Recado de última hora

Traço essas parcas palavras tendo a minha frente um mar convidativo e um céu azul de brigadeiro. Ando afastada por um motivo bem justificável: férias!!! Fora de hora pois anteciparam. Chato isso não? Afinal, gosto das coisas certinhas, sou metódica e essa saída fora do compasso me deixou meia esquisita mas…Se é o que tenho, estou curtindo e muito!

Sozinha (depois conto em detalhes minhas aventuras) mas jamais solitária, cercada de gente bonita, alegre e muitos personagens despontando por aqui. Está certo que a preguiça, o ócio estão ganhando essa batalha mas, não reclamo não. Está bom demais e estava precisando dessa pausa para recarregar as baterias.Leitores queridos, agradeço imensamente esse ano juntos e desejo a todos um Ano Novo com muitas realizações, muitas alegrias. E eu, de minha parte pretendo postar muitos textos inéditos por aqui. Conto com vocês em 2015. Fui que o mar me espera!!!

P.S. De vez em quando acho que passo por aqui mas não prometo nada rsrs

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Puta pregui

preguiça na praça

Meu estado constante é um só: preguiça. Mas não é qualquer preguiça não.

É a preguiça. Aquela que se esparrama, toma conta de nossa corrente sanguínea, inunda o cérebro, paralisa nosso sistema motor, entorpece os sentidos, adormece a derme, pesa os olhos, susta a respiração. Morre-se em vida.

A preguiça que por excelência nos coloca em processo slow motion ou, como no meu caso, fico lenta por dentro e hiperativa por fora. Alguém aqui já se sentiu assim?

Quanto mais cansada e com preguiça, mais hiperativa fico. Não consigo achar o botão de desliga. É um inferno!

E falando em inferno…Caramba! Fazendo aqui uma leitura em braille pelo meu rosto, captei uns pelinhos indesejáveis no queixo e no buço.

Envelhecer é uma merda mesmo!

Tá chocado com minha linguagem? Ah depois de uma certa idade pode-se tudo e eu me permito. Merda!Merda!Merda!

Ai, cansei!

Então, preguicei. Again and again and again. Ever! Always…

Escrevi em inglês por pura preguiça de escrever em português mas como meu inglês é limitado retornei à língua pátria.

Mas voltando a ela, a preguiça, desconfio que já nasci com ela pois minha mãe sempre diz que demorei para nascer. Aposto que era ela já se manifestando no útero e me impedindo de estrear afinal, lá dentro estava quentinho, confortável, silencioso. Sair pra quê?

Demorei tanto a vir ao mundo que, pra se ter uma ideia, era para ser de gêmeos e acabei virando canceriana tamanha a demora em nascer. Não ri não que é a mais pura verdade.

Toda manhã, acordo vou para a cozinha e preparo meu café da manhã. Tudo isso ligada no piloto automático porque meu cérebro ainda não despertou. Tudo pronto, sento-me e fico catatônica, olhando para o nada, sem mover um músculo.

As pessoas conversam entre si e eu ali, só de corpo presente. Não consigo pensar, assimilar a conversa, nada.

Fico presa num limbo entre a realidade sólida e o inconsciente.

Tudo muito nebuloso feito as brumas de Avalon.

Às vezes, pra não ficar tão mal pra mim, jogo a culpa na anemia que tenho desde pequena. Digo que ela é a culpada desse meu jeito devagar quase parando. Só que no fundo sei que não é a anemia a causadora disso tudo.

É ela, a famigerada preguiça que, fominha do jeito que é, toma conta. E eu, fragilizada que sou, deixo-me dominar e embarco nela permitindo que faça ( ou que nada faça) o que quiser de mim. Sou sua eterna refém.

E… Como falava…Ela, a preguiça…

 

Então…Ela voltou com udo…

 

Ai gent  peralá. Dá não…

Chega. Vou ali tirar um cochilo depois volto para acabar

 

Imagem: ai gente, a preguiça me impede de pesquisar a fonte. Sorry!!

 

Quero brincar de outra coisa

velhice alegre

Combinaram de brincar de O gato comeu a língua e não me avisaram.

Por que está todo mundo tão calado? Ninguém se olha, se fala, cada um voltado para seu próprio mundo.

O ser humano é engraçado mesmo. Ao se ver confinados, perdem a espontaneidade e vestem uma couraça para se protegerem. Se proteger de quê? Pergunto eu. Não tenho resposta até mesmo porque, eu também me retraio e fico confinada a minha existência interior. Ouço música, penso na vida, confabulo comigo mesma, desenvolvo histórias, crio personagens. Enquanto isso, no lado real da vida, as coisas correm, fluem. Os dias passam e passamos juntos, só que separados. Nem parece que somos uma equipe que convive há anos. Parecemos um grupo de desconhecidos confinados numa viagem da CVC. Todos muito sérios, compenetrados, evitando se olharem. Respirando de leve para não incomodar o colega.

Daqui de meu cercadinho penso com meus botões: onde foi parar aquele brilho nos olhos, o sorriso fácil, a leveza da boa convivência?

Eu mesma faço mea culpa pois hoje não sou mais aquela garota leve e sorridente que fui no passado. Sorrir até sorrio. Acho que sorrirei sempre. No entanto, perdi a leveza, a ingenuidade, a pureza que trazia no peito aos quinze anos. Idade em que olhava para esse mundão de Deus e me imaginava desbravando-o e conquistando meu espaço.

Conquistei ele – o espaço, sou feliz no que faço, foi minha escolha e não me arrependo só que não sei ao certo o que aconteceu nessa caminhada. Perdi algo muito importante. Sinto isso mas não consigo precisar o que. Sempre digo a minha mãe que “criar juízo” não foi uma coisa legal. Quando jovem e sem juízo nenhum, era muito mais feliz. O peso da responsabilidade sem dúvida pesa, causa cansaço, muitos compromissos assumidos, apertos financeiros, perdas…

Ser adulto é uma brincadeira que perdeu a graça. Ainda bem que inventaram a velhice ou, como se diz no politicamente correto, a terceira idade. Bonito isso não? Pois bem, Deus percebeu que sacaneou a humanidade e corrigiu a direção da vida nos fazendo envelhecer e perder a noção de certo e errado. Nos devolveu a infância! Ao perdermos pouco a pouco as conexões neurais, passamos a agir sem censura e de certa forma, voltamos s ser mais leves, mais feliz.

As vezes sinto uma certa invejinha das crianças e dos idosos ao vê-los se sujarem, se molharem, fazer caca na mesa e não estarem nem aí. Não sentirem vergonha do que o outro vai pensar. E nós, pobres adultos, cheios de etiquetas, de regras, de zelo pelo que é certo e o que é errado nos martirizamos diariamente tornando nosso fardo pesado demais.

Está decidido. Quero viver bem para chegar a velhice e voltar a desfrutar a criança que fui um dia.

Poder resgatar a menina desvairada, sem noção, alegre, arteira que deixei lá atrás.

E tenho certeza que serei bem feliz pois carregarei a mente esvaziada uma vez que, segundo os especialistas em neurociência, como passar dos anos, ocorre um declínio volumétrico. Trocando me miúdos, perdemos a cabeça!

Quer ser uma velhinha do balaco, arteira, rir muito, conversar com as estrelas, namorar a Lua, consultar o vento, dormir ao relento e, quando minha vez chegar de prestar contas ao Síndico, repousar a cabeça tranquilamente e deixar esse mundão sem saudades, nem apegos. Fluir. Simplesmente fluir.

Que assim seja!

 

Ilustração de Bruna Taynara

 

Gata Macgyver

Olhando pela janela e vivendo um baita dilema: quero muito que chova porque a coisa está ficando preta para nós vendo a água literalmente escoando. Mas…Por outro lado, Jesuissssssss!!! Fiz minha progressiva hoje no horário do almoço e NÂO posso molhar meus cabelos! Deu pra entender?

Não? Como não? Ah, mas você mulher que me lê sabe do que falo e entende esse meu dilema.

Sou adepta da natureza e acho que devemos fazer nossa parte para evitar o caos. Só que, se a chuva cair como está prometendo, EU é que ficarei um caos de cabelos estragados e de bolso esvaziado.

São Pedro vamos negociar: preste atenção a esse pedido que faço. São exatos 16h19 faltando pouco para as 17h, horário em que raspo daqui do trabalho rumo a minha casa. Segura sua onda até eu entrar pelo menos na estação de metrô e ficar segura e seca. Entendeu? Não te peço muito. Guenta aí que eu faço minha parte daqui e todos ficaremos satisfeitos ao término do dia.

Como assim leitor? Ainda não compreendeu meu sofrimento? Te explico melhor: a chuva que nós paulistanos tanto ansiamos que caia está se formando e já já desaba. Eu, euzinha vim trabalhar hoje e esqueci minha sombrinha em outra bolsa (sacumé, mania de mulher mudar de bolsa). Fiz minha progressiva conforme já disse antes e não posso molhar o cabelo EM HIPÓTESE ALGUMA caso contrário, todo meu investimento vai pelo ralo junto com os pingos d’água. Entendeu agora ou terei de desenhar?

16h36

Tarde demais a chuva já está caindo. Santo traidor! Aposto que se fosse santa muié compreenderia minha aflição e intercederia por mim e por tantas outras que estão sofrendo feito eu. Revoltada viu santinho. Óh, perdeu pontos comigo. Em meu altar jamais pisará por toda a eternidade que eu viver.

Olho para os lados em busca de um socorro ou de um paliativo para salvar meus cabelos do efeito miojo caso ele se molhe.

Já sei!!! Peraí que vou correndo lá na cozinha da empresa e já volto. É um piscar para ir e outro para voltar. Não saia daí.

Risos… Alguns disfarçados, outros escrachados na minha cara, piadinhas das mais infames. Tudo bem eu aguento! Tudo por um bem maior. No caso, meus cabelos. Passo peroba na cara e sigo enfrente ignorando tudo até chegar ao meu destino.

19h15

Passo a chave na porta de minha casa e entro.

Mas o que signif…

Calada! Não quero um comentário sequer de como estou.

Isso, ria de mim. Pode rir a vontade que eu aguento o tranco. Já segurei onda bem pior no trajeto. Tô nem aí.

Corro para meu banheiro e solto meus cabelos para ver se está tudo em perfeito estado. Após alguns minutos examinando todo o território da cabeça feito doutora Kay Scarpetta, relaxo e respiro fundo sentando-me no vaso sanitário.

Segurando nas mãos meu salvador, choro de alegria por ter me safado de mais uma enrascada. Levanto-me, olho no espelho novamente e sorrindo um sorriso Colgate  digo a mim mesma:

Está linda! Além da gata, mostrou que é uma gata descolada e inteligente. “Gata Macgyver“.

Quem diria que o filme plástico para embalar alimentos seria o meu salvador? Só você mesmo para ter ideia tão brilhante menina. Só você! Acho que vou patentear essa ideia!

A culpa não é das estrelas. É das moscas

moscasTravo uma luta desigual com moscas minúsculas que rondam minha sala. Elas são muitas e organizadas e absurdamente insuportáveis em sua teimosia em querer tomar de mim, meu panetone.

Você ri? Daqui de onde me encontro não vejo graça alguma. Luto para abrir a boca e levar um naco pra dentro.

Sem acompanhantes. Tenho de desenvolver mil mãos para abanar a todas enquanto abro a boca e nhám!

Ao mesmo tempo, tenho de ser rápida o suficiente para tomar meu gole de café, não deixar que a porra dessa merda de ventilador ligado em minha direção faça voar tudo e ainda afastá-las (elas, as moscas) do teclado do computador que é por onde vos escrevo.

Parando agora para pensar um pouco, a situação chega a ser hilária.

Ainda tenho de travar outra luta – essa interna – com meu aparelho ortodôntico que disputa comigo as migalhas do panetone. Minha língua, feito soldado medieval futuca ferozmente o pedaço da massa que ficou refém dos elásticos e dos fios ortodônticos. Não dá para ter finesse assim. Ninguém merece!

O que? Ficou com nojinho foi? Larga de frescura vai? Quem nunca? Hã?Hã?

Droga! Esqueci que panetone me dá dor de estômago. A fogueira da inquisição estomacal já iniciou por aqui. Sinto-me a própria Joana D’Arc ardendo em praça pública. Sim, porque também me encontro rodeada de pessoas nesse exato momento e todas acompanham disfarçadamente meu sofrer. Sabe, vou confessar uma coisa a vocês: não sei disfarçar muito bem. Devo estar fazendo cada careta! Minha mãe sempre falou que sou careteira desde pequena. Acho até que é por isso que se implantou uma rede rugal por toda minha face de fazer inveja a malha viária e ferroviária da cidade de São Paulo. Culpa das caretas desde pequena. Não há creme rugol que desfaça tais vias muito menos apelar para o Santo Pitanguy. Até mesmo porque não ganho para pagar um trato da parte dele.

Isso me fez lembrar da série de plastificadas que cresce a cada dia no mundo. Sempre fui da opinião de que jamais farei plástica nem uso do famigerado Botox. Pra ficar com cara de Barbie mumificada e inexpressiva? Jamais!! Prefiro minhas rugas que darão verdadeiros concertos fólicos cada vez que eu sorrir a rir ou chorar com a alma porque o rosto plastificado e paralisado impedirão as pessoas de decodificarem minhas emoções.

Vocês já repararam nas mulheres que fazem plásticas incessantemente mas que se olharmos para suas mãos e pescoços, parecem aquelas galinhas d’angola?

Ah! Vai dizer agora que estou morrendo de ataque de invejinha delas?

Não mesmo. Tanto assumo minhas rugas quanto assumo minhas mãos e pescoço que já demonstram sinais do tempo e do mal trato. Minhas mãos envelhecidas, repletas de veias esverdeadas, meu pescoço que, com a perda de elasticidade e gravidade, pendem feito goela de peru. Outro dia, diante do espelho (maldito espelho!) fiquei irada depois caí numa gargalhada sem fim observando meu papo murcho que pendia de um lado a outro conforme eu movia a cabeça. Senhor! Mata-me aos vinte porque dos cinquenta em diante é judiar demais!

Gentem, ai Meu Deus! lembrei!

Outro dia, fazendo meus pés, observei que os dedos estão se entortando e se desalinhando todo. Parece que se desuniram numa briga familiar e cada um quer seguir um caminho. Um horror! Putz meu caro e minha cara, envelhecer é isso? Os nós das mãos estão engrossando e ficando doloridos impedindo de fechá-las muitas vezes.

Ah! Outra coisa: outro dia, experimentando biquínis para minha próxima viagem, toda empolgada que estava, reparei que minha barriga mudou de paisagem. De chapada transmutou em Morros. E uivantes porque aquele monte de pele (ou será pelanca) sobrando se amontoam parecendo  uma cadeia dos Andes. Completou-se o quadro e cheguei a seguinte conclusão: na próxima viagem passarei em uma loja muçulmana e comprarei uma coleção completa de burcas. Coloridas para não ficar tão triste afinal, é verão minha gente! Alegria!Alegria! Como já cantava Caetano.

E já vou parando por aqui antes que me jogue dessa imensa janela que dá para o Parque Trianon. Não é bem assim que desejo ficar para a posteridade.

Mas tudo isso começou como mesmo hein?

Ah! Tudo culpa das moscas. Malditas moscas que me infernizaram o dia inteiro por aqui.

Amanhã prometo trazer minha raquete elétrica para acabar com a alegria delas.

Mas o que é isso que vejo agora…verruga no dedo?? Ainnnnnnnnnnn…

Cega-me de vez Bom Deus pra não ver mais desgraça!

 

 

Imagem: Google

 

Divagando sobre o menestrel

osvaldo-montenegro

Tem canções que nos embalam e transmitem coisas tão boas ao nosso espírito que, francamente, não sei como ainda existe pessoas que não gostam de ouvir música seja ela que ritmo for.

Nesse exato momento em que escrevo, ouço Oswaldo Montenegro, o menestrel do século 20.

Sou fã desde que ele surgiu pela primeira vez no Festival da música brasileira lá pelos idos de… Ah, deixa pra lá.

Bandolins, sua canção que pegou terceiro lugar no Festival que agora lembrei (minto, pesquisei no Santo Google), Festival 79 da extinta TV Tupi, que perdeu para a canção de Dominguinhos e Manduka “Quem me levará sou eu”, interpretada por Fagner (Roseli também é cultura)…Eita! Divaguei, o que falava mesmo?

Ah! Lembrei! Xiiii, tem alemão rondando a tia aqui! Xô deutsch! Xô!

Lembrei! Então, desde que o vi e ouvi na telinha – não da Plin!Plin! mas da outra, a concorrente, a Tupi, a do indinho – fiquei fascinada por sua voz potente e pela letra que é bárbara e por sua feiura bela – cabeludo, barbudo, másculo, ai,ai, pirei na batatinha! Virei fã!

De lá pra cá fui colecionando seus LPs, seus CDs, seus DVDs e shows e musicais. Quando nos idos da década de 90, fui convidada por uma colega da faculdade a ir com ela assistir ao musical  Noturno, simplesmente desbundei de vez. Saí de lá extasiada, com vontade de sair dançando pelas ruas da cidade e cantando feito seus personagens. E as canções desse musical então? E a interpretação e arranjo do grupo com a música But i still do U2? Delirante!

Gostei tanto desse musical que assisti mais duas vezes e ainda pretendo assistir mais. Identificação total!

Anos mais tarde pude ver o musical Léo e Bia e foi a mesma sensação de querer levantar do assento e subir ao palco para fazer parte do elenco e cantar e cantar e cantar. Pena que não tenho voz e seja tímida. Mas que maravilha!

Engraçado, lembrei de uma famosa frase dele, o Montenegro, em seus shows quando começa a falar com a platéia “Mas não era nada disso que queria falar” porque na realidade, já nem sei mais o que queria falar a não ser do quanto gosto do som que ele faz. Não vou discorrer mais não até mesmo porque, estou cansada, é final de sexta-feira e quase no meu horário de raspar daqui e iniciar meu fim de semana. Mas que gosto dele… Ahhhhhhh Gosto!

Fui galera!

Fora da casinha

Tudo anda muito estranho por aqui!

Como assim?

Estranho…

Estranho como?

Não sei te dizer, mas que está estranho, ah isso tá!

Não entendo, tente especificar o que acha estranho pessoas, situações, o ar, o clima

Tudo!

Não generaliza, dá um exemplo

Você

Eu?

O que tem eu a ver com essa história toda?

Tudo

Desenha pra mim

Não sei desenhar

Só sinto

Tudo

Estranho

Eu hein…só tem maluco!

 

Imagem: Beavis and Butthead, de Mike Judge

No barulho de meus silêncios

E elas – as pessoas – continuam a falar, falar, falar… E eu, continuo fechada de forma hermética num aquário invisível onde somente eu vejo. Habito nele quando sinto cansaço de vida. Dessa vida.

Suspiro!

Apaixonada benhê? – alguém grita de longe, logo aqui ao meu lado.

Respondo em meu interior: Não. Talvez a falta da paixão é que me deixe assim, desfragmentada, em pedaços nano espalhada por todo espaço que circulo.

No fone de ouvido, ouço “Universo no teu corpo”, Taiguara. Viajo para mais longe ainda. Imagino esse amor que nunca conheci a não ser nas letras musicais e folhetins. Miragem.

Agora ouço “Hoje” e sinto meus olhos se inundarem. Identifico-me com a melancolia dessa canção. Sou toda ela.

Meu eu interior se aperta num corselete antigo. Sou vintage assumida. A modernidade me cansa. Sinto exaustão.

Anseio retornar para meu mundo que ainda não descobri qual é. Com certeza não é esse que em vivo.

Algum desavisado, lendo isso pode julgar que estou depressiva, prestes a cortar os pulsos ou pular do alto de um prédio. Não seria corajosa a esse ponto!

Encolhida em minha pequenez, percorro os dias, catando migalhas de alegrias, colecionando sorrisos congelados num fash de instagran, interpretando e convencendo a todos que sou feliz. Feliz? Nem sei o que é isso!

No entanto, mantenho a pose de boa menina sendo cortês com todos, cumprindo minhas obrigações, pagando minhas contas, servindo de exemplo a quem procura algo que também não sabe o que, assim como eu.

Isso é viver? Vivo.

E as falas continuam num ritmo febril…

Gralhas… Elas são muitas e afoitas. É o desespero que as força a falar sem parar porque se calarem, ouvirão o mesmo silêncio que ouço e nem todos têm couraça endurecida para aguentar o tranco. O silêncio fere, rasga, sangra e pode até matar quem não está preparado para ele.

Olho o relógio. Quase hora de fechar mais um ciclo dessa modorrenta vida. Chego a lembrar dos livros de Clarice Lispector que nunca cheguei a ler. Alguém certa vez me disse que pareço personagem dela. Na época não entendi mas acho que posso tomar como elogio. Nem sei porque isso me veio à lembrança.

Talvez um dia me empolgue a ler algo dela. Quem sabe…

E elas continuam a falar, e a falar e a falar…

Mergulho no oceano escuro que se forma em minha mente. Aqui, é escuro, silencioso, suas águas são paradas e mornas.

Tenho paz.

Fuga ao entardecer

trianon banco

Em meio a tantas conversas paralelas que se cruzam e me transpassam, encontro-me isolada num mutismo.

Não consigo fazer parte dessa massa que fala incessantemente. Verborrageiam assuntos pueris, desnecessários – pelo menos para mim e assim, vou ficando pelas beiras fugindo através de minha mente poética.

Aspirando novos ares, novas paisagens, renovando meus sonhos, imaginando novos mundos e personagens.

A realidade me nauseia.

Procuro a cura através da ficção, da quimera, da palavra trabalhada.

Talhada na madeira macia e maciça da ideia.

Paideia, nova roupagem, já imagino uma nova imagem.

De um mundo mais redondo, de arestas aparadas, seres humanos mais centrados, iluminados.

Natureza em equilíbrio com monumentos erguidos. O homem, fazendo parte mínima num mundo mais justo.

Um luxo! Sem paetês, nem pedrarias falsas, sem dinheiro fácil para poucos.

Os porcos? Longe. Bem longe chafurdando na lama merecida de suas bostas expostas.

Cenário idílico no qual desconhece-se a fome, a miséria,a falta de oportunidades.

Haverá chances para todas as idades. Crianças terão a alegria de vivenciarem sua infância em sua plenitude, os jovens iniciarão suas vidas sem pressa de ingressarem ávidamente nas universidades correndo atrás de nada, sentando-se em bancos escolares assimilando o nada.

Para que pressa em ser infeliz? Visualizo seres mais leves, de gestos não ensaiados, sem serem programados. Sorrisos fáceis, olhares diretos, discretos.

Livres de qualquer tirania seja da moda, conduta, escolhas.

Amores verdadeiros, presenciais – nunca mais virtuais, banais. Retorno ao olho no olho. Cortejos verdadeiros, suspiros profundos, acasalam___________________

ROSELIIIIIIII

Aii!!!

Volta de Nárnia Roseli, o povo tá perguntando o que vai querer pro lanche da tarde!

Risada geral, retorno brusco à realidade e as conversas paralelas permanecem deixando-me com um gosto ácido da bile por algo mal digerido: alimentos, pensamentos, movimentos soporíferos que me inundam o interior.

Levanto-me numa atitude de afastar toda essa agitação que me rodeia fora e me aprisiona dentro e sigo rumo a ampla janela que dá para o Parque Trianon. Apreciar a vegetação em seus movimentos peculiares me amansa a alma embriagada de sonhos e carente de doces realidades.

E então Roseli? Roseliê!!!! Acorda mulher! O que vai querer pro lanche? Tô indo na padoca da rua de baixo.

Após um minuto respondo de pronto:

Sonho!

 

Imagem: Google