Alma viajante

Mariana fotografada por Ninil

Sentada num galho de árvore, com um livro aberto, Fernanda divaga…

Cena digna de uma pintura. A imagem da jovem, pura fantasia. Uma Amelie Polin em terras tupiniquins. Sua mente anseia por libertar-se dos grilhões que a realidade lhe impõe.

Vida difícil ao lado de pessoas moldadas por mágoas e ódios arraigados desde a geração de seu bisavô.

Fernanda não compreende como eles podem carregar esse peso por tanto tempo. Ela, ao contrário, traz a leveza de uma bailarina russa na alma. E isso se reflete em seu corpo esguio, seus gestos naturalmente refinados, em seu sorriso fácil. Mesmo quando por dentro sangra dores alheias.

Sonha ganhar o mundo, fazer arte. Tem várias aptidões artísticas. Sua leveza facilita a dança, é dona de um timbre de voz suave, melódico. Escreve muito, com sensibilidade de uma alma velha, porém sonhadora. Sabe fazer belas peças em macramê e vende para suas amigas de escola, conseguindo assim, uma renda própria que investe em…

Ao contrário das outras jovens da sua idade, Fernanda tem uma alma antiga e adora comprar em brechó e customizar ela mesma, dando personalidade às suas vestimentas. Isso a torna ainda mais especial.

Seu dinheiro investe numa poupança desconhecida de sua família.

Secretamente planeja viajar para fora do país. Cada centavo que ganha, guarda e faz um álbum com recortes de viagem. Outro tanto que consegue com seus trabalhos, compra livros. Outra de suas paixões.

Seu sofrimento é a incompreensão da família com esse seu lado lúdico e artístico. Sua mãe acha que ela perde tempo demais lendo livros inúteis. Seu pai, trabalhador braçal, acha que ela deve começar a trabalhar como doméstica ou babá e parar de vez com essa “papagaiada” toda. Trazer dinheiro pra casa, para sustento de todos. Seu irmão mais velho, um trabalhador mecânico, há tempos perdeu o pouco de sonhos que acalentava. Hoje trabalha numa mecânica do bairro durante a semana e aos finais de semana se enterra de corpo e alma na bebida para afogar seus dissabores.

Volta para casa e irritado, desconta nas irmãs, na mãe e só não encara o pai porque ele é muito mais truculento e ignorante que ele. Não dá pra competir!

Com sua sensibilidade, Fernanda sente-se sufocar diante de tanta matéria bruta no lar.

A única a entender Fernanda é Fabiana, sua irmã de dez anos. Uma menina retraída, tímida, mas de um coração sem fronteiras nem limites.

Elas compartilham seus sonhos à noite na cama que dividem. Na realidade, Fernanda tenta motivar e ensinar Fabiana a sonhar. Não deseja para sua irmã caçula o mesmo destino dos outros. E enquanto sonham acordadas, olhando para o teto escuro, compartilham o fone de ouvido ouvindo Serenade for strings in E, Dvorák.

Esse é mais um gosto peculiar de Fernanda que os demais não compreendem. Segundo eles, música pra boi dormir. Para ela, alimento para a alma…

De volta à realidade, Fernanda pisca algumas vezes, olha em volta, observa as árvores, o gramado, o vento a lhe acariciar os cabelos lisos, as pessoas se divertindo.

Fecha o livro, observa e acaricia a bonita capa. “Mais de 100 histórias maravilhosas”, Marina Colasanti. Pensa consigo que um dia verá outra jovem com um livro aberto e esse livro será seu.

Abre o livro novamente e lê a frase solta numa página:

“Entre uma curva e outra, entre um jogo de dados e uma disputa de arco e flecha, os contos escorriam para dentro da viagem…”

Foto: Ninil Gonçalves

Modelo: Mariana Teixeira

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2 comentários sobre “Alma viajante

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