A bela do caixa eletrônico

Numa pose a la musa de Fellini, aquele ser, devidamente “montado” em seu traje segunda pele todo em paetê, sentia-se a própria Anita Ekberg do Butantã.

Todos que por ali passavam em pleno horário de rush, paravam para olhar. Olhares de curiosidade, de deboche, de gozação, de dó.

Alguns se horrorizavam e deitavam comentários que feriam aos ouvidos mais sensíveis. Outros tantos comentavam por entre os dentes, o quanto o ser humano pode descer na vida. Algumas senhoras religiosas se benziam com o sinal da cruz e saíam em disparada para bem longe daquela pouca vergonha. Um grupo de adolescentes riam até quase se mijarem diante da porta do caixa eletrônico do banco “que é perfeito para você”. Faziam micagens, coçavam a bunda, manipulavam suas genitálias com a intenção de humilhar aquela estrela despencada do céu.

Mas ela, em sua fantasia e talvez, auxiliada por doses cavalares de crack ou cola, ou coca, ou quem sabe de um simples aguardente de marca duvidosa, nem reparava na real platéia.

Em seus delírios, via-se desejada por homens ricos, bonitos e invejada pelas mulheres da alta sociedade afinal, sua beleza estonteante sempre fora a causa da inveja feminina.

Rolava pelo chão emborrachado e encardido feito uma autêntica sereia, mexia as pernas vestidas por meia arrastão de forma sensual, olhava para fora e piscava como coquete dos anos 10. Fazia biquinhos de Louise Brooks. Em seu imaginário, dançava uma pretensa coreografia passando suas mãos pelos falsos seios descendo até sua bunda de gaveta sorrindo e apresentando uma dentaria falha na boca murcha.

A festa acabou quado uma viatura encostou e dela, desceram dois policiais pitbull que, com expressões de bad boy, levantaram aquele travesti sem cuidado algum algemando-o e dando voz de prisão.

Ao sair do caixa eletrônico, Samantha Bico Doce, como era conhecida na região, sorria feliz dizendo que iria para uma noitada de muitas emoções:

– Eles me amam! Eles me desejam! Vamos para mais uma rodada de cinquenta tons de cinza. Úh!Úh!!

– Cala essa boca podre viado dos infernos! Báh!

O espetáculo acabou.

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2 comentários sobre “A bela do caixa eletrônico

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