Indigestão

Os sons que mastigo de seu silêncio
Despertam a bile que se move inquieta
em minhas entranhas
Trazendo à boca, o fel do abandono.
Te vomito!

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Parâmetro para normalidade

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Ontem a noite me encontrei com amigos para um jantar regado a bate-papo num restaurante delicioso da gastronomia italiana que fazia muito tempo que não ia. Como sempre, a comida estava excelente, o atendimento primoroso, o espaço continua lindo. Contudo, mais uma vez observei as pessoas ali presente e confesso que me assustei um pouco.

Falar das pessoas conectadas o tempo inteiro em seus Smartfones é chover no molhado afinal, isso já virou comportamento social. No entanto, outra coisa me chamou demais a atenção e não somente ontem, outros dias também andei registrando esse mesmo comportamento: O de pessoas solitárias e seus “cacoetes”.

Cada vez mais tenho visto pessoas com suas “manias” tentando mostrarem-se sociáveis seja em cinemas, teatros, shows, exposições e claro, restaurantes.

Voltando à noite de ontem.

Jantava ao lado dos amigos numa conversa animada quando meus olhos capturaram um senhor sentado na mesa ao lado. Chamou a atenção pois é uma “figura” já conhecida minha. Encontro-o sempre na Avenida Paulista pela manhã fazendo caminhada. Até aí nada demais só que ele emana um “que” de esquisitice.

Aí, você que me lê deve de estar pensando: Mas o que ela rotula como esquisitice? Que parâmetro essa doida que se acha escritora deve de usar para catalogar alguém como esquisito?

Calma. Não precisa se exaltar e já me julgar e condenar. Explico.

Como certa vez já disse Caetano (acho, não tenho certeza), “De perto ninguém é normal”. Muito menos eu que vos falo nesse instante. Também sou dotada de manias e esquisitices que ao meu ver são normais porém, diante do olhar do outro soa como algo fora do normal.

De volta aos meus “esquisitos”, sim, vou logo adiantando que tinha mais de um. Ao meu lado esquerdo, esse senhor que olhava para todos de forma furtiva, tímida e comia como se alguém desejasse retirar seu prato. Cabelos de Larry dos Trés Patetas com bigodinho de Hitler. Trajando calça social, camisa social e gravata borboleta. A cada três ou quatro minutos, tinha espasmos que faziam seus cabelos se mexerem de forma engraçada. Tive de me conter para não rir.

Enquanto conversava mantinha a visão periférica nessa figura inusitada. Até que chegou uma mulher de seus quarenta e tantos anos, bem vestida, maquiada, com belas madeixas e sentou-se ao meu lado direito.

Minha atenção foi fisgada ao vê-la fazendo o pedido ao garçom toda minuciosa detalhando exatamente como queria seu prato de massa. Depois, foi a vez de escolher o vinho que iria acompanhar. Nossa! Deixou o garçom zonzo! Achei graça pois me trouxe à lembrança aquela personagem Sally Albright do filme Harry & Sally. Lembram dela no restaurante?

Mas ainda estava por acontecer o que realmente me tiraria de vez a atenção da conversa que entabulava com meus amigos. Sacou seu belo e luxuoso Iphone dourado deixando-o no colo e a cada clicada no que via na tela, a jovem senhora tinha espasmos que não soube diagnosticar se era de prazer ou de dor. Ela quase pulava na cadeira a cada clicada em seu Face. Confesso que andei dando uma espichada pra ver o que ela via na sua telinha.

É, caro leitor, sou curiosa ao extremo! Quem não é que atire a primeira pedra ora pois!

Seus olhos giravam em órbita, levantava a cabeça, balançava seus longos cabelos arruivados, piscava desordenadamente, mexia os ombros como se quisesse tirar algo deles. Coisa de louco! Aí, era dar uma garfada na massa, tomar um gole de vinho, conferir em seu colo a telinha do Face, repetir toda a coreografia e suspirar, arfar, cruzar e descruzar as pernas, gemer…

Confesso que nessa de observar vida alheia, perdi grande parte da conversa de meus amigos. Não faço ideia do que conversavam. Fiquei naquela de esboçar um sorriso pra eles numa muda resposta ao que falavam, traçar meu linguado acompanhado de arroz integral e purê de mandioquinha, sorver meu suco de laranja e mergulhar mais e mais nos cacoetes da pobre mulher que já estavam me dando agonia.

Acabei até por esquecer do senhor à minha esquerda e quando olhei, já tinha ido embora sendo substituído por uma moça gótica com uma carinha linda que sorvia avidamente sua taça de vinho tinto e olhava para o nada. Até ela terminar de jantar, pedir a conta e sair desabalada pela porta afora, me vi refém de sua figura.

Ao sair do restaurante e me despedir dos amigos, peguei o metrô e me aprofundei numa reflexão sobre a natureza humana e suas idiossincrasias. O universo interior de cada pessoa é único, peculiar. O inferno pessoal também. E vi que isso dá matéria para muitos questionamentos e textos. Acabei rindo sozinha por imaginar que enquanto observava essas pessoas, outras deveriam também me observar e me achar louca, esquisita, estranha afinal, quem é normal?

Imagem: Scott Rohlfs

874C

Acordei com algo pontudo e pesado pressionando meu braço. A dor era muita mas meu sono maior.Não conseguia abrir os olhos – que ressecados pela síndrome do olho seco, se negava a enxergar a realidade exterior. Soube por experiência que se tratava do metal da bolsa de alguma mulher. Ah essas mulheres e suas enormes bolsas!

Um cheiro azedo envolveu minhas narinas e uma náusea instantânea se instalou. Mesmo assim, meu corpo tinha vontade própria e essa vontade era de permanecer em rigidez cadavérica. Minha audição se apurou e pude saber que tinha muitas pessoas ao meu redor. Algumas adolescentes falavam sem parar naquele ritmo que só elas conseguem se entender: “Tipo assim, tipo assado, tipo pra especificar tudo e todos”. Vozes agudas com alterações de volume açoitavam meus pobres ouvidos. Mesmo assim permanecia imóvel.

Uma criança começou a chorar e em pouco tempo o som insuportável irrita a todos.

-Alguém faça esse bebê parar de chorar! Mãe dá logo essa mamadeira pra ele!

-Cala a boca seu idiota!

-Ninguém aguenta isso. É tortura e logo cedo ninguém merece!

-Intolerante! Não deve ter filhos né. Aprenda a respeitar os outros.

-Cala a boca que a conversa não chegou ainda aí dona!

-Vem aqui me calar! Tá pra nascer o homem que vai fazer isso comigo seu filho da puta!

Hey seu viado quer parar de me arrochar? Não sou chegado nisso não! Meu negócio é mulher! Saí pra lá senão te estouro a cara!

O mundo desabando ao meu redor e continuo assim, inerte. Começo a prestar atenção na música nova de Ana Carolina que está tocando na rádio que ouço pelo fone de ouvido…Coisas…Bonita viu! Gostei. Sorrio e me arrepio em pensamento.

Atenção pessoal!! Última parada do ônibus antes de regressar. Vocês já sabem, agora essa linha é circular. Última parada aqui em frente ao Conjunto Nacional. Atenção sonâmbulos da linha 874C, favor acordarem e descerem aqui!

É o simpático cobrador, seu Otávio, que sempre tem a delicadeza de um rinoceronte mas que se preocupa em acordar os que dormem no ônibus.

Um bando de zumbis descem trôpegos na Avenida Paulista rumo aos seus empregos e compromissos. Faço parte dessa leva que, assim como os dançarinos de Thriller de Michael Jackson, percorrem as largas calçadas da avenida numa coreografia sem ensaio.

Como costuma dizer uma amiga: “Mais um dia, menos um dia”

Bus stop

ponto de onibus ninil goncalves

Hoje tamo no dia 21 e ainda tem uma semana inteirinha pra acabá o meis. Vida disgranhenta! Trabaiá tanto pra continuá no aperto entra ano sai ano. Dispois qui peitei a madama do 501, por ela só abusá de meu serviço, ganhei pé na bunda, sem pagamento do que me devia. Fidiputa! Há di morrê seca esturricada e vai fedê como todo mundo na vala rasa. Esse gosto ainda hei di tê. O disinfeliz do Raimundo me deixô na encruziada da vida com toda suas dívida de jogo e de bar. Lazarento! Esse também há de apodrecê em vida. Esse gosto ainda hei di te. A vida intera tive dedo podre pra esses homê. O Creiton era bão na cama mas um fidiuncão batia nimim todo santo dia. Sifufeu comigo. Ganhou um oio de vrido. Hoje pede esmola lá na esquina do Viaduto Nhangabaú. Já vi ele apanhá duns muleque mais forte qui ele. Esse também quero mais é qui si foda bunito bunito pra aprendê a nunca mais batê numa muié. O único que prestô não vingô… Armandinho… Saudade dele viu, era tão bãozinho… Fidumaégua resorveu virá homê di batina. Preferiu casar cum Deus…

Disgranhento! Vai si fudê tumén. Vai murrê moiano a batina e virá gozação dos seminaristas. Preferiu eles a mim. Porra de vida meu Deus? Por que sismô cumigo hein?

…E esse onbus qui num vem nunca? Tarveiz seja o urtimo qui pegue na vida. Amanhã o baraco vorta pro dono qui num tenho dinheiro pra pagá mais um meis. Merda! Cadê esse onbus? Cadê?

Droga, o final do mês chegando e ainda não paguei a mensalidade da facu. Está difícil ser estagiária. Mal dá pra comer um lanche por dia. Nem pro cinema está sobrando. Balada então, só quando a galera paga a minha. Caramba, fiquei com notas baixas em Estatística semestre passado. Não quero pegar uma DP, preciso marcar umas aulas de reforço. Caralho, o viado do Caio me deu bolo mais uma vez! Filho da Puta! Ele que me aguarde! Vou dar o troco com juros e correção. Preciso ter mais cuidado com minha mãe. Ela anda de antena em pé comigo revirando minha mochila, meus pertences,cheirando minhas roupas só porque comecei a ir nas raves com a galera. Oh encanação!

Mas que porra de ônibus que nunca vem caralho! Tô me cansando dessa vida de proleta viu! Isso não é pra mim não! Ano que vem vou infernizar meu pai pra dar um carro pra mim. Nem que seja de segunda mão. Ele que se vire. E pra ajudar ainda está esfriando. Assim pego uma bela de uma gripe e aí sim é que meu final de semana vai pro espaço e mais uma vez perco a chance de, ou conquistar de vez o viado do Caio, ou queimar seu filme com as outras garotas.

Droga! Ele me comeu tão gostoso!! Queria muito repetir a dose nem que fosse mais uma vez. Porra, por que tá tão difícil arranjar um namorado hein? Hein?

E esse Educandário que nunca vem! Alguém me explica onde meus pais estavam com a cabeça quando resolveram melhorar nossa “qualidade de vida” mudando pra esse cú de mundo! Preciso ficar esperta com essa dona aí sentada. Meu celular é novinho e não vou dar de bandeja pra ninguém. Era só o que me faltava: dura, sem namorado, fodida na facu e ainda por cima ficar sem smartphone. Ninguém merece!

Imagem: Ninil Gonçalves

Mudança de área

Tenho uma ambição na vida.

Não! Não desejo fortuna, joias, carro importado, iate, ilha na Polinésia Francesa.

Nada disso tem significado para mim.

É, já sei. Todos me acham esquisita. Faz tempo que deixei de me importar.

Trago comigo outros valores. Faz tempo que também deixei de julgar um livro pela capa. Hoje, faço questão de abrir cada impresso que encontro e mergulho em seu universo. Sempre encontro ensinamentos. Sempre resgato aprendizados.

Deixei de lado a ansiedade de acompanhar a novela das 20h. Também não me importo em saber das últimas do Vídeo Show.

Pânico? CQC? Testes de Fidelidade?

Datena? Coitado, dá pena.

Marcelo Rezende? Ofende a inteligência da gente. Parei com as drogas!

Criança Esperança? Sem chance! Vá atrás de outro otário porque, pra mim, já deu.

Tenho me recolhido, estudado com afinco pois quero muito ingressar na universidade. Mas também não almejo qualquer universidade não!

USP? Unicamp?PUC? Rede Anhanguera? Uninove? Sai dessa!

Ambiciono algo mais elevado que essas meras empresas de pseudos sábios que mal sabem assinar seu nome. Busco algo mais aprofundado que me mostre o caminho das nanomatérias. Quero conhecer a essência de toda molécula viva. Química? Física? Biologia? Bobagem!

Vou mais fundo. Desejo mergulhar pra valer na verdadeira lição que a vida nos oferece.

Para isso, abri mão de tudo que pesa em meu caminhar: emprego, casa, vida social.

Minha mala sairá vazia, dobrada e guardada em meu bolso da velha calça jeans. Não necessito de roupas, calçados, bijuterias, nada.

Também deixo para trás, minha imensa biblioteca de palavras vazias. O conteúdo que busco é outro.

Essa universidade tem uma grade curricular diferenciada das tradicionais. São aulas práticas. Não existe salas de aulas, nem laboratórios, muito menos bibliotecas. Seus alunos saem em campo para seus experimentos e aprendizados.

Não existe mestre. Todos são mestres e alunos ao mesmo tempo.

Após muita procura e pesquisa, consegui saber qual profissional o mundo carece.

Chega de advogados (do Diabo), doutores (que renegam o humano), arquitetos (que brincam de casinha), engenheiros (que só desejam ser tatu-bola).

Desses profissionais o planeta está cheio e já não sabe o que fazer com tantos. Após muito analisar, descobri com alegria que o Universo carece de especialistas numa das áreas mais difíceis. Como sempre gostei de desafios, optei por ela.

Já me matriculei, estou devidamente documentada e amanhã, logo cedinho inicio a árdua, complexa mas linda tarefa de

Ser Gente!

Blue Moon

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Olhava aquela lua azul e perdia-se em

Lembranças…

Já havia se perdido em outros azuis

Tão imensos e profundos quanto a bela lua

Tão misteriosos quanto a dona da rua

Que nua, se mostrava sem pudores

toda sua beleza, nobreza

E ela ali, tonta de emoção sentia

Que assim como essa madonna lunar,

Aqueles faróis azuis que tanto

a iluminou, hoje aquece

Engrandece outros territórios

Fenômeno, o amor mudou

Saiu sem pagar aluguel,

Deixando apenas fel

E hoje, através desse Blue,

restaram somente

Lembranças…

Foto de Graziella Cannata

Traço inacabado

traço inacabado

 

Já nasci saudosa. Essa é minha marca maior além do coração sem fundo, olhar curioso de eterna infante e uma vontade infinda de ser feliz. É claro que nem sempre isso é possível e aprendi, no decorrer de minha existência, a aceitar a vida como ela se apresenta.

Da mesma forma, busco olhar meu próximo com lentes e filtros da tolerância. Não sou religiosa. Já fui, e muito, no entanto, afastei-me por questionar tudo e tornar-me figura “non grata” diante da gleba hipócrita.

Guardo em minhas gavetas da memória, momentos que gravei para a eternidade. Lembranças da infância, são muitas, são felizes, são puras. Época em que não sabia contabilizar muito menos separar o certo do errado, o bonito do feio, simplesmente vivenciava cada dia sem me questionar sobre nada. Deixava-me levar pela vida. E era feliz!

Não me importava em ter apenas um sapatinho verlon, uma meia rota, um vestido que já havia passado por diversas crianças até chegar a mim.

Brinquedos? Somente o que minha avó Maria confeccionava. Havia as almofadinhas das Cinco Marias recheadas de arroz, as bonecas feitas de papel machê e retalhos de tecido. Na realidade, não tive muitos brinquedos mas brinquei exaustivamente! Sou de uma geração em que se ia para as ruas, formava-se turmas e brincávamos o dia inteiro. Era pique, pega-pega, passa anel, estátua, queimada… Tantas eram as brincadeiras na rua, que até então, era território das crianças e não dos automóveis.

Ao final da tarde, minha avó e outras mães chamavam as crianças para o banho e depois o lanche que sempre tinha bolos, biscoitos, broas de milho, geleias acompanhadas do tradicional café com leite ou chá preto.

Como era bom! Anos mais tarde conheci o pão de queijo que uma prima de minha mãe aprendeu a fazer e vez ou outra, fazia de baciada e chamava a criançada para saborear.

Sim, isso era felicidade! Comilanças alimentando o bucho (termo de minha avó) e muita conversa alimentando a alma.

Tive uma infância pobre, contudo nunca faltou alimento em minha casa. Podíamos não ter uma mesa farta em supérfluos que hoje compramos no supermercado, mas sempre tivemos o pão, o leite, a manteiga, o café e o feijão com arroz.

A carne para acompanhar, recebíamos de uma prima minha que era casada com um português dono de churrascaria. A sobra, ele trazia para sua casa e dividia com as famílias menos favorecidas. Graças a Deus estávamos na lista dos desfavorecidos e jamais faltou um naco de carne e linguiça em nossos pratos. Assim como também nunca faltou as frutas e uns doces que recebíamos de uma tia, irmã caçula de minha mãe que aparecia uma vez ao mês e nos brindava com Dan top.

Um para cada criança. Comia devagarinho para prolongar o prazer de comer chocolate. Adorava me lambuzar toda e depois lamber os dedos, a mão, a embalagem.

Sou canceriana nascida em pleno dia 24 de junho, dia de São João. Por conta dessa data, muitos aniversários foram celebrados de frente a uma fogueira comendo batata doce assada, pé de moleque, pipoca, bolo de milho e quentão – no caso só para os adultos. Para a criançada, ki-Suco de uva. Tomava como se fosse iguaria dos Deuses!

E havia também a paçoca de roça da vó Maria. Ah… Que festa se fazia cada vez que vó Maria convocava a família toda para socar o amendoim e o açúcar no pilão centenário até se transformar em paçoca. Era uma farra só. Fazíamos fila indiana para socar o pilão e a cantoria corria solta acompanhada de muitas risadas. O brilho de prazer nos olhares ficou registrado na minha memória. Coisa gostosa lembrar a barriga da minha avó balançando de cima pra baixo enquanto cantava, assoviava e ria. Tudo ao mesmo tempo e dizendo: Soca direito canaiada! Soca com gosto, pra valer! – e dizendo isso caía na risada banguela que me encantava.

Sua lembrança é tão nítida em minha mente: baixinha, gordinha, sempre de vestido florido e avental. E jamais se separava de seu lenço na cabeça feito camponesa que foi de fato. Mesmo morando na cidade, não abriu mão de seus hábitos. Cozinhava assobiando canções de Cascatinha e Inhana:

Índia seus cabelos nos ombros caídos
Negros como a noite que não tem luar
Seus lábios de rosa para mim sorrindo
E a doce meiguice desse seu olhar
Índia da pele morena
Sua boca pequena eu quero beijar”

E o que dizer do vô Dito, índio de nascença, criado por família branca, músico nato que tocava um bandolim como poucos. Cozinheiro exímio, desenhista talentoso que instigou e deu-me a mão nos primeiros passos de meus riscados. Adorava me desafiar e assim, de linhas em linhas fui aprendendo e aperfeiçoando meu traço nos desenhos. Como ele, virei retratista e passei a andar sempre com um bloco de papel e lápis olhando, observando e desenhando todos que me chamavam a atenção.

Sua morte, atropelado numa avenida movimentada serviu de divisor de águas em minha vida – até então, inocente e longe de qualquer fantasma.

Sofri muito. Sentia sua falta e cheguei a ficar doente. Anos mais tarde, já adulta, soube pela minha mãe que minha professora chegou a avisá-la de ter me visto várias vezes no local de sua morte olhando para o solo de piche.

Confesso que até hoje não me lembro desses dias.

Segui os outros anos até chegar a adolescência desenhando cada vez mais e melhor. Cheguei a ganhar uma maleta com várias bisnagas de tinta a óleo e pinceis de todos os tipos e tamanhos além de telas. Ganhei esse precioso presente de um pintor naif, hoje conhecido mundialmente por Madalena. Foi uma alegria tão grande que passei a pintar sem parar.

Até que a vida me chamou para a dura realidade e passei a trabalhar longe de casa para ganhar um salário melhor. Não tive mais tempo para desenhos, pinturas e sonhos.

A vida me embruteceu. Por mais de trinta anos, nunca mais peguei num grafite muito menos em pincéis. Houve um bloqueio no desenho, ocorreu uma atrofia no músculo principal – meu coração, transformando-me num autômato. Passei anos a fio somente executando tarefas materiais e necessárias. A rotina me engoliu fazendo-me refém da acidez. Deixei de enxergar beleza, leveza. Tornei-me rude comigo mesma e com as pessoas.

No entanto, essa tal vida que tanto falei até agora, essa mesma aprontou comigo no sentido de trazer-me à razão. Ela, a vida, é ladina, safada, malandra e deu uma rasteira para que eu num voo solo pudesse enxergar novamente quem eu era de fato. Não esse estereótipo que abracei e finjo diariamente que sou.

Sou uma junção de sangue, carne, nervos e sentimentos que percorrem toda a carcaça física e transcende a matéria se expandindo para todo o universo. Sou dotada de pura emoção e represando tanto tempo isso, é claro que não iria fazer bem. A rasteira que a danada da vida me deu não vem ao caso mas a reação que ocorreu em mim, ah isso sim, vale a pena comentar.

Ela me deu um looping dos bons me fazendo da noite pro dia, uma atleta de seu time. Era isso ou minguava. Preferi viver e retornar à minha antiga e sempre presente pessoa que fui e ainda sou. Só me encontrava anestesiada pela rotina.

Hoje, voltei a valorizar o belo, a poesia, a música e até voltei a traçar. Não é que continuo com meu traçado firme?

Compreendi que meu traço não tem fim, assim como a vida, é inacabado e digo isso porque tenho a certeza que nada termina por aqui. Caso contrário, seria muita sacanagem dela, a vida.

E ela, de tão boa ainda me ensinou outros traçados como esses, que acabo de escrever.

Imagem: Marcos Andolphatto

Me acabo no Blues

blues

Com o som nas alturas, mergulho de cabeça na canção que traduz meu estado emocional.

My Melancholy blues…Na voz potente de Freddie Mercury…

Trago com a alma, a fumaça do cigarro que nunca fumei mas, que por hora, minha atormentada alma solicita. Assim como a canção que mexe com cada molécula do meu ser.

And meet my melancholy blues… O piano num acorde “The end” na canção, inspira em mim mais uma tragada e uma vontade imensa de aspirar a vida com tudo o que ela me brinda.

Tenho andado assim nos últimos dias. Choro a todo momento, diante de cada cena que presencio no cotidiano. Tudo me emociona.

Porra de coração amolecido que tenho!!!

Às vezes praguejo esse meu modo de ser. Por outro lado, não seria escritora se não tivesse esse lado melancólico. É ele que tempera meu ser para que penetre fundo nas emoções e retorne cheia de histórias para contar.

É na companhia dela que tomo coragem para encarar minhas neuras, meu lado B, minhas vergonhas transformando-as em literatura. Ficam bonitas até!

É encarnando-a que tenho olhos para enxergar o quanto a vida nos presenteia diariamente com belezas traduzidas em afago de mãe, carinho de filha, chamego de um amor qualquer.

Ela, a melancolia, é uma ilha que permanece lá no fundo de minhas entranhas e que, volta e meia, regresso para banhar-me e beber de sua sabedoria retornando à superfície da vida com fôlego para encarar compromissos assumidos.

Interessante como é também através dela que conheci muitos autores que beberam de sua seiva. Pessoa, Lispector, Espanca, Cecilia Meireles, Virginia Woolf. Esses só pra citar alguns. Foram tantos nessa minha vida de leitora.

Aprendi muito com todos eles. Isso não significa que faço aqui uma apologia à depressão. Não mesmo!

No entanto, tenho absoluta certeza que, se estiver totalmente de boa, farei tudo  menos adentrar os meandros das emoções para escrever.

Mantenho-me submersa, de forma consciente, nas águas turbulentas e mornas da melancolia. Maestro, aumenta o som do Blues!

Imagem: Pinterest