Fobia (codinome Solidão)

shutterstock_123697309

 

Tenho medo…

De andar sozinha, de andar de elevador, escada rolante, viajar de avião, de navio.

Tenho medo…

De sair na rua à noite, de atender a porta a estranhos, de ir ao caixa eletrônico, de médico, de dentista, de exames ginecológicos.

Passei uma vida inteira com medo de muitas coisas como por exemplo, medo do mar. Fui uma única vez e saí correndo com medo das ondas. Não voltei nunca mais!

Quando moça, queria muito namorar mas quando surgiu a chance, tive medo. Afastei-me do moço deixando-o sem entender nada. Deve ter ficado com muita raiva de mim. Também fiquei…Com muita raiva…De mim.

Passei uma vida trabalhando muito e ajudando o próximo. Cuidar da vida alheia era mais fácil do que cuidar da minha. Não tinha que pensar. Era seguir em frente e fazer algo, pelo outro.

Os anos passaram rápido, a juventude também. Quando dei por mim, enxerguei no espelho uma velha que não conhecia. Uma completa estranha. Tive medo do que vi. Nunca mais olhei-me no espelho! Tirei todos que tinha em casa.

Mais alguns anos se passaram e eis que deparo novamente com algo que me dá muito, mas muito medo mesmo.

Acho que estou doente mas me recuso a procurar um médico. Eles adoram fuçar até achar algo que desgraça com o ser humano. Vou fingir que nada tenho. Mas tenho medo. Muito medo!

Semana passada passei muito mal e os vizinhos me levaram a força a um hospital. Deus do céu, que medo tive!!

Uma correria de médicos, enfermeiras, picadas na veia, máscara de oxigênio, um horror! Pensei ter chegado minha hora. Pânico total.

Mas ele, meu fiel companheiro, estava lá de prontidão. Sua presença marcante me tirou da apatia e reagi à presença sedenta dela, a morte.

Mais alguns dias e retornei a minha casa. Solitária, fui me virando como pude. Alegaram a ida para uma clínica. Lá seria bem atendida, teria companhia de outros idosos. Neguei veemente! Não saberia viver ao lado de estranhos e também, tinha medo do desconhecido.

Tic!Tác!

Tic!Tác!

Tic!Tác!…

De olhos cerrados, encolho o quanto posso debaixo das cobertas. Minha audição já desgastada pelos anos parece que amplia diante dele, o medo, que até então parecia ser minha única companhia.

Mas acho que tem mais alguém aqui comigo. Vontade louca de gritar mas falta-me forças. A garganta se fecha, sinto ardor e o gosto salgado das lágrimas que escorrem de meus olhos cansados e embaçados pelo tempo.

Ouço sons de algo se mexendo. Parece papel, plástico… Ouço passos e nem sei se é em meu quarto ou em outros aposentos.

Taquicardia.

A voz surge numa força que nunca tive. Sai num grito desesperado. Grito até perder novamente a voz e levanto tão rápido chegando a me esquecer do reumatismo que me acomete a anos. Corro e grito pelo quarto, subo na cama sentindo algo se apegar em minhas peludas pernas varizentas.

Ahhhhh!!!!!

Num ato de coragem abro os olhos e o que vejo é uma barata enorme caída de pernas pra cima na cama. Silencio e passo a examinar aquele ser que parece tão assustado quanto eu. Mexe suas pernas e suas antenas num desespero semelhante ao meu.

Aos poucos, vou me acalmando e constato que ela é um ser inofensível. Percebo que eu, naquele quarto fechado, é que sou a ameaça que impera. Tenho o poder de matar, de acabar com uma vida mesmo que essa vida seja de um simples representante da ordem das Blattodeas.

Minha respiração se normaliza e ao amanhecer, já me tornei íntima dessa barata que batizo de Romilda.

Te nomeio Romilda da ordem das Blattodeas, minha fiel companheira,  até que a Senhora das Boas Mortes venha me buscar. Até lá, faça-me companhia, desvia meu pensamento de coisas tenebrosas, ouça meus lamentos e injúrias quieta, sem contestar. Prometo que se assim fizer, deixo esse casarão inteiro para você como recompensa em aguentar essa velha louca e solitária até os últimos dias de sua vida. Aceitas essa missão?

Após minutos que parecem séculos, a barata balança suas antenas numa aceitação de minha proposta.

Sorrio. Posso morrer em paz, agora não sou mais sozinha.

Imagem: Shutterstock

Anúncios

13 comentários sobre “Fobia (codinome Solidão)

  1. Que nervoso, Roseli….
    Já fui mais medrosa, já tive panico e tenho um pouco de fobia social, de machucados, de sofrimento alheio… um monte de coisa… rsrs mas tento não me lembrar de tudo isso e viver quase q normalmente. Acho q consigo.
    Beijos, querida, boa semana.

    • É Clara, nos dias de hoje, raro ver quem não sofre de alguma fobia. Eu mesmo tenho várias que procuro manter sob controle. E assim vamos vivendo. Grata pela visita e comentário.
      Bjs e uma ótima semana procê também!

  2. Nunca fui medrosa. Só tenho medo da dor e, bem, ninguém gosta de sentir dor. Já me aventurei numa página de Wikipédia sobre fobias e não achei nenhuma que eu me identificasse.
    Mesmo que não tenha medo em excesso, me identifiquei com a personagem. Cuidar dos outros é mais fácil do que de si mesmo. Ir ao médico? Não, obrigada, eu vou ficar boa logo, só espere um minuto e me traga um copo d’água. E apesar de ter gostado muito da personagem, temi que eu terminasse assim como ela. Com uma barata chamada Romilda da ordem das Blattodeas. Não gosto de baratas, elas vivem em esgotos.
    Passou um filme na minha cabeça. Sua escrita é linda! Parabéns!
    Beijos e sem baratas, por favor!

    • Seu comentário bateu gostoso aqui em meu coração! A escrita já faz parte de minha vida, minha rotina, é meu alimento e saber que ela está sendo apreciada pelos leitores, puxa! Só posso agradecer profundamente. Obrigada! E apareça sempre que puder!
      Bjs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s