Sonata ao luar

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Querer nem sempre é poder. Sempre soube disso pois na infância, cheia das vontades de ter brinquedos, o máximo que consegui foi ter uma boneca com os dedos decepados e metade da cabeça careca e muitos brinquedos confeccionados por minha avó. Me contentava com o que tinha. Nunca fui criança de muitas querências.

A vida me dava, eu sorria e agradecia.

Sempre tive uma relação íntima com a lua e as estrelas. Sentava à noite na calçada e enquanto os mais velhos ficavam de prosa contando muitos causos, eu, sozinha na companhia de minha imaginação, subia ao céu e permanecia na companhia delas. De lá, pulávamos nuvem por nuvem em busca de aventuras. Quando nos cansávamos e sentíamos frio, o Sol majestoso, nos dava um abraço aquecido e lá íamos novamente brincando, se escondendo, saltando, dando cambalhotas no espaço. Minha voz se perdia por entre diversos buracos negros – que de negros não têm nada.

A Lua certa vez me confidenciou o quanto gosta do Sol. Disse que adoraria ter uma noite caliente ao lado do todo poderoso. Achei graça e perguntei o que ela esperava para fazer isso.

Pensativa, olhou a sua volta, pigarreou, colocou suas mãos gorduchas na cintura e sorrindo me disse:

– Oras! Oras! Menina, isso não é assunto para discutir com você. Ainda é uma infante! Venha, vamos brincar de brilhar com as estrelas.

Soube por Vega e Rigel, que novas estrelas nasceram e que o céu se encontra em festa. Pedi que me levassem para conhecer as estrelinhas no que foi negado imediatamente. Vega, impostando sua voz e ampliando sua luz como forma de se parecer mais respeitável, disse que ainda não tenho maturidade para entrar na maternidade estelar.

Não insisti pois sei que elas são mais experientes que eu e sabem das coisas. Como disse a sábia e iluminada Sirius, tudo a seu tempo! E tempo é  o que tenho de sobra e dá-lhe brincadeiras nas nuvens.

Roseliii!! Oh menina que vive ni mundo da Lua. Nunca vi coisa igual. Anda, levanta desse chão que começou a garoar. Não vê que o céu fechou, nublou e já começa a trovejar? Anda! Vem pra dentro que já é tarde e amanhã tem aula logo cedo.

…- Já vou mãe! Tô me despedindo de minhas amiguinhas!

Cresci, perdi contato com minhas companheiras de infância. Tempo, que achava que tinha de sobra, hoje faço das tripas coração para tê-lo com economia. Hoje em dia é iguaria rara, pouquíssimas pessoas tem em abundância.

As incumbências adultas, a responsabilidade em excesso, a brutalidade da realidade apagaram pouco a pouco a fantasia que habitava meu ser. Adulta, apenas executo, cumpro. Ligada no automático, acordo, trabalho, como, durmo. Minha vida tornou-se uma sucessão de liga/desliga.

Até ontem quando, voltando para casa, cansada, com sono, com fome, ela se manifestou para mim de forma esplendorosa. Mágica. Única. Como há muito tempo não via.

No topo de minha rua que é descida, deparei-me com ela imensa, radiante, espaçosa.  Teve o topete de afastar todas as nuvens, prédios, poluição para se manifestar para mim.

Em meio a rua, fiquei paralisada diante de tamanha beleza. Um reencontro mágico, especial entre duas companheiras que há muito não se viam.

Seu cumprimento foi se iluminar intensamente como forma de me dizer:

– Ei companheira, lembra-se de mim? Estou aqui! Aliás, sempre estive aqui

Eu entendia sua mensagem e emocionada, sorri por entre lágrimas que embaçavam minha visão tornando sua imagem  etérea feito aparição.

– Sua louca! Está com a cabeça nas nuvens! Não vê que está no meio da rua? Quer morrer quer? Ei! Tá no mundo da Lua? Tá? Qualquer hora vai ser atropelada hein dona!

E dizendo isso, um motorista irritado acelerou seu carro e quase tirou uma fina de mim, que ainda tomada por essa letargia, enluarada me assumia e caindo numa gostosa gargalhada como há muito não tinha, terminei de atravessar a rua descendo a ladeira de olhos pregados nela. Minha amiga de tantas noites, de tantas infâncias, de tantas aventuras. Ao chegar no portão de casa, num ato de resistente despedida, olhei para o alto e vi que agora, ela não se encontrava mais sozinha. Estava rodeada de minúsculas luzes, minhas outras companheiras de traquinagem.

Abri o portão, entrei e sensibilizadas com minha comoção, as roseiras se viraram em minha direção exalando um perfume que me intoxicou de alegria. A magia havia voltado a habitar minha alma. Sentindo uma tremedeira nas pernas, sentei-me no degrau na área e chorei. Mas não foi um choro de tristeza não. Foi um choro de redenção, de compreensão da realidade fantástica que nunca havia se esgotado em mim. Apenas havia adormecido por um tempo. Estava salva da mediocridade.

Da casa vizinha, um som maravilhoso de trompete rasgou o espaço físico instalando-se em meu coração que por hora, batia num ritmo jazzístico de melancólica felicidade.

Imagem: Google

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4 comentários sobre “Sonata ao luar

  1. Como assim perdeu contato com as estrelas? Isso é inaceitável. Penso que em eclipses sol e lua ficam na boa. Adorei a crônica e tenho uma pergunta fora de pauta: sabe da Aurea? Tô querendo saber notícia dessa moça que sumiu

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