Tarde voyeur (ou xeretando vida alheia)

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A tarde desmaia mansamente em minha janela tomada pela fuligem dos carros e cocôs de pombos. Meus olhos cansados passeiam pelos rostos anônimos. Observo o senhor da pipoca que toda tarde estaciona seu carrinho para faturar com a fome das crianças. Enquanto elas não saem pelo portão do colégio, ele joga conversa fora com o pessoal do boteco em frente. Daqui ouço suas vozes sem conseguir decodificar ao certo o assunto do momento. Ao lado do bar, uma loja de antiguidades exibe um elefante branco imenso em sua vitrine. Em minha opinião, um pouco exagerado para uma humilde vitrine. Enfim…Mudo o foco e visualizo uma madame saindo de um carro luxuoso parecendo que fugiu de uma propaganda europeia. Esguia, usando saia preta justa na altura do joelho, saltos agulha de verniz, blusa de seda estampa oncinha, ornada por joias que acredito, sejam verdadeiras. Óculos de sol Monblanc – reconheço pois sou mulher antenada na moda. Um luxo só!

Cabelos vermelhos de um brilho intenso, mais parece uma Gilda repaginada.

Dentes alvos envoltos em boca carnuda carmim feito seus cabelos. Não tem quem não vire para admirá-la.

Com ar preocupado, olha seu celular Nokia N95 com 325 diamantes, revestido de ouro dezoito quilates (reconheci pois li um artigo falando dessa belezura para poucos) e fazendo uma ligação, gesticula muito deixando a mostra mãos muito bem manicuradas. Mãos de quem nunca pegou no pesado. Espicho mais o pescoço para fora da janela na dura intenção de ouvir o que aquela diva Givenchy esbraveja ao celular. Coisa mais feia, é, eu sei mas a curiosidade matou um gato não foi? E eu doidinha para matar minha curiosidade sobre aquele personagem incomum.

Para minha infelicidade, o telefone toca. Resisto na vã esperança de que a pessoa do outro lado desista ou perceba que se enganou.

Não se enganou. Volto para a mesa atendendo uma desconhecida em busca de seu filho que ficou de passar a tarde na biblioteca estudando.

Irresponsavelmente respondo que ele não se encontra e desligo. Atravesso a sala louca para retomar minha aventura voyeur mas, o que encontro é um vazio onde a dama se encontrava. Um sentimento estranho toma conta de mim. Misto de decepção e espanto em me conscientizar do quanto saí de minha gaiolinha para xeretar vida alheia.

Acabei numa gargalhada sonora e gostosa deixando os poucos alunos aqui presentes sem entenderem nada do que havia acontecido. Ri até a barriga doer e ficar com os olhos lacrimejando. Voltei para a mesa balançando a cabeça observando o quanto uma boa música ao fundo e uma mente imaginativa pode criar afinal, tudo não passou de uma fuga de um dia de rotina cansativo. Só desejei repousar por alguns minutos na ficção. E não é que deu uma boa história?

Mas que eu fiquei curiosa com aquela dama…Ah fiquei! Quem será ela?

Talvez a encontre em outras histórias…

Imagem: Acervo da autora

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