Invisibilidade

A telinha a mantinha sociável e bem acompanhada. Mas…Que vontade de botar a cara para fora de casa e explorar o mundo exterior. Tinha medo!

Lá, naquele mundo virtual, tudo era fácil, rápido, bonito. Em pouco tempo, havia angariado uma leva de amigos virtuais que curtiam tudo o que escrevia. Sentia-se feliz, estava se tornando popular.

Mas aquela vontade de sair de seu quadradinho e ganhar o mundo, vira e mexe voltava e a deixava inquieta, angustiada. Queria mas não tinha coragem de se expor.

Fora criada com excesso de proteção. Primeiro por seus pais que enchiam a menina de mimos, brinquedos, carinho.

Depois da morte súbita de ambos, passou  aos cuidados de sua avó materna que, temerosa de que algo prejudicasse a menina, passou a sufocar e a superproteger de tudo e de todos.

Aos onze anos Donatella não quis mais saber de estudar e vó Rita fez sua vontade. Até gostou de ter sua neta o tempo todo em casa, em segurança.

Passaram-se anos vivendo da mesma forma. Rotina caseira, afazeres domésticos, quase não saía de dentro de casa.

A vida até que era boa! Dormia até tarde, comia a hora que quisesse, colhia em sua casa todos os bichinhos que por ali aparecesse pedindo abrigo. Para que pedir mais da vida?

Só que ela, a vida, não pensa da mesma forma e tratou de sacudir aquela existência paralisada. Ela, a vida, não aceita pessoas que embarcam nela para passar férias. Aqui, temos de labutar muito e provar a que viemos. Ninguém ganha ingresso vip para passar por aqui em brancas nuvens.

Avó Rita morre deixando Donatella aos cuidados de tia Noêmia, irmã mais velha de seu pai. Não se dão bem. Brigam o tempo inteiro. Noêmia, após um ano ao lado daquela sobrinha birrenta, muda-se para uma cidade interiorana sem deixar endereço.

Novamente Donatella se vê abandonada e, contra vontade, vai para a casa de sua outra tia Ruthnéia, irmã de sua mãe. Encontra no coração da tia, uma figura materna que retomará os cuidados com a já não menina.

Para garantir sua estada dentro de casa, compra um computador e ensina a utilizar tal ferramenta.

Aos cinquenta e sete anos, já trazendo em sua têmpora, fios grisalhos, Dona, sente que perdeu alguma coisa mas não sabe bem o quê. Anda preocupada vendo sua tia pouco a pouco perder a visão, a audição, o andar que antes era ligeiro e que hoje, não passa de um arrastar de pés cansados de viver.

Ela mesma já sente sua visão drasticamente reduzida, sua pele não é mais vistosa e macia quanto antes. Tem perdido o sono pensando que em breve perderá a companhia de sua doce tia. O que será de sua vida depois disso? Não tem mais ninguém, não sabe fazer nada afinal, sempre teve quem fizesse tudo por ela. O medo torna-se presença constante por aquilo que está por vir.

Tarde de domingo, chuvoso, cinzento, frio. Donatella se arrumou como pode, e está há quase duas horas ensaiando para sair de casa. Já foi a té a porta inúmeras vezes, toca a maçaneta e retira a mão como se recebesse uma descarga elétrica. Coça a cabeça, pisca, geme e volta a se sentar no sofá roto pelo uso de tantas décadas. Tudo ao seu redor envelheceu assim como ela. Hoje faz seis meses que sua tia não acordou mais. Há seis meses que vive solitária tendo como companhia apenas o computador desligado devido as contas da internet não pagas que a impediram de continuar as conversas e a interação com seus amiguinhos virtuais e os três gatos que sobraram daqueles dezessete que teve um dia. A solidão lhe pesa. A fome lhe abate pois nos últimos dias só tem ingerido restos da despensa farta que sua tia deixou. Parece até que já adivinhava que em breve partiria e fez questão de deixar para a sobrinha, um estoque de guerra que a sustentou por um tempo mas, como tudo nessa vida acaba, chegou ao fim.

Sente-se fraca, cansada, com medo. Lembra-se de umas primas distantes que perdeu contato há muitos anos. Tenta por todas as vias lembrar do endereço delas. Não consegue. Nunca foi ligada nesses assuntos de anotar endereço de ninguém. Nunca precisou! Sempre teve quem fizesse e se preocupasse com isso!

Percebe tardiamente o quanto foi prejudicada em sua criação. A intenção de todos até que foi boa mas a deixaram aleijada diante da vida. Chora baixinho lamentando seu triste destino. Sabe muito bem qual é e apenas aguarda o desfecho. Aceita.

– Alô, é da polícia né? Por favor, tem algo estranho acontecendo no número 143 da rua das Ortigas. Tem gatos trancados lá dentro que miam há dias sem parar, arranham portas e, confesso que eu e meu marido temos sentido um cheiro estranho vindo de lá. Como? Se conheço os moradores? Olha seu policial, conhecia a senhora que morreu há meses. Sei que tinha mais alguém lá mas nunca vi. Meu marido diz que já tinha visto uma outra mulher que morava lá e dificilmente saía de casa. Mas eu mesma nunca vi tal pessoa.

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10 comentários sobre “Invisibilidade

    • Sim Ariani, triste. Mais triste ainda é saber que não se atém apenas a ficção. Na vida real muitas pessoas se enclausuram em si e passam a vida na janela vendo a banda passar. Como já tão bem descreveu Chico Buarque. Grata pela visita e comentário.

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