Sem raízes

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Pela enésima vez, arrumo meus parcos pertences e preparo para sumir no mundo. De criança, tornei-me uma espécie de cigano por não criar raízes em nenhum lugar. A cada mudança de vida, de lar, de pai, lá ia eu, juntando tralhas e caindo na estrada ao lado de minha mãe. Percorremos cidades, estados, vilarejos. Pernoitei em camas estranhas que – com o passar do tempo, tornaram-se minhas amigas confidentes.

Hoje, homem feito e barbado, ainda me pego ressuscitando o menino assustado que fui, cada vez que a decisão de partir se apresenta. Não aprendi a conviver com as pessoas.Trafego por vidas que passam pela minha sem deixar marcas. Muito cedo aprendi que amar nos faz sofrer e, por conta disso, não permito que germine em meu canteiro.

Prefiro ele árido, vazio. Mas, confesso que às vezes sinto uma pontada de inveja daqueles que, mesmo sabendo que amar dói, insistem e conquistam uma vida a dois. Observo casais que perambulam pelas avenidas de mãos dadas, corpos colados numa cumplicidade que jamais terei com ninguém. Nessas horas a solidão cala fundo e uma dor profunda atravessa meu coração. Outro dia cheguei a vomitar de tanto que doeu. Afoguei minha dor num litro de vodca e acordei num banco de praça depenado. Levaram tudo: celular, maço de cigarro, alguns trocados que defendi fazendo michê na Augusta e meu par de tênis surrado. Não liguei. Levantei, entrei num boteco suspeito, mijei num banheiro que nenhum ser humano entraria, lavei o rosto, mirei…

Meu reflexo num espelho embaçado. Não me reconheci. No que me transformei? Não sei.

Aqueles olhos sem vida, sem esperança que me olhava, incomodou. No passado, bonito que era, ganhava todas as moças das cidades por onde passava. Rosto perfeito, jovial, corpo atlético, papo garantido. Conquistei e sangrei muitos corações ingênuos. Acredito até que tenha descendentes por esse mundão que percorri. Conquistava, seduzia, transava e caía fora sem deixar pistas. Esse era meu modus operandi. Até que cansei disso também e passei a usar meu corpo apenas para conseguir dinheiro para me manter. Transformei-me numa verdadeira máquina do sexo. Bastava colocar algumas moedas e funcionava que era uma maravilha. Cheguei inclusive a ser chamado a fazer filme pornô. Um agente que foi meu cliente fez a tal proposta dizendo que poderia ficar rico com isso afinal, tinha corpo sarado, era bom de cama e tinha carisma diante de uma câmera. Topei. Fiz alguns, ganhei dinheiro mas em pouco tempo, isso também me desinteressou. Com o dinheiro ganho, comprei passagem para a Turquia e me mandei apenas com minha mochila. Ah! E claro, acompanhado de meu mais recente brinquedinho: um Iphone. Meu único luxo. No decorrer de minhas andanças, criei um museu particular onde deixo registrado lugares, pessoas, objetos que de alguma forma fizeram minha história. Foi a maneira que encontrei de me sentir inserido num contexto coletivo. Congelei sorrisos, abraços, paisagens. Quando a solidão e a depressão batem em minha porta, acesso meu álbum de fotos e navego recuperando uma falsa alegria. Pode ser falsa mas surte efeito na hora. E assim, tenho passado minha existência.

Acabo de chegar a Bodrum, outrora chamada Halikarnassos. Uma curiosidade sobre mim: adoro ler sobre os lugares que pretendo viver. Gosto de estudar sua cultura, povo e costumes. Passeio por suas ruas ensolaradas, observo as construções pintadas de branco, vislumbro os inúmeros barcos atracados e o mar lindo a me saudar e dar boas vindas.

Fiquei sabendo que a vida noturna por aqui é boa. Significa que terei clientela e diversão por uns tempos.

Que assim seja até a próxima crise me abater e sentir que devo partir novamente.

Imagem comprada: Shutterstock

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6 comentários sobre “Sem raízes

  1. Gosto quando acompanho os textos de um autor e os últimos postados são os melhores, isto indica evolução, ou melhor, deixa as sensação de que virão coisas boas por aí.

  2. Sensacional esse conto Rose!

    Ilusão esse negócio de “não permito que germine”… mal sabe ele que certa semente tem vida própria e germina quando tiver que. Adorei!

    Gr. Bj.!

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