Amor ao que se faz

Roseli_Pedroso_370

No silêncio da biblioteca, um par de olhos percorre estantes, passeia por títulos e capas, busca algo que nem sabe o que é…

Tarde preguiçosa de outono, um jovem senhor percorre corredores, observa sinalizações, observa móveis, estantes, iluminação. Toca as capas de livros, esboça um sorriso no olhar.

Sai da mesma forma que entrou, em silêncio. Mas com uma diferença: sorri abertamente e, pela primeira vez, enxerga a bibliotecária que o tempo todo esteve atenta. Diz um quase inaudível e tímido “Boa tarde” e some pelos corredores.

Satisfeita, a bibliotecária olha para seus companheiros de trabalho e pensa:

“Mais um usuário feliz com o que encontrou. Esse, tenho certeza que voltará muitas e muitas vezes! Acompanhei de perto sua transformação.”

É isso. A matéria prima de um profissional de biblioteca não é apenas emprestar e devolver livros. Vai muito além. Como as sacerdotisas celtas, temos a missão de transformar leitores em pessoas melhores. E isso, fazemos através da escolha dos livros para exposição e sugestão de leituras, pelo nosso olhar sempre atento, conciliador, sedutor e claro, no sorriso contante em nossos rostos. Não aquele sorriso Colgate de propaganda de TV e sim, o sorriso que vem da alma e se espelha no rosto da(o) profissional que abraça essa profissão como sacerdócio e que acredita piamente que sua profissão é muito mais que seguir as tabelas PHAs, CDD e CDUs da vida.

Quem segue esse caminho torna-se apenas um tecnólogo competente mas frio. Nada contra afinal precisamos também desse profissional contudo, o usuário de uma biblioteca carece de alguém mais humanizado a frente do atendimento e da troca com eles. Numa biblioteca somos vários profissionais juntos num só: padre, psicólogo, professor, médico da alma, orientador. Ouvimos muitas vezes, o que ninguém soube e guardamos segredo pois sabemos o quanto nossa atenção e confiança é importante para aquele leitor que muitas vezes, sentindo-se desorientado em alguma questão, nos procura.

E com essa confiança adquirida, ganhamos o carinho, o respeito e o amor do usuário para o resto da vida. Sei disso por experiência própria. Ganhei usuários pequeninos, os vi crescer, orientei-os em várias questões e hoje, formados, adultos e com família constituída, encontro-os e sou sempre recebida com um sorriso e um brilho nos olhos de reconhecimento e respeito pela “tia da biblioteca” que tanto os ajudou.

É nessas horas que me certifico que escolhi a profissão certa!

Imagem: acervo da própria autora

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8 comentários sobre “Amor ao que se faz

  1. Felizmente, os olhos dos bibliotecários ainda são, das mais discretas, as melhores ferramentas de buscas para os leitores. (Google doesn’t search for feelings.)

    Paz e uma biblioteca de abraços.

    • Gustavo, fico feliz em ver que você reconhece a importância do humano na interação entre informação e usuário. Sem dúvida que a tecnologia chegou para ser mais uma ferramenta a nos auxiliar e não nos substituir. Concordo também que infelizmente, há muitos profissionais carrancudos e sem vontade de ajudar e ser próximo de seus usuários. Não é meu caso. Gosto de biblioteca cheia e de muita interatividade entre todos. Aqui, na biblioteca em que trabalho, todos são recebidos com um sorriso sincero para que retornem sempre. Grata pela visita e comentário.
      Abraço!

  2. Rose,

    Não sou Bibliotecária mas durante um tempo que ao menos pra mim não estava previsto, trabalhei em uma biblioteca. Esse tempo, hoje sei, foi um presente. Tive a oportunidade de ler muiiitooo e foi fantástico poder observar os que transitavam por ali.

    Pois bem, certo dia levei pra lá um livro que adorava reler e reler, Asas Partidas de Gibran. Nesse dia saí às pressas e acabei esquecendo meu livro lá. Era um exemplar super antigo, com as páginas amarelecidas e desgastadas, com aquele cheirinho maravilhoso de guardado. Acho que adorava reler exatamente pra poder sentir aquele cheiro enquanto lia.

    Então, no dia que voltei e procurei pelo meu livro tive uma triste surpresa, a Bibliotecária responsável, colega minha de trabalho, simplesmente achou o livro e por não saber de quem era, (apesar de ter meu nome) e por achá-lo velho demais, o jogou fora. Sabe, aquilo me doeu fundo na alma, claro que pela perda que tive pois, um exemplar antigo daquele nunca mais vou encontrar, mas o que me causou maior espanto e tristeza foi a falta de sensibilidade daquela criatura.

    Enfim, é muito bom saber de pessoas como você, que não exercem a profissão por exercer, mas que o fazem com consciência e respeito pelo objeto principal de seu ofício, afinal é ele que leva as pessoas até a biblioteca, o livro.

    Parabéns por sua profissão! Parabéns por fazer nela toda a diferença na vida daqueles que cruzam o seu caminho. Ah se ao menos tivesse sido alguém como você naquele dia…

    Gr. Bj. minha linda!

    • Cris, fiquei tocada e chocada pela sua história com biblioteca. Pôxa, essa minha colega de profissão agiu muito errado pois aqui, na biblioteca, quando perdem ou esquecem objetos seja livros ou qualquer outra coisa, sempre guardamos por um tempo e tentamos descobrir seu dono. Além de jamais se jogar livros fora. Mesmo que seja “velho”. De qualquer forma gostei de saber dessa sua experiência numa biblioteca. Bjs

  3. Eu ia fazer um comentário sobre o post quando li o comentário da Cris Campos e fiquei chocado: como assim, jogar fora um livro? Mas, não importa, bibliotecas tem alguma coisa em comum com templos, pedem silêncio, reverência e atenção, sem abrir mão da interatividade, é claro. A presença das sacerdotisas é indispensável para orientar nossos espíritos desatentos e desavisados. Adorei o texto!

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