Ritual

Ai ai ai viu! Daqui a pouco me dão as contas. É vício, eu sei. Assumo. Mas por mais que eu tente ficar longe não tem jeito. É mais forte que eu. Hoje simplesmente estou completamente tomada pela fissura. É um gole de café e uma dose dela. Outro café, outradose e uma sensação absurda de boa toma conta de mim. Essa voz no ouvido me transmite um poder que às vezes, penso ser uma miragem. Perco a noção da realidade, embarco numa viagem naqual não desejo retornar. Aqui dentro, onde pulsa a vida, uma voz me diz o tempo todo: “Tem que ser agora”. Então te olho nos olhos e peço para você dar o nome a essa coisa insana que se agiganta aqui dentro. Sei lá… Desculpa, sei que já estou me tornando desagradável, repetitiva, chata mesmo! Mas…Perdoa! Perdoaaa!!

Então aconteceu. De novo, aconteceu. Já deveria de estar acostumada afinal, não era minha primeira vez.

O já famoso e conhecido frio na barriga. Como já disseram antes e não consigo precisar quem, sinto “borboletas” batendo suas asas aqui dentro, em meu centro. A respiração entrecortada causa-me uma certa fadiga, uma sensação de quase morte. Passo a suar frio. Na nuca, nas mãos, e, enquanto em alguns lugares escorro em bicas, minha boca seca. Torna-se árida feito sertão. Uma certa acidez se espalha por toda a língua me impedindo de falar. Só sinto.

Só penso.

Não, minto. Pensar é um ato consciente. O que ocorre comigo é algo que ultrapassa qualquer lógica. Reporto-me a um buraco negro no espaço e ali permaneço. Os minutos vão passando lentamente, minha ansiedade ultrapassa os limites do suportável. Penso: Acho que vou morrer! De hoje não passo!

Então observo pessoas olhando para os lados, risinhos nervosos, expectativa estampada no rosto. Pessoas se encontram, se abraçam, sorriem, trazem no olhar um brilho diferenciado.

Após sorrir para algumas pessoas, abraço tantas outras, pisco para algumas distantes e sorrateiramente saio de cena. Subo os degraus que me levarão ao meu lugar. Para alguns, sou louca, para outros, corajosa. Para mim, normal afinal, já fiz isso tantas e tantas vezes que é como retornar ao útero materno. Conhecido, aquecido, gostoso.

Na penumbra, assim como no útero da mãe, permaneço. Me aqueço para logo mais. Olhar fixo num ponto aguardo.

Escuridão total. Silêncio…

As cortinas se abrem e junto o som harmonioso da banda e orquestra anunciando a voz que tanto aguardamos.

Olha, paixão não se explica. Sente-se. Deixa-se levar pelas emoções que ela nos proporciona.

E música confesso, é um de meus vícios. E não luto contra não. Envolvo-me totalmente e por alguns minutos, horas, esqueço de tudo: violência, carência, guerra, pobreza, fome, injustiça, contas a pagar. Uma alegria toma conta de mim por constatar que não estou sozinha nessa. Tenho muita companhia.

E nessa catarse coletiva, vou me despindo daquilo que não me serve, vou abrindo caminhos interiores através das notas musicais e da voz que me fascina e serve de fio condutor nesse meu nirvana.

Rio, choro, quase morro afinal, são tantas emoções desencadeadas que em alguns momentos penso que realmente meu coronário explodirá esparramando minha essência por todo o teatro.

Por algumas frações de segundos, retorno à realidade e vejo que muitas pessoas choram assim como eu.

Até os durões maridos e namorados que acompanham suas parceiras de forma contrariada, encontram-se emocionados. Não dá para disfarçar.

Ao término dessa sessão de descarrego do bom, voltamos para casa com a alma leve, sublimada, feliz.

Grata mais uma vez por esses representantes dos deuses servirem de ponte entre o sagrado e o humano.

Por algumas horas resgatamos nossa porção divina através da música, da dramaturgia, da sétima arte.

Esse texto é para você Pedro e para toda a galera que te ama!

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4 comentários sobre “Ritual

  1. Que interessante ler as mesmas sensações do outro lado, Roseli!! No início, ou melhor, até o meio do texto vim pensando “ela também canta?” hahahaha… Sim! A música tem um poder imenso… faz essa ponte, bela escolha de palavras. Semana passada fui assistir uma orquestra de cordas e fiquei lá, maravilhada com esse poder que a música tem de nos transportar para outra dimensão, longe das coisas mundanas. Belo!!

    • A magia acontece dos dois lados não é mesmo Marcia? O Pedro já comentou com seu público o quanto ele se sente ansioso e ao mesmo tempo feliz em estar no palco. A música é realmente um elixir para a alma. Não vivo sem. Bj

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