Quero brincar de outra coisa

velhice alegre

Combinaram de brincar de O gato comeu a língua e não me avisaram.

Por que está todo mundo tão calado? Ninguém se olha, se fala, cada um voltado para seu próprio mundo.

O ser humano é engraçado mesmo. Ao se ver confinados, perdem a espontaneidade e vestem uma couraça para se protegerem. Se proteger de quê? Pergunto eu. Não tenho resposta até mesmo porque, eu também me retraio e fico confinada a minha existência interior. Ouço música, penso na vida, confabulo comigo mesma, desenvolvo histórias, crio personagens. Enquanto isso, no lado real da vida, as coisas correm, fluem. Os dias passam e passamos juntos, só que separados. Nem parece que somos uma equipe que convive há anos. Parecemos um grupo de desconhecidos confinados numa viagem da CVC. Todos muito sérios, compenetrados, evitando se olharem. Respirando de leve para não incomodar o colega.

Daqui de meu cercadinho penso com meus botões: onde foi parar aquele brilho nos olhos, o sorriso fácil, a leveza da boa convivência?

Eu mesma faço mea culpa pois hoje não sou mais aquela garota leve e sorridente que fui no passado. Sorrir até sorrio. Acho que sorrirei sempre. No entanto, perdi a leveza, a ingenuidade, a pureza que trazia no peito aos quinze anos. Idade em que olhava para esse mundão de Deus e me imaginava desbravando-o e conquistando meu espaço.

Conquistei ele – o espaço, sou feliz no que faço, foi minha escolha e não me arrependo só que não sei ao certo o que aconteceu nessa caminhada. Perdi algo muito importante. Sinto isso mas não consigo precisar o que. Sempre digo a minha mãe que “criar juízo” não foi uma coisa legal. Quando jovem e sem juízo nenhum, era muito mais feliz. O peso da responsabilidade sem dúvida pesa, causa cansaço, muitos compromissos assumidos, apertos financeiros, perdas…

Ser adulto é uma brincadeira que perdeu a graça. Ainda bem que inventaram a velhice ou, como se diz no politicamente correto, a terceira idade. Bonito isso não? Pois bem, Deus percebeu que sacaneou a humanidade e corrigiu a direção da vida nos fazendo envelhecer e perder a noção de certo e errado. Nos devolveu a infância! Ao perdermos pouco a pouco as conexões neurais, passamos a agir sem censura e de certa forma, voltamos s ser mais leves, mais feliz.

As vezes sinto uma certa invejinha das crianças e dos idosos ao vê-los se sujarem, se molharem, fazer caca na mesa e não estarem nem aí. Não sentirem vergonha do que o outro vai pensar. E nós, pobres adultos, cheios de etiquetas, de regras, de zelo pelo que é certo e o que é errado nos martirizamos diariamente tornando nosso fardo pesado demais.

Está decidido. Quero viver bem para chegar a velhice e voltar a desfrutar a criança que fui um dia.

Poder resgatar a menina desvairada, sem noção, alegre, arteira que deixei lá atrás.

E tenho certeza que serei bem feliz pois carregarei a mente esvaziada uma vez que, segundo os especialistas em neurociência, como passar dos anos, ocorre um declínio volumétrico. Trocando me miúdos, perdemos a cabeça!

Quer ser uma velhinha do balaco, arteira, rir muito, conversar com as estrelas, namorar a Lua, consultar o vento, dormir ao relento e, quando minha vez chegar de prestar contas ao Síndico, repousar a cabeça tranquilamente e deixar esse mundão sem saudades, nem apegos. Fluir. Simplesmente fluir.

Que assim seja!

 

Ilustração de Bruna Taynara

 

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2 comentários sobre “Quero brincar de outra coisa

  1. Ai, que delícia!!! Super concordo que criar juízo não é divertido. Nadica. Rs… Não sei se chego a idade de perder a cabeça de novo (se é que alguma vez ela esteve no lugar), então me perco, como você, nas minhas histórias e meus personagens. Todos nada sãos…hahaha

    Belíssimo texto!

    Até! (breve desse vez, espero) 😉

    • Sempre bom ver você por aqui Marcia! E como é bom perder-se por entre personagens tão ricos não é mesmo? Criar mundos, paisagens… Somos Deus criando universos, rsrs
      Te aguardo por aqui sempre. Até

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