Lucubrações numa tarde chuvosa

A tarde úmida e fria me saúda. Olho pela janela e a vejo tingindo a cidade de cinza. Gosto disso. Cá dentro, no conforto de minha sala, saboreio um chá de rosa silvestre, hibisco e amora. Admiro sua tonalidade carmim, seu aroma adocicado, sua fumaça suave que sobe e se perde no ar. Assim como meus pensamentos. Gosto desse horário em que me perco em linhas de rimas, de ritmo e, falando em ritmo, minha trilha sonora é Brahms. Sua sonoridade me remete a um passado que possivelmente não vivi mas que me soa tão familiar. Chego a me ver rodopiando por aqueles imensos salões do século XIX. Lembro que ele – Brahms, representou brilhantemente o romantismo musical.

Também sou ultrarromântica e totalmente musical. Sorrio diante dessa constatação. Meu caro Brahms, temos coisas em comum!

O chá, delicioso aquece meu interior assim como as notas musicais que penetram muito mais que meus ouvidos. Inundam minha alma de uma paz temporária e boa demais. Sei que em breve irá embora mas por hora, me deleito.

Olho novamente pela janela e vejo que a garoa aperta, transformando a paisagem urbana numa pintura de Edward Hopper. Lá fora, diante do boteco, uma figura folclórica que tira seu cochilo habitual quase caindo de sua cadeira. Acho graça em seu perfeito equilíbrio sonambúlico.

Volto para a sala e constato inúmeras vidas solitárias agregadas em pseudos grupos. Cada alma encarcerada em seu universo particular não abrindo mão de seus celulares de grife. Dourados, negros, brancos, azuis. Telinhas brilhantes inundando a biblioteca de uma suposta vida virtual.

Incapazes de um “olho no olho”, desviam de meus olhos perscrutadores e curiosos. Gostaria tanto de receber um olhar de volta!

Agora é Bach quem me faz companhia. Isso me lembra o quanto ando afastada de qualquer religiosidade. Quanto tempo não adentro uma igreja a não ser para apreciar a arquitetura. Esse passatempo adquiri com um amigo que ama visitar igrejas e foi através dele, que perdi minha virgindade eclesiástica. Pode parecer engraçado para quem não me conhece mas, fui criada em outra religião apesar de ter feito primeira comunhão como manda o figurino. Imposição de papai que fazia questão que todos os seus filhos comungassem.

Outro dia, saindo do trabalho, caminhando sem rumo pela avenida Paulista, passei pela paróquia São Luis Gonzaga. Em mais de vinte anos passando em frente, nunca havia entrado! Minhas pernas ganharam independência e me levaram para seu interior.

Fiquei maravilhada com a paz que encontrei por lá. Em pleno coração financeiro e cultural de São Paulo, envolta por tanta poluição sonora, encontrei um mundo totalmente silencioso do qual tive que fazer um esforço absurdo para sair.

Aproveitei para pensar na vida. Ou melhor, aproveitei para limpar minha mente de qualquer pensamento ou preocupação cotidiana. Simplesmente fiquei!

Fechei os olhos e assimilei toda aquela energia que volitava por entre aquelas paredes. Que sensação maravilhosa. Recomendo a todos que façam ao menos um dia tal experiência. A única oração que fiz foi abrir meu coração e mente para toda aquela beleza invisível aos olhos humanos.

E falando em olhos humanos… O que vejo daqui de minha mesa! Oh dura realidade que nos força a retornar e deixar de lado as divagações.

Um doce de aluna recortando uma         peraí, uma     Vou disfarçar e chegar mais perto como quem não quer nada.

Uma revista DA BIBLIOTECAAAAAAA!!!!!!!!!!

“VALENTINAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!”

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6 comentários sobre “Lucubrações numa tarde chuvosa

  1. Hahahaha sorri muito agora… Adoro essa sua capacidade de nos levar pelo texto em uma direção e então nos surpreender, nesse caso com uma risada extremamente gratificante!

    Preciso dizer que gostei? Gostei, imensamente. ❤ 😘

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