Acumuladora

pessoa

Desde a mais longínqua lembrança, talvez pelos idos dos três anos, me transformei numa acumuladora.

Hoje, aos cinquenta anos, trago meus espaços lotados de coisas que fui catando e guardando sempre com o seguinte pensamento que ouvi muito de minha mãe e avó: Guarda que mais tarde pode precisar.

E assim fui seguindo a vida. Caminhando, abaixando-se para coletar coisas, pessoas, sentimentos, momentos, objetos. Com o espírito arquivista com que nasci, fui catalogando tudo. Nomeei, indexei, separei em diversas gavetas, armários, espaços que pouco a pouco fui abarrotando até que chegou um dado momento, bagunçou tudo!

Quando dei por mim, vi que havia se misturado alhos com bugalhos: lembranças, sentimentos, roupas, cartões postais, cartões de aniversário, papel de presente, roupas, calçados, lágrimas, amores perdidos, amores frustrados, jóias e minh’alma. Tudo junto e misturado. Sabe o que ganhei com tudo isso? Uma bela de uma camisa de força e férias por tempo indeterminado num spa que remodela a mente chamado “Hospício Sai dessa se for capaz”.

Nos primeiros dias fiz um tratamento de sonoterapia. Mandaram ver num sossega leão. Após uma semana, passei a conviver com outros acumuladores feito eu. Só que esses, acumulavam neuroses, esquizofrenias, doideira mesmo!

Bem diferentes de mim que só coleciono coisas boas, porque, vejam bem: louca eu não sou!

O coquetel de medicações fortes não conseguiram aplacar minha sede de catalogação. Em pouco tempo passei a colecionar e classificar tipos de doidos que haviam por lá afinal, tempo era o que mais tinha.

Na classificação FJ(Ficção infantil):

  • Nininha, da cara inchada com sua boneca de trapo;
  • Soladopé Bichado, com seu alicate de unha de plástico;
  • Suorembicas, com sua toalhinha rosa bordada com seu nome de batismo (Noeli);
  • Zéruela Frouxa, com seu carrinho de madeira

Na classificação 100 (Filosofia):

  • Sócrates no Latão, pinguço metido a filósofo que só fala coisa trash;
  • Sulamita Mente lerda, segundo soube, antiga professora de sociologia que pirou na batatinha quando largada no altar;
  • Voz da Razão, negro sério que viveu em Itapuã e gostava de discursar

Na classificação 200 (Religião):

Nessa classificação encontrei maior número de doidos. Não sei se tem alguma relação ou foi simplesmente coincidência.

  • Ruth, a enviada de Deus, senhora apática que passa o dia murmurando lições que o poderoso lhe passa;
  • Sarah, a pecadora, mulher de seus quarenta anos que deve ter sido bonita algum dia. Segundo dizem, prostituiu-se na rua Aurora, adquiriu gonorreia e sífilis que a fizeram endoidar de vez;
  • Jonathá, o iluminado. Albino de nascença que sabe a Biblía de trás pra frente e vice-versa;
  • Tião da bata, ex-seminarista que foi pego fazendo oral na meninada em fila no banheiro. A culpa e vergonha foram tamanha que despirocou o pobre de vez. Vive em penitência;
  • Celsinho de Iansã, meninomoça que servia os orixás e toda a gleba de seu terreiro. Segundo dizem, tem um encosto bravo de uma pomba gira. Vive se esfregando nos muros e nos homens;
  • Irmã Celeste da boca faminta, freirinha safada que não podia ver um padre que já saia babando e se molhando toda;
  • Mente Entorpecida de Sermão, evangélico chato que roubou até a mãe, se meteu em política, tomou uma coça de uns manos do Capão Redondo por extraviar dinheiro de drogas e de tanto apanhar, perdeu a razão. Passa os dias declamando sermão se achando Jesus Cristo na montanha;
  • Josué, o enviado de Jeová, cara chato como todos os fanáticos religiosos. Vive isolado porque não gosta de se misturar com os pecadores. A noite, em seu quarto bate punheta até se extasiar e sempre termina gritando: “Glória a Deus nas alturas e gozo eterno aos homens de boa vontade!”

Na classificação 500 (Ciências):

  • SantaFé, quando jovem cursou química e vive entre seus parcos livros desenvolvendo fórmulas e equações;

Na classificação 700 (Artes):

  • Bernardo Escultor, quando jovem percorreu a Europa, fixou moradia na Holanda, cheirou todas, fumou todas e acabou com sua massa cinzenta. Hoje passa seus dias lunático olhando o nada e esculpindo barro. Surta de vez em quando e vai para a solitária pensar na vida;
  • Catarina mãos de fada, cantora lírica, bailarina, atriz performática que afetou suas idéias de tanto beber. Ainda conserva sua bela voz e de vez em quando nos brinca com suas melodiosas e tristes canções

Na classificação 800 (Literatura):

Você leitor talvez me colocasse aqui nessa classificação mas eu não me coloco não afinal, doida não sou. Mas tem alguns escritores por aqui sim.

  • Luciano da Pena Corrida, escritor de cordel. Homem talentoso apesar de pirado;
  • Selena Vira Página, poeta ultrarromântica, depois que levou um pé na bunda de seu último partner, cortou os pulsos mas sobreviveu… ou não, sei lá;
  • Virgulino Dois Pontos, escritor macambúzio, vive pelos cantos. Escreveu tantos contos surrealistas e fantásticos que foi-se para o mundo da fantasia e nunca mais retornou. Ficou somente sua carcaça envelhecendo e apodrecendo nesse depósito de loucos

Caio num choro sem fim ao constatar que algum outro maluco talvez esteja me olhando, analisando e me catalogando como um ser estranho, mais uma maluca com mania de acumular lixo.

Mas em minha defesa, digo que minha loucura foi amar demais, viver demais, sentir demais…

É, acho que não tenho cura mesmo. Acumularei até afogar em minhas aquisições de vida. Muita vida.

 

Imagem: David Walker

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Difícil regresso

Dormi e acordei no país dos absurdos. Nada tem lógica, ética, nada com nada e eu, perdidinha por entre as alamedas do nonsense.

Circulo por entre vias que desconheço. Adentro corredores obscuros onde seres zumbizados repartem comissões duvidosas. Gargalham sentindo-se espertos. Afogam-se na própria ganância e fedem. Deus como fedem!

Enxofre é perfume refinado diante do odor que exalam. Tapo minhas narinas e passo correndo pulando seus restos mortais.

Tristeza…Procriam mais que coelhos. Morrem cem, nascem mil e assim, continuo caminhando tentando achar a saída desse mundo ao qual não me encaixo e vou cruzando com doutos da lei agindo fora da lei, religiosos pregando o amor e enaltecendo a família e pelas costas, em suas vidas dúbias, matando, roubando e se esbaldando em orgias e pedofilia.

É de ficar com dó do criador que teve, numa tarde de puro tédio no paraíso, a infeliz ideia de criar o homem. Ser racional para dar sentido a esse mundão que havia feito. Deve estar batendo a cabeça na parede até agora maldizendo a hora em que obedeceu seu instinto sem antes parar e analisar a situação. Tarde demais e a bosta se esparramou no universo.

Logo mais a frente, cruzo uma avenida tomada por matagal e visualizo um prédio que já deve ter tido seus dias de glória. Hoje não passa de uma mistura de concreto, vidro, ferrugem e mato. Com muita atenção identifico um antigo teatro que hoje abriga atores esfomeados, dividindo migalhas entre si e forjam uma apresentação relembrando seus áureos tempos em que a cultura era respeitada e enaltecida. Alguns caem em pranto gritando que não aguentam mais tamanha miséria e desrespeito. Ao fundo, adidos culturais asquerosos contabilizam seus ganhos ilícitos da Lei Rouanet . Estão pouco se lixando com os miseráveis artistas.

Por toda parte que passo, presencio atitudes mesquinhas, falta de caráter coletivo, miséria de todos os tipos. Subo morros, percorro vielas, desço ladeiras e nada de encontrar algo belo. Tudo muito viscoso, duvidoso.

Paro diante daquela visão imoral e choro. Choro por esse povo tão despreparado, indefeso, desinformado. Choro por mim que não consigo retornar ao lar, ao meu paraíso particular onde era aquecida, amada, alimentada.

Sinto saudade de meu mundo perfeito, organizado, limpo. Quero muito regressar mas tenho consciência de que isso é impossível. Uma vez que saí, não tem mais volta. Contudo, mesmo ciente das regras que imperam nesse universo que escolhi viver, desejo quebrar tais regras. Tornar-me reacionária, pegar em armas se preciso for, para fazer valer minha vontade que sei, é a vontade de todos que passam pelas mesmas dificuldades por aqui.

Achar o caminho de volta a terra mater que nos acolheu em sua quentura branda: o útero de minha mãe!

 

Lamaçal

porcos

Almejava ser mais criativa contudo, ELES, superam minha minguada criatividade. E, como outrora já aconteceu, reporto-me a Marie Darrieussecq pois não consigo olhá-los e não ver seus personagens se metamorfoseando.

Chega a me dar dó em comparar os pobres animais – no caso os porcos – a esses verdadeiros PORCOS, na pior referência a esse nome.

Chafurdam insanamente no mar de lama de corrupção, ladroagem da mais baixa estirpe – se é que existe mais baixa – e gargalham balançando suas enormes panças repletas de vermes que acumularam por uma vida inteira sentindo-se os maiorais em conseguir enganar uma gleba tão imensa e estúpida que se denomina Nação.

Com suas cuecas despencando pelas vias em que passam, dinheiro e merda ressecada, caminham estufando seus peitos flácidos esboçando um sorriso torto e um olho mais fechado que outro para botar banca de perigoso. Acreditam que assim, a gentalha emburrecida se encolham de medo. Mal sabem que o populacho se encolhe para defender suas narinas do cheiro fétido que emanam. É podridão demais!

Eu mesma tenho tido enjoos constante e até pensei que minha gastrite estava ativada. Depois é que cai em mim e percebi que era todo esse cenário caustico e desolador que me tem deixado mareada.

E enojada!

Queria tanto acordar desse pesadelo imposto goela abaixo sem nem mesmo ter um copo de coca para ajudar a descer.

Anseio poder abrir meus inocentes e puros olhos e descobrir que tudo não passou de um sonho mal, reflexo da feijoada mal passada que comi na noite anterior.

Constatar que meu mundo perfeito, colorido e belo não sofreu nenhum arranhão. Sair à rua e perceber que tudo está na mais perfeita ordem estabelecida por cidadãos de bem. Perceber que as pessoas são felizes, bem empregadas, não existe miséria nem analfabetos.

Dobrar a esquina e enxergar a vegetação das praças frondosas, o calçamento bem feito e que tudo segue uma ordem agradável.

Na periferia, encontrar pessoas simples mas felizes e bem alimentadas. Não obesas, ostentando uma capa de gordura produzida pelos fast food.

Já nem sei mais o que pensar, o que fazer diante de tamanha galhardia desses que tripudiam da massa. Tenho medo, tenho raiva – ódio ainda não – tenho desconfianças, tenho paralisia.

Acho que fui contaminada pelo germe da hipocrisia e finjo que no dia a dia está tudo bem.

Acordo, sigo minha rotina como se nada houvesse mudado. Continuo pagando minhas contas, cumprindo com minhas obrigações de cidadã de bem.

Só que não é bem assim… Por dentro rumino pensamentos e desejos ruins. Um gosto ácido se espalha por minha língua a cada notícia que leio ou ouço. Tudo isso está me contaminando e me levando o que de melhor desenvolvi em minha vida: a amabilidade, a gentileza, a confiança no ser humano.

Luto diariamente para rebater tudo isso mas está difícil. Sei que não me perderei de mim mesma porque tenho a essência boa mas, que tem hora em que dá vontade de sair cometendo loucuras…Ah isso dá viu!

Vai passar…Tudo passa…

E tudo retorna também. Ai meu Jesus!

 

Foto: Koen van Weel/AFP)

Doce amargor

Receio esticar os braços e tentar alcançar as estrelas. Medo de me queimar com sua luminosidade.

Da mesma forma, tenho medo de te tocar e me queimar com sua temperatura siberiana.

Prefiro me ater aos sonhos no qual tudo posso. Inclusive amar e ser amada por você.

Loucura? Covardia? Sim, os dois, assumidamente.

Não me envergonho de ter medo de arriscar, de sair da zona de conforto. Já fiz isso anteriormente e me dei mal.

Até hoje o sal que destilei arde a pele, cozinha minhas entranhas, deixou viscoso meus sentimentos… Quisera ser forte para enfrentar a possibilidade de um não, quisera ter forças para te puxar pelo colarinho e te situar sobre meu amor.

Te fazer enxergar que sem mim não é ninguém, não é feliz. Quimera!

Aqui em meu cantinho, busco inspirações em canções para te fazer real. Um amor de verdade feito romance Sabrina. Doce feito brevidade de vovó. No entanto, a realidade é amarga num misto de docefel.

Duro feito rapadura que a gente segura e lambe até se arrepiar. De você não me enjoo.

Lamberia até se esvair de amor por mim.

Ai de mim! Nem me nota!

Invisibilidade

A telinha a mantinha sociável e bem acompanhada. Mas…Que vontade de botar a cara para fora de casa e explorar o mundo exterior. Tinha medo!

Lá, naquele mundo virtual, tudo era fácil, rápido, bonito. Em pouco tempo, havia angariado uma leva de amigos virtuais que curtiam tudo o que escrevia. Sentia-se feliz, estava se tornando popular.

Mas aquela vontade de sair de seu quadradinho e ganhar o mundo, vira e mexe voltava e a deixava inquieta, angustiada. Queria mas não tinha coragem de se expor.

Fora criada com excesso de proteção. Primeiro por seus pais que enchiam a menina de mimos, brinquedos, carinho.

Depois da morte súbita de ambos, passou  aos cuidados de sua avó materna que, temerosa de que algo prejudicasse a menina, passou a sufocar e a superproteger de tudo e de todos.

Aos onze anos Donatella não quis mais saber de estudar e vó Rita fez sua vontade. Até gostou de ter sua neta o tempo todo em casa, em segurança.

Passaram-se anos vivendo da mesma forma. Rotina caseira, afazeres domésticos, quase não saía de dentro de casa.

A vida até que era boa! Dormia até tarde, comia a hora que quisesse, colhia em sua casa todos os bichinhos que por ali aparecesse pedindo abrigo. Para que pedir mais da vida?

Só que ela, a vida, não pensa da mesma forma e tratou de sacudir aquela existência paralisada. Ela, a vida, não aceita pessoas que embarcam nela para passar férias. Aqui, temos de labutar muito e provar a que viemos. Ninguém ganha ingresso vip para passar por aqui em brancas nuvens.

Avó Rita morre deixando Donatella aos cuidados de tia Noêmia, irmã mais velha de seu pai. Não se dão bem. Brigam o tempo inteiro. Noêmia, após um ano ao lado daquela sobrinha birrenta, muda-se para uma cidade interiorana sem deixar endereço.

Novamente Donatella se vê abandonada e, contra vontade, vai para a casa de sua outra tia Ruthnéia, irmã de sua mãe. Encontra no coração da tia, uma figura materna que retomará os cuidados com a já não menina.

Para garantir sua estada dentro de casa, compra um computador e ensina a utilizar tal ferramenta.

Aos cinquenta e sete anos, já trazendo em sua têmpora, fios grisalhos, Dona, sente que perdeu alguma coisa mas não sabe bem o quê. Anda preocupada vendo sua tia pouco a pouco perder a visão, a audição, o andar que antes era ligeiro e que hoje, não passa de um arrastar de pés cansados de viver.

Ela mesma já sente sua visão drasticamente reduzida, sua pele não é mais vistosa e macia quanto antes. Tem perdido o sono pensando que em breve perderá a companhia de sua doce tia. O que será de sua vida depois disso? Não tem mais ninguém, não sabe fazer nada afinal, sempre teve quem fizesse tudo por ela. O medo torna-se presença constante por aquilo que está por vir.

Tarde de domingo, chuvoso, cinzento, frio. Donatella se arrumou como pode, e está há quase duas horas ensaiando para sair de casa. Já foi a té a porta inúmeras vezes, toca a maçaneta e retira a mão como se recebesse uma descarga elétrica. Coça a cabeça, pisca, geme e volta a se sentar no sofá roto pelo uso de tantas décadas. Tudo ao seu redor envelheceu assim como ela. Hoje faz seis meses que sua tia não acordou mais. Há seis meses que vive solitária tendo como companhia apenas o computador desligado devido as contas da internet não pagas que a impediram de continuar as conversas e a interação com seus amiguinhos virtuais e os três gatos que sobraram daqueles dezessete que teve um dia. A solidão lhe pesa. A fome lhe abate pois nos últimos dias só tem ingerido restos da despensa farta que sua tia deixou. Parece até que já adivinhava que em breve partiria e fez questão de deixar para a sobrinha, um estoque de guerra que a sustentou por um tempo mas, como tudo nessa vida acaba, chegou ao fim.

Sente-se fraca, cansada, com medo. Lembra-se de umas primas distantes que perdeu contato há muitos anos. Tenta por todas as vias lembrar do endereço delas. Não consegue. Nunca foi ligada nesses assuntos de anotar endereço de ninguém. Nunca precisou! Sempre teve quem fizesse e se preocupasse com isso!

Percebe tardiamente o quanto foi prejudicada em sua criação. A intenção de todos até que foi boa mas a deixaram aleijada diante da vida. Chora baixinho lamentando seu triste destino. Sabe muito bem qual é e apenas aguarda o desfecho. Aceita.

– Alô, é da polícia né? Por favor, tem algo estranho acontecendo no número 143 da rua das Ortigas. Tem gatos trancados lá dentro que miam há dias sem parar, arranham portas e, confesso que eu e meu marido temos sentido um cheiro estranho vindo de lá. Como? Se conheço os moradores? Olha seu policial, conhecia a senhora que morreu há meses. Sei que tinha mais alguém lá mas nunca vi. Meu marido diz que já tinha visto uma outra mulher que morava lá e dificilmente saía de casa. Mas eu mesma nunca vi tal pessoa.