório

Ano: 2015

Leia um trecho: http://sidengo.com/imensidaointima

Book trailer: https://youtu.be/XKgfVqrDeJs

Um certo senhor fora do seu tempo

Observar a variedade existente de tipos humanos é matéria rica para nós escritores. Desde pequena observo o comportamento alheio. Gosto de catalogá-los e talvez por isso mesmo, tornei-me bibliotecária. Aqui onde trabalho, convivo com vasto material humano no qual me deleito em estudar e depois, lapido-os ao meu bel prazer, transformando-os em personagens de minhas histórias. Agora mesmo estou diante de uma sala repleta de alunos, professores, funcionários em seu horário de almoço, pais e visitantes. Bem na minha mira, encontra-se uma…Como direi? Figura!

Um senhor num terno verde, gravata borboleta xadrez, com seus óculos na ponta do nariz a ler o jornal do dia. Vocês leitores devem estar pensando: Mas porque ela diz que ele é uma figura?

Calma que já explico. Senhor de seus quase setenta anos, todo formal inclusive em sua maneira rebuscada de se expressar verbalmente, não olha ninguém nos olhos, não dirige a palavra para as mulheres, logo sou ignorada. No que agradeço! Prefiro ficar aqui na invisibilidade estudando a persona. Riquíssima!

Vive no e do passado. Não tem e-mail, celular, nunca acessou a internet, detesta todo tipo de tecnologia. Um personagem que deve ter entrado numa máquina do tempo e caído aqui em pleno século vinte e um por engano. E não se conforma com tudo o que presencia na atualidade. Acaba de se levantar, depositar o jornal no balcão, passou seus olhos embaçados por mim como se eu fizesse parte da mobília e já saía da biblioteca quando levantei e me postei diante dele cumprimentando-o:

– Já vai senhor? Tenha uma boa tarde e até amanhã!

Por uns segundos pareceu me enxergar e uma breve luminosidade passou por seus olhos que logo murcharam em seu habitual embaço.

– Boa tarde senhorita! – respondeu de forma quase inaudível e, da mesma forma silenciosa que entrou, saiu.

Acho que vou transformá-lo num personagem só meu! E agora, se me dão licença, preciso atender os alunos.

A biblioteca bomba de atividades e eu amo isso tudo!

Ode a um mundo melhor

menina sonhando

Não. Hoje não desejo falar do corpo inerte do infante.

Por favor, pare. Não insista!

Prefiro falar dos que ainda terão alguma chance de vingar

Vivendo dia após dia, mesmo que em agonia, provando

Para esses “Doutos” da hipocrisia que vale a pena viver.

Falo dos que insistem em pular muros, quebrar amarras,

arrebentar suas cordas vocais, exigindo que os reconheçam.

Desejo ver loucos saindo às ruas, se permitindo abrir sorrisos

mesmo que diante do  pessimismo alheio,

Anseio ver germinar o canteiro dos desvalidos.

Sonho acordada com o dia em que uma multidão ressurja

arrebentando túmulos, rasgando suas roupas rotas,

abrindo o peito e extravasando a alegria em existir.

E que sua alegria envergonhe e intimide a quadrilha que rouba felicidade alheia,

Sonho com o dia em que verei ao lado deles, essa corja murchar provando

do próprio veneno e que suas carcaças caiam ao chão que se abrirá

sugando-os eliminando essa erva daninha do seio da sociedade.

E nesse dia, que felicidade!

Sonho! Porque sonhar ainda se pode, ainda é de graça

Não. Só por hoje não desejo falar do corpo inerte do infante.

Tal cena deixou-me inoperante. Por isso sonho.

Imagem: My little birds

Cotidiano

harvest_thumbEntre os pés de cafezais, passava os dias sangrando suas mãos e pensando num futuro melhor. Melhor? Existe isso? Com o que será que parece?

Nasceu entre colheitas de café,laranja,batata e algodão. Seus pés, alargados pelas pisadas no solo fértil, eram grossos feito suas tranças. Olhar duro para uma infante saindo rumo a pré-adolescência. Teve como companhia baldes de água que buscava no riacho próximo de onde dividia um casebre com mais oito pessoas. Aos seis anos já era responsável por acordar as três da manhã e colocar gravetos para alimentar a brasa do fogão e pegar água para passar o café. Depois de comer uma naco de polenta assada, tomar uma chávena de café bem doce, saía no terreiro para ajudar suas irmãs maiores a debulhar as espigas de milho. Às nove horas da manhã saía acompanhada de Marciana, sua irmã mais velha carregando nas costas o almoço de seu pai e seus dois irmãos que trabalhavam na colheita do café. Enquanto atravessavam a estrada até chegar a plantação de café, tinham suas caminhadas interrompidas por cobras que passavam por elas tranquilamente e sumiam por entre o matagal da encosta. Outras vezes, se escondiam para não serem mira de bois bravos que escapavam da boiada.

Regressando para casa, ia para o celeiro separar as batatas colhidas. De um lado as bonitas, em bom estado das que já estavam feias, passadas. As boas eram ensacadas e separadas para o patrãozinho que mais tarde, mandava seu capataz, o seu Ernani, pegar as sacas e levar para a casa grande.

Às quinze horas, era a responsável por passar um novo café enquanto sua mãe, dona Ercília fazia broas de milho e assava na chapa do fogão a lenha. Algumas vezes até dava tempo de lembrar que ainda era uma criança e brincava.
Mas sua vida de criança tinha duração curta e logo, tinha de voltar para o trabalho que não terminava nunca.

Era pegar água para o preparo da sopa do jantar, limpar o arroz, separar o feijão,lavar a roupa no riacho afofar o travesseiro de paina, virar o pesado colchão de capim com a ajuda das irmãs, varrer o chão de terra batida com vassoura de piaçava tomando o cuidado de molhar de leve o chão para não levantar pó.

Deitavam-se por volta das dezenove horas cansadas de um dia de lida embrutecido para tão pouca idade. Eram tempos em que não se reconhecia infância. Apenas seres gerados para a labuta.

Virgínia pensava diferente e planejava em silêncio absoluto, o dia em que partiria para a cidade grande em busca de uma vida melhor. Toda noite fechava os olhos sonhando com um futuro mais colorido e menos dolorido. Sonhava um dia poder ter seu primeiro par de calçados a embelezar seus pés esparramados.

Imagem: Harvest – Robert Duncan