Amor ao que se faz

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No silêncio da biblioteca, um par de olhos percorre estantes, passeia por títulos e capas, busca algo que nem sabe o que é…

Tarde preguiçosa de outono, um jovem senhor percorre corredores, observa sinalizações, observa móveis, estantes, iluminação. Toca as capas de livros, esboça um sorriso no olhar.

Sai da mesma forma que entrou, em silêncio. Mas com uma diferença: sorri abertamente e, pela primeira vez, enxerga a bibliotecária que o tempo todo esteve atenta. Diz um quase inaudível e tímido “Boa tarde” e some pelos corredores.

Satisfeita, a bibliotecária olha para seus companheiros de trabalho e pensa:

“Mais um usuário feliz com o que encontrou. Esse, tenho certeza que voltará muitas e muitas vezes! Acompanhei de perto sua transformação.”

É isso. A matéria prima de um profissional de biblioteca não é apenas emprestar e devolver livros. Vai muito além. Como as sacerdotisas celtas, temos a missão de transformar leitores em pessoas melhores. E isso, fazemos através da escolha dos livros para exposição e sugestão de leituras, pelo nosso olhar sempre atento, conciliador, sedutor e claro, no sorriso contante em nossos rostos. Não aquele sorriso Colgate de propaganda de TV e sim, o sorriso que vem da alma e se espelha no rosto da(o) profissional que abraça essa profissão como sacerdócio e que acredita piamente que sua profissão é muito mais que seguir as tabelas PHAs, CDD e CDUs da vida.

Quem segue esse caminho torna-se apenas um tecnólogo competente mas frio. Nada contra afinal precisamos também desse profissional contudo, o usuário de uma biblioteca carece de alguém mais humanizado a frente do atendimento e da troca com eles. Numa biblioteca somos vários profissionais juntos num só: padre, psicólogo, professor, médico da alma, orientador. Ouvimos muitas vezes, o que ninguém soube e guardamos segredo pois sabemos o quanto nossa atenção e confiança é importante para aquele leitor que muitas vezes, sentindo-se desorientado em alguma questão, nos procura.

E com essa confiança adquirida, ganhamos o carinho, o respeito e o amor do usuário para o resto da vida. Sei disso por experiência própria. Ganhei usuários pequeninos, os vi crescer, orientei-os em várias questões e hoje, formados, adultos e com família constituída, encontro-os e sou sempre recebida com um sorriso e um brilho nos olhos de reconhecimento e respeito pela “tia da biblioteca” que tanto os ajudou.

É nessas horas que me certifico que escolhi a profissão certa!

Imagem: acervo da própria autora

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Tarde voyeur (ou xeretando vida alheia)

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A tarde desmaia mansamente em minha janela tomada pela fuligem dos carros e cocôs de pombos. Meus olhos cansados passeiam pelos rostos anônimos. Observo o senhor da pipoca que toda tarde estaciona seu carrinho para faturar com a fome das crianças. Enquanto elas não saem pelo portão do colégio, ele joga conversa fora com o pessoal do boteco em frente. Daqui ouço suas vozes sem conseguir decodificar ao certo o assunto do momento. Ao lado do bar, uma loja de antiguidades exibe um elefante branco imenso em sua vitrine. Em minha opinião, um pouco exagerado para uma humilde vitrine. Enfim…Mudo o foco e visualizo uma madame saindo de um carro luxuoso parecendo que fugiu de uma propaganda europeia. Esguia, usando saia preta justa na altura do joelho, saltos agulha de verniz, blusa de seda estampa oncinha, ornada por joias que acredito, sejam verdadeiras. Óculos de sol Monblanc – reconheço pois sou mulher antenada na moda. Um luxo só!

Cabelos vermelhos de um brilho intenso, mais parece uma Gilda repaginada.

Dentes alvos envoltos em boca carnuda carmim feito seus cabelos. Não tem quem não vire para admirá-la.

Com ar preocupado, olha seu celular Nokia N95 com 325 diamantes, revestido de ouro dezoito quilates (reconheci pois li um artigo falando dessa belezura para poucos) e fazendo uma ligação, gesticula muito deixando a mostra mãos muito bem manicuradas. Mãos de quem nunca pegou no pesado. Espicho mais o pescoço para fora da janela na dura intenção de ouvir o que aquela diva Givenchy esbraveja ao celular. Coisa mais feia, é, eu sei mas a curiosidade matou um gato não foi? E eu doidinha para matar minha curiosidade sobre aquele personagem incomum.

Para minha infelicidade, o telefone toca. Resisto na vã esperança de que a pessoa do outro lado desista ou perceba que se enganou.

Não se enganou. Volto para a mesa atendendo uma desconhecida em busca de seu filho que ficou de passar a tarde na biblioteca estudando.

Irresponsavelmente respondo que ele não se encontra e desligo. Atravesso a sala louca para retomar minha aventura voyeur mas, o que encontro é um vazio onde a dama se encontrava. Um sentimento estranho toma conta de mim. Misto de decepção e espanto em me conscientizar do quanto saí de minha gaiolinha para xeretar vida alheia.

Acabei numa gargalhada sonora e gostosa deixando os poucos alunos aqui presentes sem entenderem nada do que havia acontecido. Ri até a barriga doer e ficar com os olhos lacrimejando. Voltei para a mesa balançando a cabeça observando o quanto uma boa música ao fundo e uma mente imaginativa pode criar afinal, tudo não passou de uma fuga de um dia de rotina cansativo. Só desejei repousar por alguns minutos na ficção. E não é que deu uma boa história?

Mas que eu fiquei curiosa com aquela dama…Ah fiquei! Quem será ela?

Talvez a encontre em outras histórias…

Imagem: Acervo da autora

Estado indefinível

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Choro uma dor sentida que ninguém é capaz de compreender. Para todos, encontro-me senil, débil, demente.
Ninguém compreende o que sinto e vejo ao meu redor. Tento falar, expor minha agonia, meu medo e ninguém me dá ouvido.
Pensam que não sei o que falam entre si. Acreditam que não ouço, não vejo, não sinto.
Acham que já me encontro em estado adiantado de putrefação física.
Pode até ser que em parte, isso seja verdade. No entanto, nunca estive tão lúcido.
Foi preciso viver um século para obter tal visão da vida e do mundo.
Agora eu jogo a pergunta a você: de que me serve tamanha clareza de tudo se ninguém me ouve? Ninguém acredita naquilo que falo.

De que me serve uma experiência de vida que adquiri através da labuta incessante, de pegar no cabo da enxada logo cedo, aprender mil ofícios para crescer, tornar-me homem de verdade, ajudar meus pais, meus irmãos? De que adiantou abdicar de uma vida adulta com família formada, mulher, filhos, netos?
Abri mão de tudo isso para ajudar papai e mamãe e o que ganhei em troca? Abandono.
Primeiro foi papai que partiu sem nem despedir da gente. A seguir, mamãe, inconformada com seu sumiço, abandonou a gente e nunca mais deu notícias…
Dá uma revolta pensar nisso!!
Levei uma vida inteira formando minha persona, fortalecendo-a na fé, no exemplo a ser seguido por todos. Tornei-me um guru para os mais novos. Um líder a ser seguido. Ganhei com o tempo muitos adeptos de meu estilo de vida. Fiz também muitos desafetos por ser inflexível com aqueles que não “rezavam pela minha cartilha”.
Quando mais novo, nem liguei para tais desafetos. Mas hoje, olhando para meu passado, confesso que fico incomodado.
Afastei de mim amigos que através de minha conduta, criaram reservas, se afastaram falando mal de mim.

Alguns chegaram inclusive a espalhar que eu havia me transformado num mascarado, num santo do pau oco, num falso cristão.
Logo eu, que transformei minha vida num eterno refazer espiritual, num ser moldável pelas palavras e exemplos de Cristo.
Assim como ele, fui incompreendido. Jogaram-me pedras morais que arranharam minha imagem. Por mais que tenha lutado, enfraqueci. Fui pouco a pouco diminuindo em essência e com o avançar dos anos, até minha estatura diminuiu.
Meus cabelos fartos foram rareando, platinando, meus olhos embaçando, minha pele perdeu o viço de outrora até que um dia, sucumbi.
De acordo com a medicina dos homens, tive um acidente vascular. Mas sei que foi minha alma que quedou do alto de meu orgulho de homem feito. A queda foi grande, o estrago imenso.
De lá pra cá, só decaindo ladeira abaixo.
Hoje, aos noventa anos, sinto que minha vida foi em vão. Toda energia empregada numa filosofia de vida que achei certa, corroborou, faliu, desmoronou feito castelo de areia.
Ruiu deixando a mostra, uma estrutura frágil de um ser humano prestes a deixar esse mundo da mesma forma que chegou: sem fala, sem movimentos equilibrados, mijando, defecando, babando e chorando muito. Um bebê crescido e fragilizado que só deseja retornar para o ventre aquecido e familiar de sua mãe. Seu verdadeiro lar.
Nascer dói por isso o bebê ao nascer chora. Um esforço sub-humano que fazemos para se deslocar expulsos da adorável placenta.

Morrer dói mais ainda porque ao cair nas malhas da matéria, nos iludimos uma vida inteira crendo que conquistou posição, bens, status.
Ledo engano.
Aos poucos tudo nos é tirado e ao término da vida, até a passagem é feita de forma solitária.
Sinto-me cansado. O esqueleto pesa, respirar cansa, comer – de um prazer, passou a uma tortura sem fim.
Hoje posso compreender as pessoas que desejam eutanásia. Sempre fui contra, mas só mesmo passando por tudo isso, é que se torna um simpatizante dessa atitude.
Não desejo mais viver. Não assim. Não nesse estado indefinível entre o lá e o cá.

 

Imagem comprada: Shutterstock

Dieta certeira

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Maria das Dores Eterno, mais conhecida como Dorinha, desde que se conhecia por gente vivia em dietas. A partir dos dezoito anos não parou mais de passar de uma para outra de forma maratonal. Se é que isso é possível. Ela fazia ser! Fazia assinatura das revistas que tratavam do assunto, assistia na TV tudo o que passava.

O que não dava tempo, gravava para ver depois. Com o advento da internet, virou internauta das mais fissuradas. Se especializou tanto no assunto que se transformou na guru das amigas e colegas de trabalho. Passou a dar consultoria em seu horário de almoço em pleno refeitório. Olhava as marmitas como verdadeira arqueóloga analisando calorias, proteínas, vitaminas e tudo o que faz de uma boa refeição um prato saudável. Muitas moças seguiram seus conselhos à risca e conseguiram bons resultados.

Em pouco tempo ganhou fama, notoriedade, até um blog criou e de lambança, muitos quilos extras. Já beirando os 110 quilos muito bem distribuídos ao redor de seus pneus bem calibrados e de seu pescoço inflado, procurou desesperadamente ajuda médica.

Expôs detalhadamente sua eterna batalha contra o peso e seu conhecimento aplicado que de nada lhe adiantava.

O médico – em silêncio analítico – após uns segundos recomendou tratamento a base de medicação e ao término aconselhou-a:

– Dona Maria das Dor…

– Dorinha, por favor! Eu prefiro.

– Perfeitamente Dorinha, siga minha orientação e aproveite e marque uma consulta com um bom terapeuta.

Se não conhecer ninguém, posso indicar uns três de minha confiança e que já trabalho junto com alguns pacientes.

Com expressão de estranhamento, Dorinha inquiriu o porquê do médico endócrino recomendar um acompanhamento terapêutico afinal, ela não era doida!

– Dorinha, muitas vezes, nosso excesso de peso está ligado diretamente ao emocional que por ene motivos se encontra em desequilíbrio. Se você já seguiu inúmeras dietas e nada conseguiu, pode ser que a chance de seu excesso de peso esteja ligado ao emocional. Não se trata de loucura mas sim de acertas as arestas do suas emoções e de como lidar com elas. Compreende?

– Sim, acho que sim. Doutor, tenho um pouco de medo de lidar com essas coisas mas passe o endereço que prometo marcar.

Após alguns dias em dúvida se ligava ou não, Dorinha respirou fundo e ligou marcando para aquele final de dia mesmo. Ao chegar ao consultório, entrou ressabiada com o que encontraria lá. Em segundos acalmou-se pois o consultório era como tantos outros que já entrara. Silêncio na sala de espera e ao fundo, uma música de Norah Jones tornava o ambiente mais aconchegante. Um som de porta se abrindo e em pouco tempo, surge uma jovem mulher que se posiciona à sua frente e com delicadeza oriental pergunta:

– Maria das Dores?

– Só Dorinha, por favor.

– Perfeito! Dorinha é mais carinhoso e torna nosso primeiro encontro mais tranquilo. Meu nome é Sônia, sou psicanalista da linha yunguiana e a partir de hoje sou toda ouvidos para você. Me acompanhe.

As sessões foram passando juntamente com as semanas, meses, um ano. Algumas delas foram terrivelmente sofridas levando Dorinha a quase desistir da terapia. No entanto, Sônia foi sempre uma mão preciosa estendida à pobre e sofrida mulher. Outras tantas sessões foram leves, engraçadas e assim, pouco a pouco, o equilíbrio foi se estabelecendo.

Vinte e seis de agosto, terça-feira. Dia de mais uma terapia. Dorinha se encontra um pouco ansiosa. Sente que hoje será de alguma forma diferente. A porta se abre e uma voz chama Dorinha, que se levanta pesadamente e some por trás da porta.

– Como passou a semana?

– Mais ou menos. Tenho momentos de leveza permeado de tantos outros que parecem pesar mais que eu.

Sinto dores horríveis pelo corpo. À noite quase não tenho conseguido dormir por conta dessas dores.

Minha irmã mais nova, Maria dos Prazeres, vive rindo de mim dizendo que nossos pais escolheram nossos nomes a dedo. E que personifico muito bem o significado de meu nome. Assim como o dela.

Olhando-a profundamente por alguns segundos, Sônia sorri e diz calmamente:

– Dorinha, ainda vamos trabalhar muito essa sua relação com sua irmã e o significado de seus nomes. Hoje, o que tenho a dizer e que quero muito contar com sua ajuda, é o seguinte: acredito que descobri a origem de sua obesidade.

– Sério mesmo? Descobriu? Vou poder agora emagrecer e me sentir mais leve? Ahh… Graças a Deus! Graças à você. Mas me diz,o que descobriu?

– Nesses meses em que temos nos encontrado semanalmente, tenho formado um verdadeiro mosaico de você e sua vida(familiar, profissional, pessoal) e acredito ter achado um ponto em comum que liga todos.

– Fala Sônia!

– Seu nome, sem dúvida de alguma forma é um peso em você. Tanto que prefere ser chamada por Dorinha, que soa mais leve, mais amistoso. Você seguiu direitinho. Quanto a isso está de parabéns pois demonstra disciplina em tudo o que faz. No entanto, observei que desde sua infância você devora de forma constante um alimento que entope, que incha e que talvez seja o motivo de toda sua gordura: você se alimenta de forma quase instantânea de sapos.

– Como assim? Não entendi? Não costumo comer rãs.

– Não disse rãs Dorinha. Disse sapos. Você é uma tremenda devoradora de sapos. Engole todos. Isso está te fazendo mal. Silêncio absoluto na sala.

Dorinha parece uma estátua não movendo nenhum músculo. Nem mesmo sua respiração se percebe.

Sônia aguarda respeitando o momento de intervir. Somente o tic-tac do relógio se manifesta.

Gradualmente a máscara gélida vai se derretendo e, de pálida, passa a um colorido carmin. Lábios trêmulos e olhar apertado. Um choro manso e quase silencioso começa a brotar até transformar-se num desespero pleno.

Sônia continua em silêncio. Essa desintoxicação se faz necessária para que a paciente descarregue toda essa comilança mal digerida de atitudes que tanto lhe fizeram mal. Muitos de nós, no dia a dia faz dessa dieta certeira, o combustível nefasto para inflar nosso interior, nosso corpo que nada mais é, que reflexo de tudo o que nos faz bem ou mal.

 

Imagem: Fernando Botero

Despregando memórias

Hoje amanheci com o coração aos pulos de alegria e uma felicidade que há muito não sentia. Acordei sentindo seu cheiro amadeirado, seu hálito quente, sua língua exploratória, seu toque inconfundível. Demorei a abrir os olhos pois não desejava retornar à realidade. Ali, na penumbra do quarto, mantive-me quietinha, inerte, quase sem respirar só para não quebrar o encantamento daquele momento.

Resgatar os instantes que passamos juntos é talvez, a melhor coisa que a memória faz por nós. Lembrei de uma frase sua:

‘É bom sentir saudade. É sinal que vivemos algo, construímos algo. Esses momentos são pedras preciosas que carregamos até o fim de nossas vidas. Guarde-as com carinho meu amor.”

Lembra disso? Eu gravei essa e muitas outras coisas suas. Nossas.

Não tivemos a chance de construir muitas coisas. Muito pelo contrário, o tempo foi algoz, o destino atroz no entanto, o pouco que conseguimos, ficou.

E passado tantos anos…Pra falar a verdade, décadas,  parece que tudo aconteceu ontem.

Hoje, vivo sozinha numa bela casa de repouso. Não quis saber de morar com minha filha. Ela tem sua vida, sua família, seu trabalho. Seria um fardo pesado demais em suas costas. Como no decorrer dos anos soube investir meu dinheiro, hoje posso me dar o luxo de pagar por esse “depósito” de idosos. Aqui tenho tudo o que preciso: quarto individual com banheiro adaptado, refeições bem feitas e diversificadas, uma TV no quarto que dificilmente assisto. Somente quando perco o sono pela madrugada e busco esquecer a realidade é que ligo a fábrica de sonhos. Só que, pra falar a verdade quase nunca presto atenção. É mais pelo som, pela imagem que me faz sentir menos sozinha. Continuo a ler muito só que agora seleciono minhas leituras garimpando livros que tenha uma fonte maior para poder enxergar bem. Sabe como é, coisa da idade. Ah! Outra coisa que adquiri com o tempo: escrever.

Coleciono uma dezena de cadernos com manuscritos meus. São coisas bobas, do cotidiano. Um filtro que passo em tudo o que vivencio, vejo e transformo em narrativas. Não tenho e nunca tive pretensões literárias. Sei que não levo jeito pra competir com tanta gente talentosa mas, tornou-se um bom passatempo enquanto ela, a morte, não se lembra de vir me buscar.

O que? Você acha que tenho medo dela? Nem um pouco! No passado, quando jovem e com uma vida inteira pela frente, sentia sim. Mas hoje, no alto de meus oitenta e oito anos, penso nela como uma companheira atenciosa, prestativa, certeira. Talvez a única que tenha um real olhar para mim. Sim porque, velhos costumam ser invisíveis e recebem olhar que atravessam e não permanecem. Entende a diferença? Não? Pode ser porque você ainda é jovem. Quando chegar a minha idade saberá do que falo.

Osório, a única queixa que tenho sobre o tempo e a memória, é que aos poucos, todos os nossos arquivos de vida vão desbotando. Você, por exemplo, não consigo mais fixar os detalhes de sua figura que era tão bonita. Meu cérebro já não funciona tão bem como antes. Outro dia até caí na risa sozinha quando vi que estava trocando seu nome. Logo seu nome que foi tão importante pra mim. Escrevia sobre você em meu caderno e, quando parei para ler, vi que tinha te chamado de Tenório. Imagina só.

Que pena, a consciência vai dominando meu corpo enrugado e aos poucos, por mais que lute contra, sua imagem, seu cheiro e tudo o que te compõe vai sumindo. Ficando apenas uma vaga sensação delirante. Sinto que estou despregando memórias. Ao final, acho que nada se manterá, apenas um vazio de vida.

Envelhecer tem disso. Deve ser também a reação aos remédios. São tantos que nos fazem engolir!

“Acorda dona Tereza! O dia está lindo lá fora. Vamos tomar o café da manhã e depois, um pouco de sol” – dito isso, a cuidadora abriu as cortinas inundando o quarto de luz e de realidade.

Sonata ao luar

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Querer nem sempre é poder. Sempre soube disso pois na infância, cheia das vontades de ter brinquedos, o máximo que consegui foi ter uma boneca com os dedos decepados e metade da cabeça careca e muitos brinquedos confeccionados por minha avó. Me contentava com o que tinha. Nunca fui criança de muitas querências.

A vida me dava, eu sorria e agradecia.

Sempre tive uma relação íntima com a lua e as estrelas. Sentava à noite na calçada e enquanto os mais velhos ficavam de prosa contando muitos causos, eu, sozinha na companhia de minha imaginação, subia ao céu e permanecia na companhia delas. De lá, pulávamos nuvem por nuvem em busca de aventuras. Quando nos cansávamos e sentíamos frio, o Sol majestoso, nos dava um abraço aquecido e lá íamos novamente brincando, se escondendo, saltando, dando cambalhotas no espaço. Minha voz se perdia por entre diversos buracos negros – que de negros não têm nada.

A Lua certa vez me confidenciou o quanto gosta do Sol. Disse que adoraria ter uma noite caliente ao lado do todo poderoso. Achei graça e perguntei o que ela esperava para fazer isso.

Pensativa, olhou a sua volta, pigarreou, colocou suas mãos gorduchas na cintura e sorrindo me disse:

– Oras! Oras! Menina, isso não é assunto para discutir com você. Ainda é uma infante! Venha, vamos brincar de brilhar com as estrelas.

Soube por Vega e Rigel, que novas estrelas nasceram e que o céu se encontra em festa. Pedi que me levassem para conhecer as estrelinhas no que foi negado imediatamente. Vega, impostando sua voz e ampliando sua luz como forma de se parecer mais respeitável, disse que ainda não tenho maturidade para entrar na maternidade estelar.

Não insisti pois sei que elas são mais experientes que eu e sabem das coisas. Como disse a sábia e iluminada Sirius, tudo a seu tempo! E tempo é  o que tenho de sobra e dá-lhe brincadeiras nas nuvens.

Roseliii!! Oh menina que vive ni mundo da Lua. Nunca vi coisa igual. Anda, levanta desse chão que começou a garoar. Não vê que o céu fechou, nublou e já começa a trovejar? Anda! Vem pra dentro que já é tarde e amanhã tem aula logo cedo.

…- Já vou mãe! Tô me despedindo de minhas amiguinhas!

Cresci, perdi contato com minhas companheiras de infância. Tempo, que achava que tinha de sobra, hoje faço das tripas coração para tê-lo com economia. Hoje em dia é iguaria rara, pouquíssimas pessoas tem em abundância.

As incumbências adultas, a responsabilidade em excesso, a brutalidade da realidade apagaram pouco a pouco a fantasia que habitava meu ser. Adulta, apenas executo, cumpro. Ligada no automático, acordo, trabalho, como, durmo. Minha vida tornou-se uma sucessão de liga/desliga.

Até ontem quando, voltando para casa, cansada, com sono, com fome, ela se manifestou para mim de forma esplendorosa. Mágica. Única. Como há muito tempo não via.

No topo de minha rua que é descida, deparei-me com ela imensa, radiante, espaçosa.  Teve o topete de afastar todas as nuvens, prédios, poluição para se manifestar para mim.

Em meio a rua, fiquei paralisada diante de tamanha beleza. Um reencontro mágico, especial entre duas companheiras que há muito não se viam.

Seu cumprimento foi se iluminar intensamente como forma de me dizer:

– Ei companheira, lembra-se de mim? Estou aqui! Aliás, sempre estive aqui

Eu entendia sua mensagem e emocionada, sorri por entre lágrimas que embaçavam minha visão tornando sua imagem  etérea feito aparição.

– Sua louca! Está com a cabeça nas nuvens! Não vê que está no meio da rua? Quer morrer quer? Ei! Tá no mundo da Lua? Tá? Qualquer hora vai ser atropelada hein dona!

E dizendo isso, um motorista irritado acelerou seu carro e quase tirou uma fina de mim, que ainda tomada por essa letargia, enluarada me assumia e caindo numa gostosa gargalhada como há muito não tinha, terminei de atravessar a rua descendo a ladeira de olhos pregados nela. Minha amiga de tantas noites, de tantas infâncias, de tantas aventuras. Ao chegar no portão de casa, num ato de resistente despedida, olhei para o alto e vi que agora, ela não se encontrava mais sozinha. Estava rodeada de minúsculas luzes, minhas outras companheiras de traquinagem.

Abri o portão, entrei e sensibilizadas com minha comoção, as roseiras se viraram em minha direção exalando um perfume que me intoxicou de alegria. A magia havia voltado a habitar minha alma. Sentindo uma tremedeira nas pernas, sentei-me no degrau na área e chorei. Mas não foi um choro de tristeza não. Foi um choro de redenção, de compreensão da realidade fantástica que nunca havia se esgotado em mim. Apenas havia adormecido por um tempo. Estava salva da mediocridade.

Da casa vizinha, um som maravilhoso de trompete rasgou o espaço físico instalando-se em meu coração que por hora, batia num ritmo jazzístico de melancólica felicidade.

Imagem: Google

Ritual

Ai ai ai viu! Daqui a pouco me dão as contas. É vício, eu sei. Assumo. Mas por mais que eu tente ficar longe não tem jeito. É mais forte que eu. Hoje simplesmente estou completamente tomada pela fissura. É um gole de café e uma dose dela. Outro café, outradose e uma sensação absurda de boa toma conta de mim. Essa voz no ouvido me transmite um poder que às vezes, penso ser uma miragem. Perco a noção da realidade, embarco numa viagem naqual não desejo retornar. Aqui dentro, onde pulsa a vida, uma voz me diz o tempo todo: “Tem que ser agora”. Então te olho nos olhos e peço para você dar o nome a essa coisa insana que se agiganta aqui dentro. Sei lá… Desculpa, sei que já estou me tornando desagradável, repetitiva, chata mesmo! Mas…Perdoa! Perdoaaa!!

Então aconteceu. De novo, aconteceu. Já deveria de estar acostumada afinal, não era minha primeira vez.

O já famoso e conhecido frio na barriga. Como já disseram antes e não consigo precisar quem, sinto “borboletas” batendo suas asas aqui dentro, em meu centro. A respiração entrecortada causa-me uma certa fadiga, uma sensação de quase morte. Passo a suar frio. Na nuca, nas mãos, e, enquanto em alguns lugares escorro em bicas, minha boca seca. Torna-se árida feito sertão. Uma certa acidez se espalha por toda a língua me impedindo de falar. Só sinto.

Só penso.

Não, minto. Pensar é um ato consciente. O que ocorre comigo é algo que ultrapassa qualquer lógica. Reporto-me a um buraco negro no espaço e ali permaneço. Os minutos vão passando lentamente, minha ansiedade ultrapassa os limites do suportável. Penso: Acho que vou morrer! De hoje não passo!

Então observo pessoas olhando para os lados, risinhos nervosos, expectativa estampada no rosto. Pessoas se encontram, se abraçam, sorriem, trazem no olhar um brilho diferenciado.

Após sorrir para algumas pessoas, abraço tantas outras, pisco para algumas distantes e sorrateiramente saio de cena. Subo os degraus que me levarão ao meu lugar. Para alguns, sou louca, para outros, corajosa. Para mim, normal afinal, já fiz isso tantas e tantas vezes que é como retornar ao útero materno. Conhecido, aquecido, gostoso.

Na penumbra, assim como no útero da mãe, permaneço. Me aqueço para logo mais. Olhar fixo num ponto aguardo.

Escuridão total. Silêncio…

As cortinas se abrem e junto o som harmonioso da banda e orquestra anunciando a voz que tanto aguardamos.

Olha, paixão não se explica. Sente-se. Deixa-se levar pelas emoções que ela nos proporciona.

E música confesso, é um de meus vícios. E não luto contra não. Envolvo-me totalmente e por alguns minutos, horas, esqueço de tudo: violência, carência, guerra, pobreza, fome, injustiça, contas a pagar. Uma alegria toma conta de mim por constatar que não estou sozinha nessa. Tenho muita companhia.

E nessa catarse coletiva, vou me despindo daquilo que não me serve, vou abrindo caminhos interiores através das notas musicais e da voz que me fascina e serve de fio condutor nesse meu nirvana.

Rio, choro, quase morro afinal, são tantas emoções desencadeadas que em alguns momentos penso que realmente meu coronário explodirá esparramando minha essência por todo o teatro.

Por algumas frações de segundos, retorno à realidade e vejo que muitas pessoas choram assim como eu.

Até os durões maridos e namorados que acompanham suas parceiras de forma contrariada, encontram-se emocionados. Não dá para disfarçar.

Ao término dessa sessão de descarrego do bom, voltamos para casa com a alma leve, sublimada, feliz.

Grata mais uma vez por esses representantes dos deuses servirem de ponte entre o sagrado e o humano.

Por algumas horas resgatamos nossa porção divina através da música, da dramaturgia, da sétima arte.

Esse texto é para você Pedro e para toda a galera que te ama!