874C

Acordei com algo pontudo e pesado pressionando meu braço. A dor era muita mas meu sono maior.Não conseguia abrir os olhos – que ressecados pela síndrome do olho seco, se negava a enxergar a realidade exterior. Soube por experiência que se tratava do metal da bolsa de alguma mulher. Ah essas mulheres e suas enormes bolsas!

Um cheiro azedo envolveu minhas narinas e uma náusea instantânea se instalou. Mesmo assim, meu corpo tinha vontade própria e essa vontade era de permanecer em rigidez cadavérica. Minha audição se apurou e pude saber que tinha muitas pessoas ao meu redor. Algumas adolescentes falavam sem parar naquele ritmo que só elas conseguem se entender: “Tipo assim, tipo assado, tipo pra especificar tudo e todos”. Vozes agudas com alterações de volume açoitavam meus pobres ouvidos. Mesmo assim permanecia imóvel.

Uma criança começou a chorar e em pouco tempo o som insuportável irrita a todos.

-Alguém faça esse bebê parar de chorar! Mãe dá logo essa mamadeira pra ele!

-Cala a boca seu idiota!

-Ninguém aguenta isso. É tortura e logo cedo ninguém merece!

-Intolerante! Não deve ter filhos né. Aprenda a respeitar os outros.

-Cala a boca que a conversa não chegou ainda aí dona!

-Vem aqui me calar! Tá pra nascer o homem que vai fazer isso comigo seu filho da puta!

Hey seu viado quer parar de me arrochar? Não sou chegado nisso não! Meu negócio é mulher! Saí pra lá senão te estouro a cara!

O mundo desabando ao meu redor e continuo assim, inerte. Começo a prestar atenção na música nova de Ana Carolina que está tocando na rádio que ouço pelo fone de ouvido…Coisas…Bonita viu! Gostei. Sorrio e me arrepio em pensamento.

Atenção pessoal!! Última parada do ônibus antes de regressar. Vocês já sabem, agora essa linha é circular. Última parada aqui em frente ao Conjunto Nacional. Atenção sonâmbulos da linha 874C, favor acordarem e descerem aqui!

É o simpático cobrador, seu Otávio, que sempre tem a delicadeza de um rinoceronte mas que se preocupa em acordar os que dormem no ônibus.

Um bando de zumbis descem trôpegos na Avenida Paulista rumo aos seus empregos e compromissos. Faço parte dessa leva que, assim como os dançarinos de Thriller de Michael Jackson, percorrem as largas calçadas da avenida numa coreografia sem ensaio.

Como costuma dizer uma amiga: “Mais um dia, menos um dia”

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18 comentários sobre “874C

  1. Ah Cris, mas essa vida não é só tristeza e dureza, muito pelo contrário, divirto muito quando consigo ficar acordada kkkkkkk Pena que isso tem acontecido cada vez menos… ficar acordada quero dizer
    Bjs

  2. Imaginei tudo, menos ônibus, Roseli. É bem por aí mesmo, tudo junto e misturado. Qdo estou “aberta” até fico prestando atenção, mas tem dias que prefiro meu silêncio, meus pensamentos e meus fones de ouvido. Aliás faz tempo que não escrevo contos sobre ônibus. Estou comentando por aqui, porque vc sabe que não consigo acessar o wordpress…. rsrsrs Mas leio pelo email. Beijos.

    • Que bom Mariel. Olha, não é que seja mal humorada pela manhã. Sou só um ser destituído de vida rsrs Depois de dois cafezinhos me transformo na fada da alegria e sou conhecida por Bibliotecária Sorriso rsrs Mas até chegar lá… Zumbi puro!

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